Notas e artigos sobre crítica de arte na Revista Illustrada

contribuição de Rosangela de Jesus Silva

Figura intrigante, crítica, política e ativa, Angelo Agostini marcou com seu traço a história brasileira. Nos periódicos pelos quais passou, ficou seu caráter militante, sua ironia e comicidade estampados nos seus comentários. Suas críticas provocaram inquietações e descontentamentos para os quais a imprensa serviu de tribuna de discussão. O presente levantamento reúne os textos publicados na Revista Illustrada, entre 1876 e 1888, período no qual esta a frente do períodico. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/

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Índice de artistas citados

A. Alves

Abigail de Andrade

A. de Pinho

Albert Durer

Albert Henschel

Alexandre Cabanel

Algaier

Amélia C. de Albuquerque

André Gil

Angelo Agostini

Annibale Carracci (Carrache)

Antônio Alves do Vale de Souza Pinto (A. Valle)

Antônio Araújo de Souza Lobo

Antonio Firmino Monteiro

Antonio Parreiras

Arsênio Cintra da Silva

A. T. Teixeira

August Off

Auguste Petit

Augustin Théodule Ribot

Augusto Barradas

Augusto Rodrigues Duarte

Bartolomé Esteban Murillo

Belmiro Barbosa de Almeida

Benvenuto Berna

Benjamin Leão

Bernardo Castelo

Bertha Ortigão

Candido Caetano de Almeida Reis

Carolina Julia de Souza

Cernicchiaro

Charles-Emile-Auguste Carolus Duran (Carolus Durand)

Décio Rodrigues Vilares

Domingo Garcia y Vasquez

Dominico Fizzella

Edouardo De Martino

Eduardo de Sá

Émile Rouéde

Emilia Labourdonnais Gonçalves Roque

Ernest Papf

Estevão Roberto da Silva

Eugenia Braga

Felix Bernardelli

Felix Émile Taunay

Felix Ferreira

Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo

Francisco Hilarião Teixeira da Silva

Francisco Joaquim Bethencourt da Silva

Francisco Joaquim Gomes Ribeiro

Francisco Manoel Chaves Pinheiro

Francisco de Sá

Francisco Vilaça

François René Moreaux

Friedrich Wilhelm Joseph Schelling

Giambattista Pagani

Giovanni Battista Castagneto

Giovanni Bellini

Grandjean de Montigny

Gustave Doré

Gustave Courbet

Gustave James

H. Aranha

Henri Langerock

Henrique Bernardelli

Hipólito Boaventura Caron

Horace Vernet

Jacintho da Silva

Jacques Vienot

Jan Van Dick

Jean-Baptiste Armand Guillaumin (Guillenin)

Jean Baptiste Debret

Jean-Jacques Pradier

Jean-Léon Gérôme

João Maximiano Mafra

João Zeferino da Costa

Joaquim Insley Pacheco

Joaquim José de França Junior

Joaquim da Rocha Fragoso (Fragozzo)

Johann Georg Grimm

José Correa de Lima

José Ferraz de Almeida Júnior

José Ferreira Guimarães

José Maria de Medeiros

José Maria Oscar Rodolpho Bernardelli

Josephina H. Galvão

José Rabelo de Vasconcelos (J. de Vasconcelos)

Jules Ballá

Leôncio da Costa Vieira

Leon-Joseph Florentin Bonnat

Leopoldino Joaquim Teixeira de Faria

Luigi Borgomainerio

Maria Teixeira de Faria

Michelangelo Buonarotti (Miguel Angelo)

Michelangelo Merisi da Caravaggio

Nicolao Antonio Facchinetti

Nicolas Poussin

Oscar Pereira da Silva

Pedro Américo de Figueiredo e Melo

Pedro José Pinto Peres

Pedro Weingartner

Peter Paul Rubens

Pierre Paul Pro’dhon (Prudon)

Poluceno Pereira da Silva Manoel

Puga Garcia

Rafael Augusto Bordalo Pinheiro

Rafael Sanzio (Raphael)

Rembrandt Van Rijn

Rodolpho Amoedo

Rodolpho Lima

Sarritelli

Thomas Georg Driendl

Tiziano Vecellio (Ticiano)

Victor Gensollen

Victor Meirelles de Lima

Zeferina Carneiro Leão

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1876, ano I, n.10, p.2

            Rio, 4 de março de 1876.

Um penoso dever obriga-nos, por hoje, a sahir além do nosso estylo para consignar aqui um acontecimento que nos enluta o coração: a morte de Luigi Borgomainerio, nosso apreciado collega, presado amigo, redactor do Figaro.

Victima do terrível flagello que assola essa cidade, vimol-o hontem frio, hirto e inanimado; inerte aquella mão que com tanta arte dirigia o lápis e o pincel; imóvel aquelle coração, sede dos sentimentos de honra, de probidade e do amor extremado da família; embaciados aquelles olhos onde irradiava o fulgor do gênio, brilhava a luz da intelligecia e faiscava a scentelha do espirito!

Se para acontecimentos semelhantes, ha, nesse transe supremo, alguma cousa que possa attenuar a dôr de um coração irmão e amigo, nos o sentimos vendo o seu leito mortuário cercado de affeições, que unisonas o pranteavam e bendiziam de sua memoria, e porque Luigi Borgomainerio durante o tempo que viveu entre nós, embora limitado, so angariou affeições, sem que contasse um unico inimigo!

Parece inverosimel que um homem de bem e um artista de merito não os tivesse: mas Borgomainerio era homem honesto sem fazer praça de suas qualidades sociaes; era artista distincto, mas não blosonava de seu saber para [humilhar nem] amesquinhar quem quer que fosse: era honrado sem basofia, intelligente sem orgulho. Entre o muito que sabia só não sabia fazer inimigos.

A mão inexoravel do destino pezou cruel sobre sua desolada família, e sobre nós, fazendo tambar aquella vida preciosa ao seu contacto funesto, e deixou-nos um recurso único: o de pranteal-o!

É o que fazemos pagando esta fraca homenagem a sua intelligencia, este tenue testemunho ao seu nobre caracter esta pungente lagrima à sua memoria.

A Redacção.

P.7

L. Borgamainerio

Ao ser entregue á sepultura o corpo do nosso infeliz collega, o amigo querido Borgomainerio, pronunciou o Sr. F. de Menezes as seguintes palavras repassadas de saudade.

Vieste da Europa como soldado da ideia para auxiliares a todos os que pensamos n’esta terra na batalha contra a ignorância, contra as trévas o contra a maldade e tombas no me[i]o da peleja e apagas-te, luz da civilisação. No chão em que te debatias encontras a sepultura! Se é triste o casa lembrando teus filhos e tua esposa que ahi ficam ão desamparo, é glorioso não obstante por isso que morrestes trabalhando. Ahi estás, soldado, mas amortalhe-te a bandeira do futuro que ha um dia de tremular na cupola dos dois mundos então livres, desassombrados, libertos de todas as supertições. Para tanto lutaste! E’s mais um homem de talento que extingue-se neste paiz, e portanto mais um que ficamos á dever a Europa.

A america pagará um dia. Não será a tua sepultura das que jazem mudas e obscuras, não, a cova que guarda um homem de gênio falla e brilha no silencio e na escuridão das noites do cemitério e acorda ideias nos cerebros dos passam soletrando os epitaphios. Adeus. Não quero demorar um instante sequer o teu deitar no derradeiro leito. Eu devia-te esta despedida, talento honesto e caracter sem maculas! Adeus. Teus compatriotas vão saber que os brazileiros applaudiram teu engenho e choraram a tua morte. Adeus, cabeça espherica aonde a Phantasia habitava; a morte sumiu nos gelos a fôr do céu, mas o perfume ficou. Quanto aos teus ophãos e mulher, os que aqui estamos dizemos-te á beira da tua sepultura que os restituiremos á tua e a pátria d’eles para que lá vão fallar de ti e consolar tua sublime mãi, a Itália. Lá tivestes o berço, aqui o tumulo: é bello ter merecido aquelle céu ao abrir os olhos e este, perenne de azul e de esperanças, como tecto do leito final.

Boa noite peregrino. Até amanhã, as portas da Eternindade, ao clarão da madrugada divina. Até á vista, Borgomaineiro!

Sem assinatura

1876, ano I, n.43, p.3

Um album

Escrever um livro não é facil.

Pintar um livro, porém, é mais difficil.

Desenhar com a palavra é difficultoso, mas é commum; escrever com o desenho é mais difficultoso ainda e menos trivial.

Portanto, escrever um livro sem palavras, isto é desenhar um livro, é um trabalho de superior quilate.

Principalmente quando o desenho, o traço, o risco é de tão facil comprehensão como a palavra.

Alcançar este resultado é alcançar uma Victoria.

A idéa escripta dá que se admire um talento.

A idéa desenhada dá dous talentos a admirar.

No primeiro caso ha o fundo; no segundo, além do fundo, ha a fórma.

E, pois, quem escreve um livro é um talento; quem pinta um livro é dous talentos.

Isto tudo vem a proposito do Album de caricaturas, que sob o titulo - Phrases e anexins da lingua portugueza - publicou o Sr. Bordalo Pinheiro.

O livro é impresso em Lisboa, que póde honrar-se com aquellas finas gravuras.

Dizer do merecimento artistico do desenho é ocioso; não ha quem não conheça ahi o mérito dos desenhos do Sr. Bordalo Pinheiro.

Os desenhos do Album são desenhos que fallam; abre-se a pagina, e em cada desenho lê-se o anexim, lê-se a phrase representada.

Escrever a phrase, escrever o anexim em cada desenho foi modestia de seu autor.

Prece esse mimoso trabalho do illustre caricaturista um prefacio não menos mimoso do Sr. Julio Cesar Machado.

Se o Sr. Bordalo escreveu um livro de anexins com seus desenhos, o Sr. Julio Cesar Machado, desenhou uma biographia com as palavras do seu prefacio.

Prefacio e desenho são dous trabalhos que se completam, sem no emtanto, carecer um do outro para por si só valer tudo.

O desenho do Sr. Bordalo é uma chave de ouro que fecha o prefacio do Sr. Julio Cezar.

O prefacio do Sr. Julio Cesar é outra chave de ouro que abre o cofre dos desenhos do Sr. Bordalo.

Honra aos dous desenhistas! Honra aos dous escriptores!

GR.

1877, ano II, n.64, p.3

Gazetilha

*

A Opinione de Italia, fez ultimamente grandes elogios á tela do Dr. Pedro Américo. Para que Dr. quando se trata de um grande artista?...

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A julgar pelo artigo da Opinione, o que mais celebrisa a Batalha de Avahy são as tres visitas que lhe fez nosso monarcha!

É o que o critico mais fez notar!

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Concluindo sua noticia sobre a afamada tela, diz a Opinione:

É um quadro que tanto honra o artista quanto o monarcha brazileiro.

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Honra o artista.... Estamos de acordo de de [sic] que o quadro é bom...

Mas o monarcha! Opinione do meu coração?

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Si S. Magestade deu também alguma pincelada na Batalha de Avahy, o quadro não deve honrar o artista brazileiro.

Mas se não deu Opinione del mio cuore, porque o honra o quadro?... Só se é por tel-o visto!...

*

R.

1877, ano II, n.66, p.6

Gazetilha

*

Para que se confunde?

O chronista da Imprensa industrial, querendo exemplificar maravilhas, faz estas citações: uma tela de Veronese, de Victor Meirelles, de Rubens...

*

Uma tela de Rubens, perfeitamente, um quadro de Veronese, de accordo, mas o Juramento da Princeza?...

É tão perigosa a comparação, que eu nem ouso fazel-a.

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Só uma cousa eu quizera apreciar, é a careta que deve ter feito o nosso Victor ao vêr seu nome imprensado entre os daquelles gigantes da arte...

Lá isso eu queria...

*

Também só quem não sabe o que foi Rubens, quem vio quadros de Veronese, poderia ter commettido tão horroso[sic] attentado.

Para que metter o nosso artista em semelhantes assados?...

*

R.

1877, ano II, n.72, p.2

Rio, 30 de junho de 1877

É incontestavelmente nos paizes estrangeiros que mais intenso se faz sentir o amor á patria.

A saudade aguça o patriotismo, e quando a nostalgia não se deixa vencer pelos sons da gaita de folles, produz Canção do exilio, Longe da patria e tantas outras bellesas de igual valor e inspiração.

Na Europa escreveu Gonçalves Dias, grande parte dos seus versos, e foi da Italia que nos veio o Guarany de Carlos Gomes...

Agora, é de Florença que nos chega a Batalha de Avahy, que, pelos calculos da Gazeta, é um verdadeiro Independencia de pintura.

*

Envolvido porem em seu enveloppe de madeira, ninguem pôde ainda admirar as bellezas do quadro do Sr. Pedro Americo.

Está sobrescriptado ao autor, que cioso de sua obra, reservou para si a ventura de rasgar-lhe a couraça que a preserva dos curiosos olhares.

Em quanto isso, impacientam-se os criticos, dispostos a analysarem uma por uma todas as pinceladas do quadro-monstro.

Mas ha de sahir victorioso o Sr. Dr. e Commendador Pedro Americo, dando-lhes uma Batalha em regra.

Na Italia, onde acampou, tudo dever ter encontrado para uma esplendida victoria: vasto campo de manobra, boas tintas, bons pinceis.

Oh! bons pinceis sobretudo!...

*

Podesse eu seguir a mesma estrategia de ir-me inspirar na Europa, e veriam que boas Chronicas, havia de dar aos leitores da Revista.

Estabelecia logo concorrencia com o folhetinista do Jornal... Era Figaro quá Figaro lá, thesourada d’ali thesourada de ca, e estava alinhavada a Chronica, rematando-a com alguma anedocta do Charivari, bem antiga, a mais antiga possivel, ou ainda mais antiga.

Somente havia de escolher um titulo mais analogo ao programma e em vez de ver ouvir e contar, escrevia mais escrupulosamente: escolher, traduzir e mandar...

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A. Gil.

1877, ano II, n.73, p.6

Gazetilha

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A Gazeta de terça-feira deu noticia de um trabalho, que acabou de fazer o nosso patrício Bernadelli [Rodolpho], a quem teceu merecidos elogios.

Somente exprimio-se assim:

*

Vimos hontem duas photographias do busto em marmore de um distincto medico desta cidade, feito em Roma pelo insigne Bernardelli...”

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De maneira que muita gente por ahi ficou a pensar, que o medido desta cidade é o que foi feito em Roma por Bernardelli, e não o busco em mármore.

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Ora, muito triste ficaria eu se deixasse pairar no espírito dos leitores da Revista qualquer duvida a este respeito, por tanto rectifico:

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O artista Bernardelli, apezar de muito hábil, é apenas esculptor de bustos ou estatuas. Não consta ainda que tenha esculpido medicos tambem.

*

R.

1877, ano II, n.74, p.6

Gazetilha

*

Chegou finalmente o Sr. Pedro Americo, tendo mandado annuncial-o sua Batalha de avahy, que pelas dimensões que dão, deve ser um Independencia da pintura.

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Apenas saltou em terra, foi seu primeiro cuidado visitar todas as redacções de folhas; e o segundo, não dizer á nenhuma d’ellas, que viera tambem com elle o seu collega Zeferino [da Costa].

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A táctica foi boa. No dia seguinte todos os jornaes deram noticia da chegada do illustre pintor, commendador e doutor, e nada disseram do Sr. Zeferino que não era esperado aqui.

*

Que  gloria lhe veio d’essa omissão, é o que não sei. Parece-me que entre collegas...

Ah! é verdade; o Sr. Zeferino é só pintor, não é nem commendador nem doutor.

Deve ser por isso.

R.

p.7

Ricochetes

Parece que o Sr. Pedro Americo é menos querido aqui do que na Itália, onde os jornalistas não o largavam... diz elle.

Aqui, por ora, é só a Gazeta que não o larga.

Verdade é que nem os outros têm tempo. A Gazeta arrematou-o todo.

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Ainda o Sr. Dr. Pintor não deu um passo que não fosse noticiado no dia seguinte. Foi assim que soubemos que o Sr. commendador cobrio o nosso principe de beijos.

Tambem sob esse ponto, a Itália lisonjeou-o mais. Lá eram os principes que beijavam o nosso pintor.

Mas o Grão-Pará coberto de beijos, tem sua graça.

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Eu estou só á espera da coroação do Sr. Pedro Americo para ir beijar-lhe a mão.

Elle deve dar beija-mão.

Viveu tanto com principes, que é provável que tenha tomado os hábitos.

Deve ter muito príncipe aquella Itália. Dezesete visitavam a miudo o autor da Batalha de Avahy.

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Junio.

1877, ano II, n.75, p.3

Gazetilha

Acha-se em exposição na Glacê elegante o retrato do Sx. Major Taunay.

É incontestavelmente um bonito moço; geitos porém de guerreiro é o que eu não lhe acho.

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Por mais que se esmerasse o artista em fardal-o e rodeal-o de petrechos bélicos, a sua attitude é de quem não se acha á vontade naquelle meio.

É como eu, sou tambem contra as guerras.

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O Sr. Moreau armou-o de um óculo, collocou-o num campo de batalha e longe, bem longe, de modo a não haver perigo, pintou uma batalha. Pois nem por um óculo o Sr. Major quiz vel-a...

Virou-lhe resolutamente as costas!

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É atôa querem desviar a vocação dos indivíduos.

A minha, por exemplo, é para não elogiar o Sr. Carlos Bernardino de Moura,e póde elle zangar-se o quanto quizer... hei de seguir minha vocação.

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R.

1877, ano II, n.76, p.7

Ricochetes

O nosso governo em ás vezes suas entradas de lião, em compensação porém é sempre desastrado nas sahidas.

Se lhe acontece começar bem alguma cousa, o que é um tanto pouco raro, é quasi certo que acaba mal a sua obra. É um governo de mãos fins...

E os exemplos estão ahi com toda sua lógica.

Ainda não ha muito teve a commissão geológica de parar os seus trabalhos, depois de avultado dispêndio; agora é a Batalha de Avahy que está a estragar-se na alfândega por falta de local, em que o Sr. Pedro Americo estenda a sua tela.

#

Felizmente o Diario Popular parece decidido a tomar a si a louvavel tarefa de salvar o quadro e a reputação do nosso artista... Deus lhe pagará tanta bondade!...

Os nossos collegas comprometteram-se a construir um barracão, onde se desenrole á vontade a grande tela, dando assim uma boa lição ao governo, e... aproveitando outra talvez.

Em todo caso, já a imprensa séria vai servindo para alguma cousa, pois sem ella ficaria perdida a Batalha de Avahy e cabe ao Diario Popular a gloria de tel-a salvo.

#

Junio

1877, ano II, n.78, p.7

Ricochetes

#

Annuncia-se a próxima apparição da Comedia Popular, jornal caricato, cujo nome recorda muito o de Comedia Social que foi outr´ora desenhado pelo Sr. Commendador Dr. Pedro Americo.

Affimar-se que é o Sr. Zeferino, e não o autor da Batalha de Avahy, que terá de illustrar as paginas do novo campeão.

Pois antes fosse o commendador...

Queria vel-o pegar-se com o Caipira, que ha duas sextas-feiras faz espírito á custa do Sr. Pedro Americo.

Estou com gana de lhes gritar:

A´unha!...

#

Junio.

1877, ano II, n.80, p.3

Echos

Ainda não vi bem o quadro do Sr. Pedro Americo.

Quando digo que ainda não vi bem, é simplesmente porque vi-o mal. A tela não está ainda estendida.

Brevemente, porém tel-a-hemos no barracão que o Diario Popular prometteu fazer á sua custa...

Cousas para fazer foscas á Gazeta.

X

E antes mesmo de ir para o barracão (que o Diario Popular prometteu fazer) pretende o Sr. Fernandes Osório discutil-o na câmara dos Srs. deputados.

O Sr. Osório Filho, já que não entrou em combate na guerra, quer dar batalha... de Avahy na camara.

O velho que lhe dê umas lições de direita! volver! ao menos, para que lhe seja honrosa a retirada.

X

O nobre deputado vai atacar o governo por ter comprado o quadro muito barato!

É para a gente vêr de tudo nesse mundo de políticos.

A opposição atacando o ministerio por gastar pouco!...

É com certeza o primeiro exemplo.

O Sr. Osório quer sem duvida contrabalançar o effeito do livro do Sr. Tito Franco.

X

A.    Esphinge.

1877, ano II, n.84, p.3

Salão

-Já vio a Batalha de Avahy?...

Eis como se saúdam desde hontem todos os amigos que se encontram.

E a uma resposta affirmativa segue-se immediatamente esta outra interrogação:

-Então?...

E agora é que são ellas.

Os entendidos não se querem comprometter; os não entendidos... esperam pelos primeiros, e uns e outros escapolem-se, murmurando:

-Assim á primeira vista.....

&

E não deixa de ter suas razões, quem espera para dar o seu juízo só depois de repetidas visitas.

Apezar do muito que já disseram alguns jornaes europeus, ninguem se julga ainda bastante orientado perante a enorme tela.

Da indecisão porém, em que se absorvem os criticos, póde-se já concluir que o quadro tem merecimente. [merecimento].

Somente, quer me parecer que, pela fama que o precedeu, muitos amadores armaram-se de exigências bem difficies de serem satisfeitas.

&

Póde bem ser todavia, que todos venham ainda a formar da Batalha de Avahy a mesma opinião que S. M. o Imperador e S. A. o Sr. Conde D’Eu.

Até hontem, segundo se diz, foram os que mais francamente se pronunciaram sobre o quadro do Sr. Pedro Americo.

Foram ambos expressamente á cata de defeitos; mas o seu tempo, porque.... a caça fugio-lhes.

Ha portanto duas conclusões a tirar d’ahi; eu porém deixo a escolha ao leitor.

&

De mais, algumas pessoas, que se dedicam ao estudo da Phisiologia das Paixões (1 vol. Infolio, Dr. Mello Moraes) julgaram ler no semblante do S. A. o Sr. conde d’Eu, a seguinte reflexão:

-Não!... Ha sempre um defeito, e grande!... É não ser o attaque de Perrebebuy....

Terão razão os phisiologistas?....

Assim á primeira vista quasi que não se póde... duvidar.

&

Vá o leitor vel-o, e depois fallaremos. Sim?...

Junio

*Porque é que se riem?....

1877, ano II, n.85, p. 2.

Pois deixando a politica em seu afogueamento, eu também quero que se saiba que o nosso  compatriota R. Bernardelli acaba de nos enviar o seu primeiro trabalho destinado á academia.

Está na alfândega um grupo de gesso do jovem escultor, e que em breve será exposto á nossa admiração.

A occasião é bem propicia.

Depois da grande tela do Sr. Pedro Americo, teremos a escultura reclamando nossa attenção.

E antes dividil-a entre as obras dos dois talentosos artistas, que ouvir tagarelar sobre o Sr. Corrêa ex-das-conferencias.

*

E já entre o murmúrio que se fez em redor do Sr. Pedro Americo (já não o trato nem por commendador nem por doutor) ouve-se fallar na Batalha de Guararapes, um outro feito do Brazil que nos vae ser recordado pelo pincel de Victor Meirelles.

É esse o certamem em que eu desejo sempre ser testemunha occular,e é assim que havemos de possuir algumas obras de arte dignas d’esse nome.

E já eu esquecia que ainda nesta semana, tivemos o Guarany applaudido no Pedro II.

Felizmente o campo é vasto, e havera sempre palmas para todos.

*

E já que trato de objectos de arte, passo facilmente ao projecto da estatua dos tres.

Alexandre Herculano, Antonio Feliciano de Castilho e Ameida Garret vão ser fundidos em bronze reunidos em um só pedestal, formarão um monumento, representando parte das glorias litterarias de Portugal.

É um projecto digno de toda veneração, o que naturalmente irá por diante.

Eu, porém, não tenho muitas sympathias pelo número tres.

*

Além de ser um numero fatídico, parece que essa estatua dos tres vai gerar difficuldades para o esculptor, encarregado de arranjar o grupo.

Ficarão os tres na mesma altura? ou haverá uma escala?...

E porque esquecer outros que não fizeram mesmo honra ás lettras portuguezas?

E depois para que collocar Alexandre Herculano ao lado de Antonio de Castilho, quando, em vida, um evitou sempre o outro?

Não é prudente encadeiar um ao outro pelo bronze, dois homens de genios tão diversos.

*

Este consorcio, bem se vê, é destinado a não ter uma existencia de venturas.

E se elles reclamarem o divorcio?...

Que tribunal julgará a questão?

Eu aconselho, portanto, ao Sr. Mattozinhos ( com a devida licença de S. Ex.), que deixe mesmo solteiros aquelles tres vultos.

Talvez que nenhum delles queria essa união... das tres graças.

Um pedestal para cada um, não é de certo  muito para quem tanto legou.

A.    Gil.

1877, ano II, n.86, p7. 

Nem Eu!.....

Os nossos jornalistas sérios andam sempre a clamar que os brazileiros desconhecem a sua Constituição politica.

Habituaram-se por tal modo a dizer isto, que de vez em quando e a todo propósito, estão a fazer-nos tão graves censura. Grave a injusta; pois a bem poucos dias tivemos a prova do contrário.

*

Á quinta fez que S. M. foi visitar o quadro de Sr. Pedro Américo, disse ao despedir-se do pintor da Batalha de Avahy:

-É a quinta vez que vejo o seu quadro e apezar de ter vindo a ver defeitos, não me foi possível encontrar um só.

*

A S. M. seguio-se logo o Sr. Conde d’Eu dizendo convictamente:

-Nem eu!..

O Sr. Bom Retiro fez echo immediatamente:

-Nem eu!....

Atraz deste, seguio a corte, repetindo:

-Nem eu!...

*

As folhas diarias não deram a noticia completa; mas até já consta que o côro é entoado por ahi além, e que em breve ouviremos o echo da voz do último subdelegado de Matto-Grosso, repercutindo:

-Nem eu!...

*

Agora pergunto eu aos jornalistas serios:

-Conhece-se, ou não se conhece a Constituição entre nós? sabe-se ou não se sabe que um dos artigos da tal Constituição diz que o rei não erra?

Está visto que se sabe.

*

E a prova é que desde que S. M. disse que não achava defeitos, todos os nossos Planches, d’aqui e de Matto-Grosso exclamaram constitucionalmente:

-Nem eu!....

*

E até hoje só dois se declararam republicanos.

Nullius e G.M.

O primeiro, já todos sabem que é; quanto ao segundo....

Desde que o Sr. José de Alencar não lhe intenta um processo, é porque é elle.

*

Nenhum pôde conservar o incognito.

Nem eu!...

Junio

1877, ano II, n.87, p.6

Gazetilha

*

O quadro do Victor Meirelles já teve a primeira visita do nosso monarcha.

Já só lhe faltam quatro para ter a mesma consagração que a “Batalha de Avahy”.

*

É questão dos cinco sentidos.

R.

P.7

Ricochetes

#

E já se não falla mais da Batalha de Avahy.

Os Huelvas emmudeceram.

Parece que já vai sendo tempo de espichar critica, antes que criem môfo as opiniões.

Olhem que uma opinião mofada!...

Nem elles avaliam o que é.

#

A Batalha de Avahy vae passando de moda, e já S. M. foi ver o quadro do Sr. V. Meirelles.

Ceci tuera cela?....

O Victor ficou todo gangento com essa primeira visita.

A celebridade começa tambem para elle.

#

No mesmo dia em que elle teve a visita imperial esbarrou-se commigo:

E foi logo me dizendo:

- O Imperador vio...

- Já xei, já xei, interrompi eu.

- E não achou nenhum...

- Já xei, já xei.

#

E eu já sabia o que elle queria dizer-me, por isso não o deixei fallar com os meus:

- Já xei, já xei.

Junio. 

1878, ano III, n.112, p. 3 e 6

Aos Presidentes de Província

(Carta Circular)

VV. EEx. Receberam todos e todos ja apreciaram uma carta do nosso illustre pintor, celebre doutor e honrado commendador Pedro Americo, que merece de certo ser tomada em consideração.

Eu não recebi, mas já tive a fortuna de ler e apreciar no Cruzeiro essa insigne pastoral, em que o nosso doutor in partibus, commendador encommendado e pintor collado, exalta mais os seus meritos, que o Sr. D. Lacerda as vantagens do jejum.

&

O Sr. Pedro, como VV. EEx. Leram, pede “venia para expor uma idea que, se fôr tomada na consideração que merece, reverterá em favor da historia patria, pondo em relevo e eternisando as grandes virtudes e victoriosos feitos de muitos já extinctos martyres do patriotismo,e outros tantos triumphantes ostensores da honra e da dignidade nacional.”

Vêem portanto VV. EEx. que a causa é boa e merece toda consideração, sobretudo partindo a idéa de quem parte, um doutor-commendador-pintor....

&

De mais este Sr. Doutor-commendador-pintor Pedro Americo é o mesmo que “em 19 de Agosto de 1872 foi encarregado pelo governo imperial de fazer o quadro da historia da batalha de Avahy, e esse consideravel trabalho, depois de ser coroado pelos applausos de quasi toda a Europa (que não vio) foi acolhido na capital do imperio como um monumento digno da immortalidade do facto que representa.”

(Quem escreveu tudo isto foi elle, o pintor-doutor commendador, que a tanto não me atrevo eu.)

&

E ainda é elle quem continua para concluir:

Ora, julgando merecedora de consignação esthetica aquella pagina de sua historia militar, prestou o Brazil a devida homenagem ao genio e aos serviços do illustre vencedor de Avahy; mas por isso mesmo contrahio o imperioso dever de render igual preito ao inclyto general que entre muitos outros feitos em que immortalisou o seu nome, venceu a grande e sanguinolenta batalha de 24 de Maio.....”

Sim, o Caxias estava no poder, quando o Sr. Pedro Americo escolheu a batalha de Avahy para assumpto do seu quadro; mas agora é Osorio que está no ministério.

&

E crê o doutor-pintor-commendador “que já não é demasiado cedo para pagar-mos, não somente ao supracitado illustre general, mas ainda aos seus bravos commandados n’aquelle memoravel dia, o tributo de gratidão que lhes devemos, e que não sem manifesta injustiça lhes poderiamos negar. A sua idéa é, portanto, que lhes seja offerecido um quadro, representando o feito de 24 de Maio, em tela das proporções d’quella em que pintou a batalha de Avahy.”

Certamente nada mais justo do que “pagarmos o tributo de gratidão que devemos”. Agora o que acho exquisito é que, em lugar de pagarmos “aos bravos commandados pelo supracitado general”, paguemos ao Sr. Pedro Americo, porque, como VV. EEx. devem ter notado, é a elle que elle quer que se pague!

&

E tanto é assim “que dirigio-se a VV. Ex. e não directamente ao governo por vel-o empenhado em economias que denunciam difficuldades financeiras (lá esperto é elle) e animou-se a pedir a VV. EEx. se dignem tornar-se os iniciadores de uma subscripção popular que attinja no minimo a quantia de sessenta contos de réis, dos quaes trinta fossem remettidos sem demora a elle lá na Italia....

(Além de esperto, é cauteloso.)

Os outros trinta ficariam depositados no thesouro para lhe serem entregues... logo que se acabassem os primeiros.

&

Não pensem VV. EEx. “que algum calculo egoistico leva o nosso pintor-commendador-doutor a emittir essa idéa, não; seu caracter... etc.”

Mas é que para começar um quadro como o que o Sr. Pedro Americo quer fazer, precisa tanta cousa, que nem VV. Exs., ignorantes como são, podem imaginar.

Precisa tela, tintas, photographias, correiames, petrechos bellicos, espingardas, bois, carneiros... que sei eu!

Mandem-lhe os dois arsenaes de guerra e de marinha, que elle ainda pede a nossa esquadra e a fortaleza de Humaytá!

&

Sessenta contos!... Nem isto é dinheiro que valha duas pinceladas de um pintor-commendador-doutor, e se elle faz por este preço, creiam VV. EEx. é “pelo enthusiasmo, pela gloria de sua patria, amor ás artes e dedicação pessoal... que passou do Caxias para o Osorio...

Sessenta contos!... Ninguem nega que é um pouco mais puxado que a batalha de Avahy; mas tambem elle tem de comprar tanta cousa, que eu estou com desejos de fazer concorrencia a VV. EEx., e abrir tambem uma subscripção para ajudar o nosso doutor-pintor-commedandor.

Quem sabe em que apuros estará elle, coitado! que já pede adiantado!

&

Fica portanto entendido; VV. EEx., abrem subscripção entre os retirantes de Ceará, Rio-Grande do Norte, etc., que eu promovo a minha entre os urbanos ultimamente despedidos, a vêr se obtenho correiame.

Ao menos correiame não lhe ha de faltar, e é do que elle mais precisa - é de correiame.

Junio.

1878, ano III, n.133, p.6

Sera Attendido

O nosso companheiro A. Gil recebeu o seguinte cartão:

O pintor historico Augusto Barradas, premiado com a medalha de prata pela Real Academia das Bellas Artes de Lisboa e com a de bronze e menção honrosa pela Sociedade Promotora de Bellas Artes - 44, Regent Strit...”

(Regent Strit, está em manuscripto)

No verso do cartão ha o seguinte recado:

Sr. A. Gil - Partecipo-lhe que já esfoliei mais outro e lá está na Glace Elegante.

Se por lá pessou rogo-lhe o favor de o ver e largar uma de suas piadas (sem misericordia) no seu muito lido jornal. - Att...........”

Como vêem o pintor histórico premiado com menção honrosa pela Sociedade Propagadora de Bellas Artes - 44 Regent Street desafio o nosso companheiro a ir admirar o seu novo trabalho....

Será attentido em tempo.

Agora um conselho ao pintor Barradas: Quando escrever nomes  inglezes copie mais attenciosamente do diccionario, para não martyrisar tanto a orthographia britannica, escrevendo Strit, em lugar de Street, como escreve John Bull...

E eu tambem.

Junio 

1878, ano III, n.134, p.2

*

Peço mil desculpas ao Sr. Barradas.

Em primeiro lugar, por tel-o feito esperar tanto tempo; em segundo, por terem sido transcriptas na Revista algumas palavras suas em boa orthographia, quando elle m’as escreveu em pessima.

Eu copio fielmente:

O pintor historico Augusto Barradas, premiado com a medalha de prata pela real academia de Lisboa e com a de bronze e menção honrosa pela sociedade promotora de Bellas-Artes - 44 Regent Strit - Sor. A. Gil - Participo-lhe que já esfolei mais outro e la esta na Glacê Elegante. - Se por la passar rogo-lhe o favor de o ver e largar uma das suas piadas (sem misericordia) no seu muito lido jornal. - Attº. Ver. e Lter.”

*

Depois de tão amavel convite do pintor histórico, 44 Regent Strit (isto quer dizer rua do Regente na lingua do Sr. Barradas) bem vê o leitor que o meu dever era ir.

Fui e vi a um canto, emmoldurado, esfolado um retrato a oleo cujo original não conheço, mas que a se parecer com o retrato deve ser um commendador, possuindo bom par de contos de réis, irmão de alguma ordem terceira, jantando bem e ás 3 horas da tarde, dormindo depois até ás 6, fiel secretario de seus genros e com pretenções a se parecer com D. João VI.

*

Está em pé e collado a um fundo pardacento não se destacando de modo algum do commendador esfollado. Tem a mão direita sobre o encosto de uma cadeira, e o pollegar de escorço parece mais um toro de rabanete do que dedo humano. No mais, um trabalho perfeitamente commum...

Agora um pedido ao Sr. Barradas, pintor histórico 44 Regent Strit.

Quando me quizer convidar para ver algum retrato, trate de fazer cousa melhor.

Verdade é que depois da ortographia em que veio escripto o seu recado, eu não podia esperar grande cousa.

Um homem como S. S. pintor historico premiado par Santarém, tem obrigação senão de pintar regularmente ao menos de escrever de maneira que se entenda.

N’aquelle seu retrato, e no tal recado ha erros de ortographia, e apezar de premiado por isto e aquillo, trate de agarrar-se ao methodo João de Deus e ao Roret a ver se ainda aprende alguma cousa.

Antes de aprender a pintar, convém saber escrever.

Quando esfollar outro...

Nós ca estemos.

*

A.    Gil

1878, ano III, n.136, p.7

Gazetilha

*

O pintor Barradas (Regent Strit) está fazendo exercícios de inglez, para escrever outra carta ao A. Gil.

*

Ainda não passou do yes; mas diz que ha de pintar a manta, em inglez.

R.

1878, ano III, n.139, p.3

Palestra em casa

-Parece que os professores da Academia das Bellas-Artes....

-Isto de bellas artes é um modo de dizer; cá por mim, acho que as nossas artes da Academia são bem feias.

-Concordo, mas dessa opinião não são os professores e alumnos da dita Academia, que se escamaram devéras com a critica do Sem malicia do jornal.

-A qual foi partilhada e augmentada pelo Caipira do dito.

Que queres... Ha verdades que não se podem dizer...

~

-Sabes quem chegou da Europa? O Augusto Duarte; e pelo que já vi exposto garanto-te que elle fez immensos progressos. Vale a pena vêr  aquelles dous quadrinhos que já figuraram na exposição de Paris; um representa uma velha camponeza e o outro o interior de um museu. De todos os discipulos da Academia é o unico de ha muitos annos para cá que tem feito alguma cousa que se possa admirar.

-Elle hade ir longe; e teve a felicidade de casar com a D. Luisa Leonardo que tanto applaudimos quando menina antes de partir para Europa onde ella se foi perfeicionar. Hoje ella tem fama de ser uma pianista perfeita e uma excellente artista o que não é para extranhar de quem desde a mais tenra idade mostrava tanta vocação.

~

-Que dizes do resultado do concurso para o premio de Roma na Academia.

-Digo simplesmente que commeteram uma injustiça em preferir a melhor das composições, e o único meio de reparal-a é mandar ambos [Rodolpho Amoêdo e Henrique Bernardelli] os discipulos para Roma.

-Isso lá e verdade; se elles ficarem aqui, não passarão de excellentes pintores de taboletas.

Sem assinatura

1879, ano IV, n.152, p.6

Echos

Não se abre por ora a nossa exposição de bellas artes. Consta mesmo que a exposição não será aberta, em quanto não estiver prompta a Batalha de Guararapes.

Nas outras terras, os quadros fazem-se para as exposições; aqui as exposições fazem-se para os quadros!

X

A.    Esphinge.

1879, ano IV, n.154, p.2.

Rio de Janeiro, 15 de março de 1879

*

Abre-se hoje a exposição de Bellas Artes, que é riquíssima, segundo se diz.

E eu estou impaciente por ver essas riquezar até hoje occultas aos olhos dos profanos.

Sem duvida muita artista se fez e aperfeiçoou-se no intervallo que medeia da ultima exposição á que hoje vamos admirar, porque a ultima foi bem pobresinha, coitada!

E d’ahi quem sabe?

É mais facil surgir um artista do que um estadista, e no emtanto ahi estão o Sr. Leôncio de Carvalho, Osório e Costa Azevedo as tres graças do parlamento.

Au Brésil, tout pousse vite, dizem os francezes.

*

A.    Gil.

P.7

Uma especie de chronica

*

Temos em seguida a exposição de Bellas Artes, aquella mesma que se vê todos os annos, e que portanto...

Fóra os Guararapes, tudo mais são novidades velhas.

*

HA DE   KKKTRO.

1879, ano IV, n.155, p.2

Rio, 22 de março de 1879.

Está aberta a nossa exposição de bellas-artes, annunciada como a mais rica de todas as que temos tido, cujo catalogo assim promette e cumpre para aquelles que ainda não conheciam a collecção do Sr. Steckel, a do Sr. Callado, etc., e algumas velharias que alli figuram como novidades da ultima fornada.

Ha n’este fingimento de riqueza um desejo e até louvável de possuir realmente trabalhos artísticos, fingimento tanto mais louvavel quanto a visita á exposição se torna mais recreativa e agradável, desde que encontramos alli a par de producções dos artistas nacionaes, muitos quadros de valor, embora importados do estrangeiro.

A qualificação de exposição nacional, fica, é certo, prejudicada; mas resta-nos o prazer ou desprazer da comparação, meio seguro de avaliar o quanto cumpre fazer em bem das bellas-artes no Brazil.

*

Raras excepções feitas, os trabalhos dos artistas nacionaes desapparecem, por assim dizer, supplantados pelas producções dos artistas estrangeiros, embora entre estes não se contem nomes celebres, como se nos procura fazer acreditar.

E não vai n’isto uma censura a áquelles que entre nós dão prova de coragem admirável, abraçando uma carreira cheia de decepções e dissabores. Elles fazem o que podem, produzem o que é possivel produzir onde lhes faltam os elementos mais essenciaes ao ensinamento de sua arte. Carecem do modelo vivo, dos quadros consagrados pela critica, das producções dos mestres que lhes aperfeiçoem o gosto, d’essa atmosphera artística que dá inspiração, que gera a emulação louvável e productiva; e póde-se dizer que aquelles que fazem alguma cousa, fazem muito.

Quem examinar com attenção os quadros expostos na Academia de bellas-artes, mesmo os do Sr. Victor Meirelles, ha de entristecer-se com os exemplos de falta d’esses elementos.

*

Incontestavelmente a Batalha de Guararapes é uma téla primorosamente bem pintada, tem grupos bem combinados, a disposição geral do quadro está artisticamente planejada e algumas figuras são de exrema [extrema] belleza.

Ha porém certas posições muito repetidas que se tornam por isso monotonas,e muitas vezes o pintor não se limitou a conservar o typo da nacionalidade , foi além, fazendo muitas caras parecidas, como se nota na gente ao commando de Fernandes Vieira e nos pretinhos; ha falta de acção nos personagens mesmo dos primeiros planos, revelando tudo isso que o artista não teve bons modelos vivos á sua disposição.

Parece mais uma batalha de convenção do que um combate renhido, em que um povo luctava energicamente por sua liberdade contra os seus usurpadores.

Em todo caso essa convenção é uma convenção artistica na qual as regras d’arte foram perfeitamente bem attendidas, o que se acontece em alguns quadros de mestres, não deixa de prejudicar a verdade e dar ao quadro uma certa frieza.

Ha todavia bellezas admiraveis na Batalha de Guararapes; e os últimos planos sobretudo são de sorprehendente effeito; mas nem o Sr. Victor nem outro pintor qualquer, por mais hábil que seja poderá eximir-se a defeitos attribuidos com razão á carencia de elementos.

Estas lacunas que se revelam na Batalha de Guararapes, notam-se como era de esperar, em muito maior evidencia nos trabalhos dos outros artistas nacionaes, a quem falta antes de tudo o desenho, que constitue a base da pintura, esculptura e architectura...

Mas isto é simplesmente uma noticia e, como o leitor póde enchergar ares de critica n’esta chronica, passo adeante, em quanto não fizer segunda visita á exposição de Academia de bellas-artes, pois vale a pena.

*

A. Gil.

1879, ano IV, n.156, p.2

Rio, 5 de abril de 1879.

Continùa aberta a exposição de bellas-artes, sendo as Batalhas de Avahy e dos Guararapes os dois quadros para os quaes se voltam todas as attenções.

Ao lado quasi um do outro, o parallelo torna-se inevitavel; e forçoso é concluir que as duas telas, tratando embora de assumptos idênticos, formam um verdadeiro contraste. Em quanto o quadro do Sr. Victor Meirelles impressiona pela falta de acção, pela paralysia de quasi todos os personagens; na Batalha de Avahy tudo se move, tudo tem vida, todos se batem.

Em quanto o critico erudito procura as bellezas artísticas da Batalha dos Guararapes, o impressionista extasia-se perante a téla monumental do Sr. Pedro Américo e esquece-se a contempla-la.

*

É surprendente o progresso do Sr. Pedro Americo na pintura, quando se o acompanha da Batalha de Campo Grande á Batalha Avahy, que um abysmo separa, felizmente para elle que póde afinal ser admirado como um grande artista.

Logo á primeira vista, o quadro do Sr. Americo produz a impressão de uma batalha; e examinando-o detidamente encontra-se bellezas admiráveis em todos os seus planos, em seus grupos, em suas figuras que se destacam da téla com a estrella da nuvem.

O grupo da carroça, illuminado desigualmente pelas resteas do sol que penetra atravez dos buracos do couro usado; aquellas mãos nervosas que procuram arrebatar as duas bandeiras que o official brazileiro leva em trophéo; a carga de cavallaria, no terceiro plano, que avança n’uma carreira vertiginosa; os paraguayos nus que fogem, no quinto plano; o mangrulho que arde; o torvelinho confuso do inimigo que se retira desordenadamente; as bandeiras que se desfraldam...

A gente admira-se até, depois de alguns momentos de attenção, de não ouvir o som do clarim e o troar da artilharia, tanto se compenetra de que assiste realmente a um combate grandioso.

*

E no meio de toda a confusão da batalha, o grupo do general em chefe, saliente, distincto, calmo como o soldado habituado a testemunhar essas luctas, observando plácido e confiante a execução fiel do seu plano...

A correcção do desenho, a expressão belicosa, a attitude natural de todas as figuras, tudo revela estudo aproveitado e imaginação portentosa de artista; e é necessaria muita coragem, muita audácia, para embrenhar-se n’aquella pugna titânica e criticar aquella téla gigantesca, analysar a epopéia enorme, que escreveu o Sr. Pedro Americo!

Podem os criticos consummados encontrar falta de planimetria no colorido e um ou outro detalhe que destoe, como a cor do negro, no primeiro plano, que muitos condemnam; mas a téla é tão vasta, tem tanta belleza artistica, que seria amesquinha-la demorar-se n’essas munudencias.

De mais, tudo tem o seu ponto negro!...

*

A. Gil. 

P.3

Cruzamento de pintores

A Revista Musical (e de bellas artes por contrapezo) tem tratado com esmero da exposição de pintura e sobretudo estudado a vocação dos nossos artistas, no que tem feito muito bem, Deus a ajude e a mim não desampare.

Em seu ultimo artigo fez ella um paralelo entre o Sr. Pedro Américo e Victor Meirelles, tirando d’ahi uma conclusão atroz!

&

Depois de descobrir que aquillo que falta a um sobra a outro, isto é que o Sr. Pedro Americo tem imaginação e o Sr. Victor paciência, sustenta que nenhum dos dois póde ser um grande artista; mas que ambos somados, fundidos, dariam um Miguel Angelo (não é o Pereira) concluindo finalmente que, cruzando-se os dois artistas, ter-se-hia um grande pintor, um pintor de raça.

&

Eu já sabia que os criadores europeus obtinham excellentes cavallos cruzando a raça arabe com a raça ingleza; mas o que eu ignorava é se essa lei hypica seria efficaz, applicada aos pintores do mesmo gênero, porque sempre ouvi dizer que duro com duro, não faz bom muro.

&

Não é que eu duvide, não; mas faz scismar o tal systema pradino de aperfeiçoar a raça dos pintores.

D’hai, quem sabe?... este mundo tem cousas!

Eu é que se fosse pintor, poderia desposar Rosa Bonheur, mas casar com o Victor?...

Oh! Nunca jamais!

D. Antony.

P. 6

Salão de 1879 Em Quadras

N.133 - Batalha de Avahy

Por Pedro Americo.

É um combate renhido, bello, homérico

Sente-se, vê-se brigar ali

E guia a nossa gente Pedro Américo,

O genio da Batalha de Avahy.

N.100 - Pompeiana, por João

Zeferino da Costa.

Tem frescura d’epiderme

A Pompeiana é bonita.

Eu bem quizera prender-me

N’aquelle laço de fita.

N.134 - Elevação da Cruz, por

Pedro Peres.

Uma  bella paisagem rodeia o teu calvário

Ha na Elevação da Cruz

Ideia e arte. A tua tela é feliz sudário,

De que a inspiração tralus.

N.23 - Exéquias de Camorim, por

A.    Firmino Monteiro.

Defronte do teu quadro eu fui parar,

E contemplando bem a tua téla,

Pode enfim extactico exclamar

Terra em qu’eu nasci, oh! como és bella.”     

Junio.

p.7

Gazetilha

*

Continua aberta a exposição de bellas-artes e o Sr. Victor a extasiar-se defronte do seu quadro.

É o nosso Pigmalião... Cuidado! não se espete.

R.

1879, ano IV, n.157, p. 2.

Rio de Janeiro, 16 de abril de 1879.

***

Fui ao paço imperial na quinta-feira santa.

Atravessei uma por uma aquellas velhas salas, enfiadas uma apóz outra como habitações de um cortiço. Tem uns quadros grandes e ruins agarrados ás paredes escuras e mofadas, umas cadeiras velhas e surradas e a baixela com uns pratos grandes com tubarões e arraias desenhadas no fundo. É tudo mal allumiado por velas amarellas, rescendendo um mau cheiro de subterraneo, eis o que se expõe todos os annos como uma preciosidade aos olhares curiosos dos subditos brasileiros.

Tem pouco brilho a nossa monarchia.

A. Gil.

p. 6.

Salão de 1879

Deixem-me aproveitar o fechamento da exposição, para fallar um pouco sisudamente (hum! hum!) sobre as pretenções do catalogo em que nos deparamos com o seguinte:

QUADROS ETC., FORMANDO A ESCOLA BRASILEIRA.

Estes quadros são: O caçador e a onça, Retrato de D. Pedro I, Passagem de Humaytá, Incendio dos cannaviaes, e outros, todos nossos, diz o Sr. Mafra.

&

E bem nossos que elles são, tão nossos que o conselho acadêmico das Bellas Artes tem-se forçado a classifical-o como formando a escola brasileira, não podendo matriculal-os em nenhuma outra escola.

Mas tem graça a escola brazileira...

&

A nossa academia ouviu naturalmente fallar em escolas flamenga, italiana, e pensou ainda mais naturalmente que todo o quadro pintado na Itália pertence á escola italiana, a menos que não se naturalize estrangeiro, assim como os quadros pintados no Brazil formam a escola brazileira.

&

Isso que é que é resolver a questão do nó gordio, sem olhar nem á direita, nem a esquerda, como Alexandre.

Mas eu por mais que pense, que reflicta, que estude os quadros da Pinacotheca, sempre que me fallam em escola brazileira, lembro-me logo da escola da Glória, e fujo antes que me caia em cima uma conferencia.

Junio.

P.7 

Gazetilha

Segundo a estatística official, a exposição de bellas-artes já tem sido visitada por mais de quatrocentas mil pessoas. Em uma cidade de trezentas mil almas...

E dizem que não ha amadores!

*

R.

1879, ano IV, n.158, p.2 e 3

Rio, 25 de abril de 1879

O Sr. Dr. Mello Moraes Filho publicou, ha dias, um folhetim na Gazeta de Noticias, analysando a Batalha de Avahy, de Pedro Americo, e a Batalha de Guararapes, do Sr. Victor Meirelles.

Este folhetim, longo e recheiado de termos anatomicos, tem sido criticado por ser muito medico e pouco artístico; mas injustamente, porque se a Gazeta de Noticias quizesse realmente minosear os seus leitores com uma critica artística da nossa exposição de pintura, não teria encommendado ao joven Esculapio, cujos cuidados dividem-se entre o numero de batidellas do pulso e as boas applicações da therapeutica.

*

Entendo mesmo que o Sr. Dr. Mello Moraes excedeu a espectativa, e sou-lhe grato por ter S. S. discutido as duas telas, sem resumir sua critica á forma simples de uma receita, precrevendo ao Sr. Victor Meirelles:

Uso Interno

Porção expressiva..............2.000gr

Sulfato de movimento.........200gr

Desenho............................ q. s.

Tome ás colhéres de hora em hora, até ficar em estado de fazer um quadro de batalha.

Uso Externo

Cataplasma de verdade histórica e fomentações de variedade de typos.

E se assim o tivesse feito, nada havia que estranhar, pois exercia as suas funcções de medico instruido.

De mais, o folhetim do Sr. Mello Moraes obteve um grande sucesso: fez fallar o Sr. Victor Meirelles, o que é de uma vantagem enorme para as bellas-artes no Brazil, tão reconhecida é a sua autoridade.

*

O Sr. Victor Meirelles, “profundamente penhorado pela benevolência com que foi tratado na Gazeta de Noticias” escolheu todavia o Jornal para responder ao critico amável!...

Mas illuminemo-nos nas luzes que irradiam do seu artigo.

Tres são os pontos discutidos pelo estimável pintor: a idade do índio Camarão, a côr que deu aos pretos, e a posição do cavallo em que monta Vidal de Negreiros.

Quanto ao primeiro, diz que pintou o indio moço, apezar de saber que elle era velho, caçando, em attenção ao dictado que diz: “indio quando pinta, tres vezes trinta.” Póde ser uma boa razão; e eu tambem, como o Sr. Victor, deixo a outro resolver a questão.

Para justificar-se da côr que deu aos pretos (não fui eu que a critiquei) faz o Sr. Victor Meirelles as seguintes reflexões:

Um homem, que na sua vida artistica passe 30 annos de longa e estudiosa observação, perante a natureza, cogitando, quer no conhecimento da fórma, quer nos effeitos da luz, não terá, como incontestavel dever, a pratica de melhor determinar as modificações que, segundo a hora e o lugar, tornam as côres mais ou menos affectadas pela acção da luz?”

Não tem, não; Sr. Victor. Póde mesmo passar cem annos a cogitar, quer no conhecimento da fórma, quer nos effeitos da luz, sem ter por isso o incotestavel dever de ser bom pintor, ou pelo menos nem todos cumprem esse dever.

Quantos pintores não ha por ahi que passaram trinta, quarenta annos na observação da fórma e dos effeitos da luz, e que tem o no emtanto um colorido falso e o desenho incorrecto!

*

E se assim não fôra, o que seria do verdadeiro artista?... Raphael, que só viveu trinta e tres annos, nada teria deixado; emquanto que o velho Taunay poderia encher a Academia de maravilhas!

Isto seria admittir aposentadoria nas artes, converter os artistas em soldados, cuja promoção só fosse admittida por antiguidade... Os velhos seriam genios, e o Sr. Victor Meirelles já teria desbancado muito artista celebre!

O terceiro ponto é: se póde um cavallo equilibrar-se em uma só pata... Este ponto, cumpre reconhecer, foi magistralmente explicado no seguinte periodo:

O bípede, quando corre, sustenta-se ora em um pé, ora em outro, mudando rapidamente o seu centro de gravidade, afim de manter o equilíbrio.”

Lá isso é verdade. Mesmo quando anda, o bípede... com a differença que o cavallo é quadrupede, salvo seja.

*

Discutidos assim os três pontos pelo Sr. Victor Meirelles, tomamos nós a palavra, para dal-a de novo ao Sr. Victor:

Na representação do quadro a Batalha de Guararapes, diz o illustre chefe da escola brazileira: não tive em vista o facto da batalha no aspecto cruento e feroz propriamente dito. Para mim a batalha não foi isso, foi um encontro feliz, onde os heróes d’aquella época se viram todos reunidos.”

De modo que o Sr. Meirelles “que só deseja acertar” confessa que alterou o facto, foi de encontro á historia, não pintou a batalha dos Guararapes, mas um encontro feliz e amigável, em que Barreto de Menezes abraçou Van-Schoppe, Fernandes Vieira a Felippe Camarão, e Henrique Dias saudou Vidal de Negreiros na sua língua: - Bença, meu Sá moço!...

*

A Batalha de Guararapes não é portanto um quadro historico, como indica o titulo e affirma  o catalogo, escripto pelo Sr. Mafra, sob a inspiração do proprio Sr. Victor; mas uma caricatura para rir, um combate de brincadeira, como os de mouros e christãos que nos dava o theatro de S. Pedro de Alcântara, edição antiga!

A critica, pois, nada tem que analysar na Batalha de Guararapes, depois do que escreveu o pintor. É ocioso notar a posição idêntica e exquisita de pernas, a semelhança de caras, a posição repetida das mãos, a falta de acção, ausência de expressão de quasi todas as figuras do seu quadro...

A Batalha de Guararapes não é batalha dos Guararapes, é um encontro feliz em que os heróes d’aquella época se viram todos reunidos... e dansaram o minuete.

*

E no emtanto o próprio Sr. Victor se contradiz logo no seguinte período do seu artigo: “Meu fim foi todo nobre e o mais elevado: era preciso tratar aquelle assumpto como um verdadeiro quadro historico...

Mas um verdadeiro quadro historico, e, que não foi respeitada nem a verdade nem a historia... lembra o celebre discurso do Sr. Ferreira Vianna paz entre amigos!

O Sr. Victor Meirelles, porém, tem plena desculpa, senão do que pintou, ao menos do que disse em seu artigo, escripto por outro, como deixa vêr um periodo que não foi convenientemente arranjado para a primeira pessoa, como os outros.

S. S., depois de muito fallar no “meu fim, minha tela, meu pensamento” refere-se ao seu quadro como se fosse de terceiro... “a destruição de uma raça contra outra, não poderia, na tela dos Guararapes, contribuir senão para destruir o interesse calculado pelo artista que só cogitou de chamar a attenção do espectador sobre os personagens principaes.”

*

Não podemos portanto, tornar responsavel o Sr. Victor pelo que escrevem em seu artigo... dos outros e assignamos o nosso, sem mais considerações.

J. Esphinge.

1879, ano IV, n.159, p.2 e 3

Rio, 8 de maio de 1879

Dá-se um facto singular, extraordinário actualmente no Rio de Janeiro, a cidade dos bocejos e dos Fagundes curtos de intelligencia: discute-se bellas-artes.

E discute-se com paixão, encarniçadamente na imprensa, nos theatros, nos cafés, nas palestras familiares, até na própria Academia de discute bellas-artes!

Os críticos dividiram-se em partido, contra o Victor e pelo Victor, tendo o partido victorino o Sr. Mello Moraes á sua frente e C. de L. a tocar Zabumba á retaguarda, como um Zé-P’reira carnavalesco.

Infelizmente os contra o Victor estão de melhor partido, e contrapõem ao encontro feliz dos heróes Henrique Dias e Negreiros a Batalha de Avahy, de Pedro Americo, que, conteste embora a medicina tem, desenho aério, etc. e tal.

*

No confronto inevitável das duas grandes telas, já não se procura saber qual das duas é a melhor, mas qual é a peior das duas, a mais cheia de defeitos, a menos original, a mais plagiada; e os críticos entregam-se a escavações artísticas que espantam a gente de tanta erudição, e breve descobrem que Pedro Americo plagiou a moldura da Batalha de Avahy e Victor Meirelles  as pennas de papagaio com que enfeitou o seu Felippe Camarão e as de pavão com que escondia a sua nudez esthetica.

Admittindo, portanto, que ambos tenham roubado inspirações para seus quadros, resta saber qual é o bom e o máo ladrão, e comparando-os vê-se: na Batalha de Avahy, desenho, movimento, expressão, na Batalha de Guararapes, falta de desenho, falta de movimento e ausência de expressão.

*

E preoccupada na discussão das duas batalhas, a critica tem esquecido os artistas que concorreram á exposição de bellas-artes. D’ahi as queixas:

-Estamos fazendo uma triste figura, dizem elles, coitados! e com razão, porque cumpre reconhecer, que a escola brazileira tem bom numero de alumnos que são dignos do seu chefe.

Quando fallo na escola brazileira, é simplesmente para ir de accôrdo com o que escreveu o Sr. Mafra no catalogo da exposição actual, porque até hoje eu conhecia as escolas romana, flamenga, hollandeza, hespanhola, franceza e outras entre as quaes nunca ouvira nomear a brazileira.

*

É preciso não confundir a escola com o súbdito de uma nação que é francez, se nasce na França, hespanhol, se na Hespanha; não é uma questão de certidão de baptismo, a escola hollandeza ainda hoje se se[sic] distingue da flamenga e durante o século XVI, quando já começava a tomar uma nova face, um novo caracter, não tinha ainda a physionomia puramente nacional que tem hoje. Era uma imitação pesada do estylo italiano, adoptado pelos três pintores mais celebres d’aquella epocha; que procedia de Miguel Angelo, mas que se corrompia passando pelas concepções do genio batavo.

Notava-se já, porém, uma tendência para constituir-se e escola: d’entre a elegância ideal dos estylos romano e florentino já tranparecia o naturalismo septentrional, que foi o germem da nova escola, da escola chamada realista, a escola critica, humanitaria, que ha de vir a ser a escola de todas as nações, quando os artistas, dignos d’este nome, se compenetrarem da nobre e elevada missão da pintura que não póde estacionar quando a poesia e a musica progridem e seguem a evolução do natural do seculo, cantando as idéas do nosso tempo.

Mas só mais tarde, quando a Hollanda se constituio pais livre, que libertou-se do jugo do duque d’Alba, que escapou aos furores da inquisição e ao regimen humilhante da monarchia hespanhola, quando começou a gosar em paz, das liberdades conquistadas: a independencia da nação, a liberdade de consciencia, o governo popular, foi que Rembrandt, Van der Helst e outros artistas de gênio, abandonando o maneirismo importado, libertaram as artes da influencia estrangeira e formaram a escola hollandeza.

Mas quanto trabalho, quanta dedicação, quanto genio para chegar-se a esse resultado!

*

E no Brasil, onde estão estes artistas de genio e dedicação que possam imprimir a arte um caracter nacional, que possam formar escola? Os nossos moços que mais se dedicam ás artes, apenas engatinham no desenho, vão á Europa copiar quadros na Itália, até que possam reproduzir na téla aproximadamente as photographias dos nossos commedandores.

Nem mesmo n’este ramo da pintura elles se aperfeiçoam, porque muitos retratos expostos dão menos idéa dos originaes do que a photograpia fiel, mas servil, que reproduz os traços physicos sem imprimir a expressão.

O que nos tem dado o proprio Sr. Victor Meirelles, que tanto promettia na sua Primeira missa no Brasil? Alguns retratos, a Passagem de Humaytá, Juramento da Princeza, quadros que denotem muito rapida decadencia.

É por isso que a Revista Illustrada ri-se, quando o Sr. Mafra classifica a Magnanimidade de Vieira, o Chapéo de D. João VI e a Mai d’Agua como formando a escola brazileira, que está na travessa das Bellas-Artes, como a escola do Sr. Cony está no campo de Sant’Anna.

*

Resignemo-nos; mas a respeito de bellas artes estamos ainda na infancia.

E na infancia caduca, o que é ainda peior, o que não admira, pois diz-se no relatorio que a nossa Academia enriqueceu-se com gessos que servem bellamente para modelos e foram encotrados nas excavações recentes.

Entr esses gessos que servem bellamente para modelos, figura a Vênus de Milo...

... Encontrada nas excavações modernas...

Tem graça, não tem?

A.    Gil.

1879, ano IV, n.160. p.2

Rio, 10 de Maio de 1879.

*

Em primeiro lugar, fica o thesouro livre de pagar a inserção das defezas no Jornal; em segundo, este, não contando com o subsidio, discutirá todas as questões como nos bons tempos do Sr. Gaspar, em que não lhe doeu a mão.

Agora o que se torna um luxo são os elogios que os ministros querem ler no grande orgão e que nos vão custa cincoenta contos, como pede o ministro da fazenda...

Tanto como a Batalha de Avahy, de Pedro Americo & C.

Verdade é que vale mais ainda aquelle primor de desenho e expressão, ao qual eu não retiro um só dos elogios de minha chronica passada.

*

Resta, porém, resolver uma questão a propósito da Batalha de Avahy que é:

Se Pedro Americo recebeu cincoenta contos pelo seu quadro, quanto dará o governo aos collaboradores de Pedro Americo?

Bem sei, que o recibo foi assignado por conta; mas cumpre decidir quem tem direito ao resto de maior quantia: se Pedro Americo? se Gustavo Doré?

É a vez do Instituto Historico dar seu voto no assumpto, ou o Sr. Nicolas Tolentino, que é a Minerva das Bellas Artes.

Pobres Bellas Artes!

*

Eu pouco me entendo n’essa questão de plágios, tão azedamente discutida, embora encontre na Primeira Missa no Brazil muita reminiscência da Messe en Kabylie.

É uma questão de ter dois olhos não tão myopes, como C. de L. o é de espirito; e com elles vê-se logo que até as torres da matriz do Sacramento se parecem tanto com o chafariz do Largo do Paço como os dois Ignacios entre si.

Agora a Batalha de Guararapes é toda do Sr. Victor Meirelles, sem mesmo exceptuar o cavallo branco do segundo plano...

O Feliz Encontro é todo d’elle, do chefe da escola brazileira, do nosso Pardal da pintura e autor do Juramento da Princeza.

E se disserem que é de alguem, é esse alguem e não o Sr. Victor que deve protestar.

Se o attribuissem, eu intentava processo por injuria.

*

A.    Gil.

P.3 e 6

Bellas-Artes 

Sob este titulo e enveloppe recebemos o seguinte artigo, ao qual apezar de um pouco extenso, abrimos espaço, contentes por ter collaboradores como Z.

Dos folhetins cellulares do Sr. Dr. Mello Moraes Filho e da longa descompostura que escreveu o Sr. Carlos Pimento Laet (está ás suas ordens o meu cartão) no rodapé do Jornal contra aquelles que não consideram o Sr. Victor um Miguel Angelo aperfeiçoado, parece resultar que a Batalha de Avahy não vale dois caracóes e a dos Guararapes mette n’um chinello velho tudo quanto deixaram Raphael, Ticiano, Rubens e outros pintores cujos quadros constituem as maravilhas da arte.

Mas não é tanto assim; pelo contrario...

Na Batalha de Avahy ha de certo semelhança com a Batalha de Montebello, como já o sabiamos e como se encarregaram de mostrar os desafectos do autor por meio dos seus escreventes, sendo porém um d’elles tão infeliz, que confundio Montebello com Arcole, Gustavo Doré com Appiani e metteu os pés pelas mãos, dizendo cousas do arco da velha, quando apeado do cavallo de Napoleão na celebre ponte que elle passou a pé. Este cavallo de batalha foi aliás tão funesto á critica medicinal do Sr. Dr. Mello Moraes Filho, como o de Troya aos troyanos, e por mais que o critico se agarre ao santantonio, perdeu as estribeiras e cahio no aerio...

Decididamente é um critico encaiporado o autor do Caipora...

*

Deixemos porém o Sr. Dr. Mello Moraes Filho com o seu cavallo de Appiani e sem apontar uma só falha de desenho que diz ter descoberto na Batalha de Avahy, porque se Pedro Americo copiou do mestre francez, deu-nos todavia um quadro, em que ha rectidão de desenho, verdade de expressão e naturalidade das figuras relativamente ao assumpto principal. Duas grandes bellezas da Batalha de Avahy são o quarto e o quinto planos em que o artista mostrou conhecimento do nú, o que não ha na Batalha de Montebello.

Eu poderia citar ainda muitas bellezas que elle espalhou na sua grande téla e que não foram inspiradas por Gustavo Doré; reconheço porém que ha pontos de contacto entre os dois quadros, discutiveis embora, depois de um exame calmo e minucioso.

Tão ou mais discutiveis como as semelhanças que se notam entre a Missa na Kabylia, de Horacio Vernet, e a Primeira Missa  no Brazil, do Sr. Victor Meirelles, apezar dos differenças apontadas pelo Sr. Carlos de Laet: que o altar do pintor francez tem quatro degraus, e o do Sr. Victor tem apenas dois; que ha zuavos francezes n’uma téla, e selvagens americanos n’outra, que um dos celebrantes eleve a hostial outro eleva o calix...

Por bem pouco o Sr. Laet não declarou tambem que o Sr. Victor tinha reformado a lithurgia!

*

Tem uma historia o quadro em que o Sr. Victor Meirelles acabou pintando o padre, conforme Horacio Vernet. No seu primeiro estudo desenhou elle um toldo e sob esse toldo o padre, sachristia, e no primeiro plano os indios assistindo á cerimonia.

Era quasi a Primeira Missa na America de Blanchard, que elle teve de reformar, por conselhos do Sr. Porto-Alegre que lhe pedio tambem que tirasse os carvalhos do seu quadro, pois no Brazil não existia essa arvore, ficando então a Missa como hoje é, e que tem percorrido as exposições americana e europêas, mas sempre muito semelhante á de Horario Vernet, embora os dois degráos de menos no altar.

É um bello quadro e que merece ser tão apreciado como a Batalha de Avahy, tambem pintada na Europa.

*

Quem percorrer os Fastos de Napoleão, ou outra collecção qualquer de quadros de batalha, encontrará muita figura parecida com as da Batalha dos Guararapes; e no emtanto ha defeitos muito salientes n’este quadro: o chão está aceiado como se a empreza Gary tivesse varrido e irrigado de vespera; as fardas estão escovadas e sopradas, que fazem a inveja dos nossos officiaes que vão ao beija-mão; o cavallo de Vidal de Negreiros, brunido e lustroso como um bagre recem-pescado, parece copiado de um cavallinho de páo.

Ha figuras em posições realmente comicas: no primeiro plano, um hollandez de quatro pés, parece na attitude espectante de algum medicamento que não se toma pela boca, e o hollandez, ao lado, com a mão cerrada e erguida como quem tem desejo de dar um murro na cabeça do outro para não ser tolo; á direita do espectador, um indio com o cabello todo voltado para um lado, como os carecas que levam o cabello da nuca até á testa, ergue a perna procurando alliviar não a dôr do ferimento, mas algum incommodo de ventre; o grupo do tambor que parece duvidar se quillo[sic] é mesmo uma batalha ou um encontro feliz dos heróes d’aquella época; e a esquerda do espectador, um hollandez junto dos pretinho, que abre os braços e olha muito admirado para as calças amarellas cheias de sangue, como quem se exclama:

-Diabos!... Esses moleques não me sujaram as calças!

E toda essas figuras, analysadas conforme o assumpto do quadro, não parecem contrariadas por se acharem ali reunindas?

O Sr. Victor Meirelles pinta uma figura de pernas abertas, e pensa que desenha um homem a correr; mas não ha movimento, não ha animação, e todos os seus personagens, frios, calmos parecem doidos por deixarem a incommoda posição em que foram pintados.

*

Todavia o Sr. Carlos de Laet cahio em uma contemplação lyrica deante do quadro do Sr. Victor e citou em seu apoio a critica sensata do Sr. Dr. Mello Moraes Filho.

É natural; escreva quem quizer um elogio ao pintor favorito do Sr. C. de L., que foge á critica como aos concursos do collegio Pedro II, e será citado entre elogios no rodapé do Jornal do Commercio. É sina da Gazeta ser citada pelo Jornal só nas causas más.

É natural ainda que o Sr. Laet defenda os plagios; tem obrigação de refutar o apanhei-te cavaquinho; embora, não entendo de pintura, é dever seu elogiar o Sr. Victor Meirelles. de quem é compadre. É uma questão de parentesco.

S.S. não é só genro da Academia, é tambem padrinho da Batalha dos Guararapes que elogiava antes de nascida, quando o quadro era apenas um ovo que seguia os tramites da sua vida intra-uterina e que se sahiu um aborto, não foi por ter nascido antes do tempo, pois teve sete longos annos de apurada gestação.

O Sr. Carlos de Laet fez a sua obrigação.

Z.

1879, ano IV, n.162, p.3

Gazetilha

*

O Sr. F. Moreira de Vasconcellos publicou a comedia Um quadro de casados, cheia de scenas horriveis de murros e beliscões, e rusgas renhidas.

Eis um quadro que não é como a Batalha de Guararapes do Sr. Victor, um encontro feliz.

*

            Tem dado que fallara de si na imprensa o Dr. Mello Morais Filho. Elle é critico, elle é poeta... E agora propôz uma acção de honorários médicos a um doente que escapou.

            Que homem!

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R.

1879, ano IV, n.163, p. 7

Ricochetes

Encerrou-se finalmente a exposição de bellas-artes.

Tambem já era tempo de tudo aquillo voltar aos seus logares.

Os quadros do Sr. Stekel voltaram para a rua do Lavradio, o boi de Avahy foi para o matadouro e o Camarão dos Guararapes serve de miolo á grande empada que está exposta no Castellões.

Está tudo acabado, mesmo a critica.

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Os criticos tambem voltaram aos seus empregos ficando-nos apenas Mirandola, cujos conhecimentos e bom gosto a questão esthetica veio pôr em relevo.

Em compesação porém...

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Em compensação, porém, C. de L. conta ainda historias da carochinha no rodapé do Jornal e o Dr. Mello Moraes resuscita as suas poesias e enche com ellas a Gazeta de Noticias,  na falta de charadas.

Uma cousa suppre outra e ambas amolam a gente.

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Por fallar em bellas-artes.

A nossa Academia tem duas plataformas: a Glace Elegante e o Espenho Fiel, em que de vez em quando apparecem alguns trabalhos, que não têm entrada na propria Academia, como Voltaire não foi do Instituto de França.

Esta semana é só durante dia e meio esteve exposta na Glace Elegante uma collecção de vista á gouache assignas por Insley Pacheco.

Quasi que não tive tempo de vel-as. As trinta e seis horas bastaram-me apenas para admiral-as.

Aposto que se fossem ruins, ainda estavam lá, como...

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Como... Não! nada de comparações que podem assanhar os criticos.

De mais já fallaram elles.

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Mas, voltando ás vistas, sem calembourg...

São realmente bellas. Desde a primeira que é uma paysagem oriental até á Chacara da Crus? (Paquetá), são de um acabado perfeito e revelam o bom gosto do artista.

Citar algumas seria fazer injustiça ás outras. Ha em todas uma suavidade de tons, uma transparencia que só preferindo todas de uma vez.

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Póde gabar-se de ter boas vistas quem as possuir.

Junio.

1879, ano IV, n.170, p. 6

Tesouradas

            A Revista Musical (e de bellas artes, para desconto dos seus e nossos pecados) é um jornal serio, que não dá nem cumulos nem trocadilhos; mas que em compensação diz d´estas:

            “É este artista (Benjamin Leão) um moço de vinte e tantos annos, nascido na Parahyba do Norte que nunca estudou desenho, e que expõe na casa Chaigneau um magnifico retrato do S. M. o Imperador”.

            Esta Parahyba do Norte que nunca estudou desenho, é horrivel; mas...

X

            Mas “vem, ao que parece (á Revista Musical) estudar desenho á capital do Imperio” e faz muito bem - a Parahyba do Norte - porque mais vale tarde que nunca.

            Pois a Revista Musical  e de bellas-artes entende que não: “Vimos, diz ella, o retrato alludido: tem mais perfeição, mais semelhança e mais correcção do que os que se fazem aqui. Neste caso, perguntamos (é a Revista de bellas-artes quem falla ainda): “O que quer o Sr. Benjamin Leão estudar aqui no Rio de Janeiro?”

            Mas, presada collega e querida chará, é a Parahyba do Norte ou o Sr. Leão que nunca estudou desenho?... Essere ô non essere?

X

            Em todo caso eu tambem vi o retrato alludido, - se é obra da Parahyba do Norte, se do Sr. Leão: isto é lá com a collega...

            Agora, o que eu não vi foi a tal “mais perfeição, mais semelhança e mais correcção, que a Revista (de bellas-artes) enchergou, o que vi foi infelizmente, a falta de tudo isso que a Revista de bellas artes lobrigou. E de mais, póde se fazer um retrato parecido, correcto, e ter muito o que aprender, no Rio de Janeiro...

            Decididamente a Revista Musical, que está sempre com fusas e semicolcheias, tinha a vista muito diffusa neste dia!

X

Rolando.

1879, ano IV, n.171, p.3

Tesouradas

Afinal de contas isso de bellas-artes é uma historia.

É uma historia mal contada pelo Sr. Bittencourt da Silva na Revista Brazileira, onde o supremo architecto já desfechou dous artigos com promessas de mais!

(Aguenta-te, Julio Huelva, que a piada já lá está.)

Quando digo dous, não é que lesse ambos, não. Deos louvado, deparei logo com o II e um vide a Revista passada...

Não vê que eu caio n’essa, de indigestões, basta uma.

X

Felizmente vem a cousa em forma de maximas a marques de Maricá, de modo que, debaixo para cima ou de cima para baixo, dá sempre errado como os artigos do Cruzeiro (desculpem.)

É tudo assim: “As composições da arte qualquer que seja a sua manifestação, são livres, mas ha certas regras de que não póde afastar-se o artista.”

Perdão, mestre; mas se as composições da arte são livres, porque regras então de que o artista não póde afastar-se? e se ha regras,... como são livres as composições da arte?

Mysterio e... asneira!

X

Rolando.

1879, ano IV, n.172, p.2

Rio, 9 de Agosto de 1879

Realisou-se esta semana, com a presença imperial e musica do maestro Fiorito, a distribuição dos premios aos artistas que mais se distinguiram na ultima exposição de bellas-artes e na opinião do jury da Academia.

Foi uma cerimonia tocante. Houve discursos do Sr. Moreira Maia, Terremoto do Conservatorio e mais discurso da alumna Cunha Bittencourt, que agradeceu, muito commovida, os premios e menções conferidos.... aos outros.

Como vê-se, a rhetorica e o cantochão deram-se as mãos para o realce d’essa festa artistica, em que uns foram injustamente esquecidos e outros lembrados injustamente.

Uma cousa compensa a outra; e o jury...

*

E o jury é o jury.

E como tal tem todas as lincenças, mesmo a de conceder premios superiores aos artistas que nada expuzeram, como o leitor já deve ter notado pelas noticias dos grandes amoladores diarios.

Antes de se dar mesmo qualquer medalha...

Foram solicitadas recompensas superiores para os Srs. Victor Meirelles de Lima, Pedro Americo de Figueiredo e Mello e Francisco Joaquim da Silva Bittencourt.”

Os tres formam até um grupo á parte, bem afastado dos outros, para não se confundirem... de acanhamento.

Nem todos, entenda-se, porque entre elles ha artistas e magicos com licença do Pato Tonto.

*

Nada é mais conveniente do que botar os pontos nos ii e cortar os tt, pois vão os pontos nos ii.

Eu transcrevi lá em cima das tres estrelinhas a solicitação do jury de uma recompensa para o Sr. Victor Meirelles de Lima-Pedro Americo de Figueiredo de Mello e Francisco Joaquim da Silva Bittencourt.

Ora o jury (talvez o leitor não acredite mas é verdade), o jury solicitou simplesmente uma recompensa superior para um homem que nada expôz: o Sr. Bittencourt da Silva.

*

E facil é de a gente certificar-se, indo á Academia de bellas-artes, ou, o que é ainda mais facil, abrindo o catalogo official da ultima exposição.

Encontra-se: de Pedro Americo, a Batalha de Avahy; do Sr. Victor Meirelles, a Batalha dos Guararapes; do Sr. Bittencourt da Silva...

Não, nada; não se encontra cousa alguma do Sr. Bittencourt da Silva, a não serem as maximas pifias e cansadas que o illustre architecto está agora publicando; mas isso mesmo...

Isso mesmo é na Revista Brazileira, coitada! tão moça ainda e já tão... sem ter com que encher-se!

*

Bem de perto a distribuição dos premios aos expositores de bellas artes pelo jury competente (hum! hum!), seguio-se a exposição portugueza, inaugurada com grande pompa e um só discurso.

Oh! santa felicidade! ninguem mais pedio a palavra depois que o Sr. Luciano Cordeiro pôs o ponto final a leitura do seu discurso.

Parece que os nossos eloquentes tiveram receio de que se lhes cortasse o fio do discurso com a celebre faca de mato.

Bem aventurado receio.

*

A.    Gil.

1879, ano IV, n.185, p.2

Rio, 22 de novembro de 1879.

*

Os nossos formatos-grandes transcreveram todos, esta semana, um artigo do Sr. Pinheiro Chagas sobre o “monumento levantado pelo Sr. Guilherme Klerk á fama de tres nações.”

O leitor vai talvez pensar que se trata de alguma Venus de Milo, com os competentes braços, ou de algum fresco que vem desbancar os da capella Sixtina; pois não é nada d’isso. Este monumento artistico, em que tres nações se embriagam de gloria, essa moderna maravilha perante a qual vão velar-se as outras sete, este portento esthetico que pasma o seculo corrente é... uma alhambra?... não; um Palacio d’estio?... ainda não; a torre de Babel concluida?... tambem não...

Este monumento das tres nações n’elle reunidas pelo idéal artistico, é simplismente uma cromo-oleographia!...

*

Sim! uma simples cromo-oleographia, como apparecem muitas, frenquentemente, na Europa, um producto puramente industrial, impresso em machinas de Alauzet, por meio de pedras lithographadas; sómente... Sómente esta estampa representa a Primeira Missa no Brazil, do Sr. Victor Meirelles; e isto bastou para que o Sr. Pinheiro Chagas elevasse a cromo-oleographia ás alturas ideiaes de “um monumento artistico” tri-nacional: do Brazil, França e Portugal.

O illustre litterato descreve “os esforços herculeos” do Sr. Klerk, “a pericia impossivel” dos impressores francezes, e pinta a França, Portugal e Brazil, alliados n’um glorioso amplexo artistico-internacional, exclamando afinal:

-Só a fé vivissima prodús tão grandes feitos!...

*

Parece-me que é rebaixar muito o sentimento esthetico da França, o gosto artistico do Brazil e Portugal - apregoar uma cromo-oleographia como o cumulo da perfeição da technica de tres nações reunidas; e eu, habituado a vêr o original, a contemplal-o e admiral-o, acho que a estampa tem apenas o valor das estampas bem impressas e o merito de uma especulação commercial.

Mas se a França e Portugal reclamam, pelo orgão do Sr. Pinheiro, dois terços de gloria da estampa da Primeira Missa no Brazil, podem dividir entre si o terceiro terço, que o Brazil cede francamente o seu quinhão.

Desde que lhe deixem o quadro original, tome quem quizer todos os Dominus vobiscum da Missa em chromo.

A. Gil.

P.6 e7

Coisas

A phrase é feliz.

A Gazeta de Noticias, em um devaneio sentimental sobre bellas-artes, falla n’um “monumento de nossas riquezas artisticas.”

As nossas riquezas artisticas!

Academia de bellas-artes, Lycêo de artes e officios, Lycêo de artes e officios, Academia de bellas-artes...

Aguenta-te, velha França.

O nosso triumpho é completo!

+

K. Brito.

1879, ano IV, n.187, p.2

Rio,   de Dezembro de 1879.

Quem visitou este anno a exposição de bellas-artes da nossa Academia, sentio forçosamente a condolencia irritante que nos causa a creança decrepita, a infancia a desmembrar-se, corroida pela podridão hereditaria; e se a compararmos ás exposições anteriores, é ainda mais profundo o nosso desgosto, mais descondoladora a esperança no futuro das artes no Brazil, que se prenuncia cada vez mais estreito, mais acanhado, mais mesquinho. Nem um só quadro revelando bom gosto, nem uma só composição mostrando aproveitamento, nem um só trabalho de inspiração propria! O gosto corrompe-se, a inspiração desapparece, a technica estraga-se, vicia-se, retrográda.

Em presença de tão tristes resultados, o pezar é acabrunhador, pensa-se naturalmente nas causas que tão funestamente estão influindo nos destinos das bellas-artes, entre nós. E não é muito difficil convergil-as, filial-as á má direcção dos alumnos, á carencia de quem lhes guie a inspiração, lhes aperfeiçoe o gosto, lhes ensine uma technica menos esterilisadora, menos erroneamente convencional, quem lhes dê emfim a verdadeira noção da arte, porque, incontestavelmente, ha no Brazil vocações artisticas que se revelam na musica, na poesia, nas letras; e as artes caminharam sempre parallelamente, progrediram sempre de concerto. Creio que isto chega a ser um axioma.

*

Em quanto porém a musica tem cultores apaixonados, em quanto a poesia renega a convicção das escolas gastas, para seguir o novo impulso e cantar outro ideial; só a pintura, a architectura mostram-se completamente alheias, corrompem-se abastardam-se, definham. A causa parece patente, é que não ha uma Academia para a litteratura, é que ninguem vai pedir inspiração ao Conservatório, é que não ha um codigo systematico, uma poetica official para a poesia; e só para os alumnos de bellas-artes existe um estalão presumpçoso, um molde rhetorico, uma esthetica falseada pela incompetencia, que só podem produzir o aleijão e o aborto.

Assim é que não muito raro temos noticia de se manifestarem, nas provincias, vocações artisticas para a pintura. São moços que vem para a côrte, cheios de promessas e de esperanças, matriculam-se na Academia, e nunca mais se sabe d’elles.

*

Sem discutir o veredictum do jury que decidio no concurso aos premios, basta ver o assumpto escolhido para esse concurso, S. Pedro ouvindo cantar o gallo, para se ter uma ideia bastante precisa da incompetencia, da falta absoluta de educação esthetica, da negação artistica a mais completa dos nossos professores de bellas-artes. Depois d’este assumpto, só outro sacro tambem: o Sr. Ministro do imperio fazendo-se Messias, empunhando um valente chicote para enchotar os vendilhões do tempo da arte.

A imprensa tem reclamado o fechamento, a abolição da Academia de bellas-artes. Attendendo a falta de um museu, onde os artistas pudessem ir estudar os bons modelos, á falta de cursos em que bebessem os principios necessarios, sem uma atmosphera artistica, é certamente um erro pedir tanto; o mal não implica a falta do bem. Mas é necessaria, indispensavel uma reforma completa, uma substituição do pessoal docente; porque em quanto os alumnos tiverem professores de pintura que não sabem desenho, professores de paisagem que não conhecem a natureza, professores de esculptura que não tem noção da arte, professores de architectura pedreiros aposentados, o ensino academico será forçosamente nocivo, corruptor fatal ás artes.

*

Dizendo que as lettras progridem no Brazil, não faço mais do que reconhecer uma verdade afirmada pelo Sr. Machado de Assiz na Revista Brasileira, quando sustentou que ha entre nós uma nova geração poetica, viçosa e galharda, cheia de convicção e fervor, a qual, se não tem um folego constante, sente-se todavia animada de um espirito novo e já não se quer dar ao trabalho de prolongar um dia - o romantismo - que verdadeiramente acabou.

Depois d’esta confissão franca e louvavel, prosegue o nosso critico um bello estudo, em que analysa a ideia nova, a geração moderna com aquella habilidade e criterio que todos lhe reconhecem, deixando porém ás vezes transparecer o litterato, o homem de escala além do critico. É antes uma virtude que um defeito, não se póde exigir a ingratidão.

Justifica a nova aspiração, ampara alguns dos poetas, reconhece-lhes nova tendencia que se accentúa em Fontoura Xavier, que se avigora dos Devaneios ás Telas Sonantes;  mas acha-os injustos quando chasqueiam da escola velha, contradictorios, quando se definem e poucos de uma originalidade... N’esse ponto elle foi mais do que critico e litterato, foi diplomata tambem.

*

Por A. Gil enfermo

J. S.

1880, ano V, n.192, p.7

Bibliographia

___

O Sr. Rangel  de S. Paio analysa o quador [quadro] Batalha dos Guararapes, defende o autor - o Sr. Victor Meirelles - dos criticos que apreciaram aquella téla, e isso n’um volume que ainda não tivemos de ler.

Por ora vimos apenas o retrato do nosso pintor historico que orna a obra...

Está um pouco prote-gido.

A.    Gil.

1880, anoV, n.194, p.2

Rio, 7 de fevereiro de 1880.

Fui esta semana ao Lyceo de artes e officios, estabelecimento mais util do que parece e menos apreciado do que merece.

O contrario justamente de muitos outros mais pomposos e mais celebrisados.

Tem-se abusado e muito da expressão “relevantes serviços” chapa invariavel da munificencia imperial; mas que me permittam applical-a ainda uma vez - e dignamente - em relação áquelle estabelecimento que os está prestanto relevantissimos.

Estes serviços estão felizmente bem patentes e entram no rol das cousas palpaveis e visiveis, para que nenhum S. Thomé os ponha em duvida.

Realmente, quem visitou este anno os salões do Lyceo, pôde ver em cada canto, ao longo das paredes o fructo de muito trabalho aproveitado e proveitoso, pois consta de centenares de desenhos abrangendo a geometria elementar, architectura, esculptura e ornatos.

De certo não se admira alli as maravilhas de Miguel Angelo, mas quem vê na arte do desenho a base solida do ensino artistico e industrial, reconhecerá forçosamente os beneficios que presta o Lyceu, illustrando o espirito e formando o gosto do operario, pondo-lhe o modêlo diante dos olhos e guiando-o em todos esses trabalhos.

Os conhecimentos de maior utilidade pratica são emfim ministrados n’aquella escola do povo a todos que a procuram, sem as ceremonias nem distincção de nacionalides.

Os nossos parabens pois ao Sr. Bittencourt da Silva e aos mais professores.

No entanto, o governo já não póde dispensar ao Lyceu os mesmos favores que lhe ha dispensado em epochas mais prosperas... antes de nos andar a pedir um vintem - coitado! e cortou a verba que lhe concedia para obras necessaria.

Deve por certo ser bem má a condição das finanças publicas, para que o governo assim proceda; n’estas condições não ha senão o appelo para o publico fluminense tão prompto - sempre que se trata de fazer o bem - e que sempre se mostrou melhor financeiro do que os ministros que alternam na pasta da fazenda... talvez por administrar o que é seu.

É o que faz o Lyceu: appella para a philantropia do publico, afim de continuar a ser a escola onde mais de mil pessoas vão buscar a instrucção de que carecem.

E creio ter dito bastante, para que assim seja.

*

A Gil.

1880, ano V, n.199, p.2

Rio, 13 de Março de 1880.

*

A nossa Academia de bellas-artes, que já tinha conseguido tornar-se completamente inutil, achou que isso era muito pouco e está-se tornando prejudicial, nociva ao bom gosto com a creação de uma galeria nacional.

Esta galeria nacional é um conjucto de quadros muito mal pintados, e peior desenhados que tomam agora o lugar das télas de Sarritelli, de Dominico Fizzella, de Bernardo Castello, de Alberto Durer, de Miguel Angelo Caravagio, de Annibale Carrache, de Vandick, de Paolo Veronese, de Murillo, de Corregio, de Perugino, de Salvador Rosa, de Greuse, de Nicoláu Poussin e de outros, antigamente expostas na Pinacotheca, mas hoje renegados nas aguas-furtadas da Academia.

*

Em quanto isso porém, em quanto os Murillo, os Vandick são escondidos no fôrro da Academia; figuram cá em baixo, á larga, bem illuminados, a Passagem de Humaytá, do Sr. Victor, Caim amaldiçoado, do Sr. Mafra, Morte de Socrates, do Sr. Medeiros, Magnanimidade de Vieira, de Corrêa Lima, Caçador e a onça, do Sr. Taunay, O Chapéu de D. João VI, de A. Alves e outras bugigangas que parecem desertadas de algum belchior da rua do Senhos dos Passos. Mas ...

-Aqui, ao menos tudo é nosso, diz o Sr. Mafra, muito ancho, apontando a galeria...

Naturalmente, nem póde ser senão nosso tudo que fórma a galeria nacional - muito propria para desmamar creanças - mas...

Não! O melhor é não fazer commentarios.

A.    Gil.

1880, ano V, n.204, p.2

17 de Abril

++ Chegou para a Academia de bellas-artes mais um trabalho de Rodolpho Bernardelli: estatua representando Santo Estevão apedrejado.

A mim , confesso não me agradam os assumptos sacros conforme o livro santo. A arte illustrando a Biblia, torna-se cumplice de muito anachronismo, e não é certamente essa a sua nobre missão; mas como execução é o cumprimento de muito que nos promettiam o talento e applicação do artista. É um bello trabalho de apurada perfeição. Discutem o genero, é uma innovação: discutem a correcção; e o Sr. Siz N., advogado bem conhecido, descobrio enormes defeitos de proporção, medindo-o a cordel. A cordel!... Pobre Bernardelli! E tu que passaste os teus melhores dias no mais acurado estudo da proporção, que sonhaste ás noites as durezas da geometria humana, que foste á Italia admirar a arte em suas expansões mais deslumbrantes, que estiveste em Pariz bebendo a nova inspiração, que frequentas os mestres e os museus, não tiveste um cordel, um miseravel fio de algodão para medires as pernas do seu santo Estevão!

E os professores d’Academia applaudiram essa medição do advogado S. N.... Beata gens!

Raul D.

1880, ano V, n.215, p.3

Cartas do Oriente

&

No Purgatorio, por exemplo, ha umas grandes labaredas de fogo que lambem as almas como o Sr. Victor Meirelles lambe os seus quadros, em quanto que no banho turco o que lambe a gente é a agua, para começar.

Depois, é a temperatura que faz o resto, eleva-se, eleva-se... até 108 centigrados, e com a temperatura a gente tambem sóbe, sóbe... e se não vai ao setimo céo, é que a porta do quarto está completamente aferrolhada. Começa então o corpo a suar, a suar muito, e este suor que a principio gotteja e depois corre em enchurrada é o banho.

Pelo menos é o que lava o corpo.

&

D. Antony

Correspondente.

P.7

Ricochetes

#

Ao nosso Pedro Americo é que decididamente não falta inspiração: não lhe encommendam quadros? Elle pinta-os de graça.

E o peior é que ainda assim não lh’os querem.

Pelo menos o nosso governo que acaba de recusar uma offerta n’estas condicções:

O Sr. Pedro Americo pintaria de graça a batalha de Tujuty, e o governo pagaria as tintas e pinceis sómente.

-É muito caro, respondeu o ministro pelo Diario Official.

No molho é que está o segredo do cosinheiro.

#

Junio.

1880, ano V, n.216, p.7

Piruetas

A rua do Ouvidor é o refugio dos desoccupados e dos que fogem aos affazeres.

N’um ou n’outro caso, eu passo sempre alli o meu quarto d’hora; e foi durante esse tempo que entrei hontem no Espelho Fiel, especie de menageria, onde os artistas brazileiros - faute d’um salon - vão expor “as provas de apreço” a oleo que lhes são encommendadas.

Estas “provas de apreço” são retratos de majores, inspectores de quarteirão... que seus amigos mandam eternisar na tela para admiração dos posteros. É o embalsamamento em effigie, e parece que actualmente estão por preço bem commodo.

Ha tantos!

*

N’um canto, Carlos Gomes, enorme, bochechudo, zangado como um chefe de tribu que perdeu o tacape. É mais uma manifestação de zanga do que de apreço!

Este trabalho é do Sr. Belmiro alumno da academia.

Esta academia! estes alumnos!

Segue-se um coronel rubro, tezo, duro, com os fios da barva retesados que parecem engommados a ferro.

Pelo Sr. commendador Rocha Fragozzo que tambem foi da academia.

Depois um Sr. Asinhavrado, como um cadaver que esteve tres dias debaixo da terra,

Este cadaver é do Sr, Mallio, outro alumno.

Mais adiante outro personagem de azeitona, d’Elvas e com ares de terrivelmente hemorrhoidario...

Do mesmo Sr. Mallio.

Uma espanhola allegra a funebre galleria com seus bellos tons.

Do Sr. Papf que pinta retratos muito soffrivelmente, quando não procura imitar as pinturas dos pianos, lá da terra delle.

Fecha a galeria um velho, terno a choramingar-se da sorte, por ter cahido nas garras do pintor que até o fez de bocca torta.

Este é do Sr. Duarte que para fazer economia de pinceis, pinta agora com canivete.

Todos esses artistas menos o Sr. Papf são da Escola Brazileira ultimamente descoberta pelo Sr. Mafra.

Eis o nosso salão - uma verdadeira cosinha.

*

K. Brito

1880, ano V, n.218, p.6

Piruetas

*

Este abandono da terra das bananeiras pelo paiz das laranjeiras pode no emtanto dar em resultado mais decepções do Guarany.

Já lá estão tantos a respirarem a mesma atmosphera que inspirou Raphael e Bellini; equantos Victor Meirelles por um Carlos Gomes!

Se fallo no Sr. Victor Meirelles, é que, segundo consta, o chefe da escola brasileira pinta actualmente um quadro todo de movimento - para mostrar que sabe - e eu preciso aconselhar ao Sr. Victor que, em taes condições, o melhor é pintar uma locomotiva e pol-a a correr sobre os trilhos da Copacabana, que estão devolutos.

*

K. Brito.

1881, ano VI, n.245, p.3

Gazetilha

*

Seguio ha dias para a Europa o nosso pintor Victor Meirelles que, apesar dos seus sessenta e quatro annos, ainda vai estudar desenho... Nunca é tarde de mais para bem fazer.

*

R.

P. 6

Piruetas

*

O jornal negreiro, noticiando a partida do commendador Victor Meirelles, deseja que:

Prospera fortuna acompanhe o inspirado autor da Primeira Missa, da Moema e de tantas outras télas de incotestavel merito, e no-l’o restitua cheio de vigor e inspirado em novos assumptos para a producção de obras primas, de que é capaz, como já tem provado, seu brilhante talento.”

Isto publicou o Cruzeiro no seu numero de hontem, sexta-feira santa, e talvez em attenção ao dia.

*

Porque ha tempo, ainda elle amarello, escreveu o mesmo Cruzeiro referindo-se ao mesmo Sr. Victor Meirelles:

É pena que á porta d’academia não haja um vendedor de bengalas, para casa um se munir d’um bom Petropolis e enchotar com elle os vendilhões do templo.

*

O inspirado autor da Batalha dos Guararapes era então um “borrador insolente” um pinta-monos malcreado e outras cousas más.

Os epithetos estão lá.

Verdade é que o Cruzeiro hoje é negro, quando outr’ora era apenas amarello.

*

K. Brito

1881, ano VI, n.254, p.2

Chronicas Fluminenses

*

Como Paris, nós temos actualmente tambem o nosso salão, um salçao de nove quadros...

Tantos quantas são as Musas.

São as provas do concurso á cadeira de paisagem, disputada por tres pretendentes, uma lista triplice como no monte Ida.

É um numero fatidico, o numero tres. Assim n’esse concurso, são tres os pretendentes, tres as provas apresentadas por cada um e tres os trabalhos que merecem ser apreciados: uma aquarella de Excellente effeito pelo Sr. Leoncio Vieira; a Ilha dos Amores; d’uma inspiração graciosa, pelo menos; e a mesma Ilha dos Amores, linda  paisagem do Sr. Monteiro.

Infelizmente, o lugar é apenas um.

*

Alter.

P.3

Gazetilha

*

Eu vejo, e não sem grande prazer, que entre os quadros admittidos no salão deste anno, em Pariz, figura uma Fugida para o Egypto, por Almeida - José - de Itú, Brazil.

O assumpto é velho; mas o facto é novo.

*

R.

1881, ano VI, n.255, p.2

Gazetilha

*

Já se abriram as incripções ás aulas de musica e desenho do Lyceo para o sexo feminino, e foi com a mais viva satisfação que vimos só no dia 6 se elevar a 120 o numero de alumnas matriculadas.

*

O concurso á cadeira de paisagem foi julgado pelo jury especial de bellas-artes. Depois de algumas hesitações foi bem classificado em primeiro lugar o Sr. Leoncio Vieira... O que não impede o merecimento do Sr. Monteiro, como paysagista.

*

R.

1881, ano VI, n.269. p.2

Chronicas Fluminenes

*

Uma festa explendida a do Lyceu de artes e officios para inaugurar as aulas destinadas ao sexo feminino!

O Rio de Janeiro estava todo lá.

Eu não podia faltar a esta festa que iniciava com tanto brilho a educação da mulher; o assumpto era por demais interessante, e o programa feito para attrahir a todos. Fui.

Á primeira porta que encontro aberta:

-Não pode entrar! diz-me o porteiro.

Ninguem mais respeitador da ordem do que eu. Fui bater á outra porta.

A festa começava. Estava-se nos discurssos. Ouvi o primeiro, ouvi o segundo, quiz ouvir o terceiro, impossivel! Ao cabo de uma hora de loquacidade, o Dr. Rozendo tinha ainda muito a fallar, sem ter o que dizer. Havia um ar de desanimo na sala, ha pouco tão alegre, tão prazenteira; desprendera-se o queiro ao meu visinho de tanto abrir a bocca; uns suavam, outros gemiam... O Dr. Rozendo fallava sempre! Os castigos da Inquisição deviam parecer doces ao lado d’um discurso que bem se podia dispensar. E o Dr. Rozendo fallava sempre! Uf!.. Novo Balthazar, o Dr. Rozendo podia affogar-me n’uma chuva de flores... de rhetorica! tratei de fugir.

-Não pode sahir, diz-me o porteiro.

Era o mesmo que me tinha prohibido de entrar. Dois supplicios, portanto: um orador e um porteiro que abrigavam a gente a voltar.

Uma festa explendida, grande pelo seu caracter; mas trop de fleurs de rhéthorique!

*

A proposito da inauguração das aulas do Lycêu de artes e officios para o sexo feminino, muito se tem fallado da mulher.

Fallou-se da mulher, da educação da mulher, do seu papel na sociedade, da sua influencia na familia. E os poetas, os litteratos, á porfia disseram tão bellas cousas d’essa bella metade do genero humano, que eu nada tenho a accrescentar.

Eu acho mesmo que, em compensação ás malignidades de que ellas são o alvo constante, se exagerou um pouco o lado bom do sexo que nos fornece as sogras. Fallou-se de liberdade a conquistar, de direitos a reivindicar.

Cuidado, leitora! querem asphyxiar-te com incenso; conquista unicamente o homem e terás o melhor quinhão.

*

Alter.

1881, ano VI, n.277, p.2

Chronicas Fluminenses

Rio, 10 de dezembro.

Mais uma exposição! Os fluminenses jubilam. Em pleno successo da exposição de historia nacional, quando os fluminenses ainda não viram a decima parte do quanto a Bibliotheca expõe á sua curiosidade, eis a industria tambem nacional, que reclama a sua attenção.

É a escala das exposições. O centro agricola-commercial deu o la, e eis a historia, e depois da historia, a industria, e depois da industria as artes que tambem vão em breve mostrar o seu progresso no Lyceu de artes e officios...

Os paizes felizes, esquece-me agora quem disse isto, não tem historia, nem romance; mas o Brasil protesta contra o absolutismo d’esta regra. Porque, protestem embora os pessimistas, nem tudo é negro na patria, e que temos historia, lá estão os salões da Bibliotheca provando brilhantemente, com todos os seus livros, quadros, memorias - paginas cheias do interesse de uma existencia de mais de tres seculos. É um erro dizer-se que não temos historia.

O que nós não temos é quem saiba a nossa historia.

*

A Revista Illustrada dá hoje o retrato do Dr. Ramiz Galvão.

O que é o Dr. Ramiz Galvão, mostra-o muito brilhantemente a primeira actual exposição de historia do Brazil, que vem prestar um assignalado serviço ás nossas lettras, a nossa historia.

Bem contrariamente ao nosso projecto, não vem neste numero do nosso jornal as impressões das nossas tres visitas a essa exposição. Contratempos, que pouco interessam aos leitores, privam-nos deste prazer. O que salta porém aos olhos de todos, o que é uma vantagem incontestavel d’aquella immensa exhibição de importantes documentos interessantemente historicos, é que ao menos ficamos conhecendo  a existencia d’um vasto manancial que póde ser consultado com proveito pelo artista, pelo litterato, pelo historiador e pelo politico.

O Dr. Ramiz Galvão acaba portanto de prestar ao paiz um assignalado serviço, que merece ser devidamente apreciado.

Alter.

1881, ano VI, n.278, p.7

Pelas exposições

Quem entra pela primeira vez n’uma exposição digna d’este nome, o primeiro impeto que tem é sahir d’ella.

Por mais que se tenha imaginado um plano, por mais que se vá de animo deliberado a ver tudo, não se vê cousa nenhuma e sahe-se.

Foi o que me aconteceu a mim, na exposição de historia da Bibliotheca Nacional. Comeceu por subir as escadas sem demorar sequer um olhar nas tres estatuas que guardam severamente o topo da escada como criados da casa nobre. Entrei na primeira sala, sahi d’ella para entrar na segunda, da segunda para a terceira... do primeiro para o segundo andar, do segundo para o terceiro, e não podendo mais subir, desci, desci sobre os mesu passos, de andar em andar, de sala em sala até á rua.

Tinha visto tudo. Mas quando quiz lembrar-me do que tinha visto, não me recordava de nada. Sentia como que uma indigestão, que é o que se tem n’uma primeira visita ás exposições.

Era-me forçoso voltar, voltei; mas d’esta vez decidido a não passar d’uma sala, que é o unico meio de vêr alguma cousa. Comecei pela da frente, a sala de Pedro II.

A primeira cousa que se vê defronte, é um retrato a oleo do imperador, que não é precisamente um primor de parecença. É o imperador convencional, porque os reis são sempre dois nas télas, um real, muito raro, outro convencional reproduzido ao infinito e ás vezes tão gravado na memoria do publico que é perfeitamente explicavel esta exclamação do Simplicio, ao ver pela primeira vez o nosso monarcha:

-Mas não se parece nada com os retratos!

Assim, não me foi difficil dar razão a S. M. a imperatriz que, para compensar a presença d’esta téla, mandou immediatamente outro retrato representando S. M. em Uruguayana e que substituio um de Pedro I. Este outro, que é de Vienot, é d’um tom frio, sem contrastes; mas d’uma semelhança perfeita. Não está no cathalogo.

Muitos bustos - o de Gonçalves Dias, o de Jospe Clemente, os dos tres Andradas, etc., - de grande valor historico, mas de pouco merecimento artistico, sobretudo os dos Andradas.

Alguns retratos de princezas. É de grande valor o de D. Francisca (18068) pintado a oleo por Ary Scheffer. O visitante que páre deante d’esta téla finissima, mesmo com prejuizo das que representam as outras princezas.

Exceptuemos todavia o da princeza Amelia.

De mais, nem ha meio senão de vêl-a muito tempo ou mais vezes. Ella esta por toda a sala, reproduzida a oleo, em gravura, sempre bella, viçosa, d’uma belleza picante e graciosa com os seus cabellos levantados á moda do tempo; e nunca disse como D. Francisca, ao chegar ao Brazil:

-Quanto negro, santo Deus!

De valor historico e pela raridade, duas gravuras (17472 e 17478) representando o desembarque da princeza real D. Carolina Leopoldina no Arsenal de Marinha. - Vê-se o arsenal e parte do mosteiro e do morro de S. Bento. Uma, colorida, mostra as côres brilhantes dos costumes reaes. São desenho de Debret e gravura de Pradier.

Esboceto do quadro da coroação, representando Pedro Primeiro jurando uma fidelidade que elle não cumprio. Antes ver o original no paço da cidade, ás quintas-feiras santas.

Curioso de ver a Declaração da indepedencia (17479) a oleo por F. R. Moreaux - já que nem sempre se póde entrar no senado que é o seu proprietario. É um bom quadro, embora a figura de Pedro Primeiro esteja mal desenhada. Vê-se a casa que existio no campo de Sant’Anna onde se passou a grande scena e que, como o Provisorio; tambem se foi.

A Primeira missa no Brazil e outros quadros muito vistos.

Isto não é ainda a decima parte do que se contem na sala Pedro Segundo; mas eu já não tenho espaço nem posso mais com o cathalogo que me offereceu o Dr. Ramiz Galvão.

Dois volumes, pesando cada um seis kilos, imaginem!

++

A exposição industrial, esta vê-se muito mais facilmente.

Eu não fallarei dos altos destinos reservados á industria nacional, nem abundarei em phrases patheticas diante da religião do trabalho.

O meu papel é felizmente muito mais modesto: ver e dizer o que vi.

Pelos tempos de chuva e lama que correm, a primeira cousa que se faz ao chegar á porta da secretaria d’agricultura, é limpar os pés no capacho do limiar.

Emquanto assim se faz a toilette das botinas, mostra-se o cartão de entrada aos porteiros e lança-se um rapido olhar ás proezas da ceramica que predispõe, logo á entrada, o espirito do leitor em favor da industria. Se em vez de subir, volta-se á esquerda, tem-se os licores, os vinhos, as cervejas, as massas, os doces... a adega emfim da exposição; e como preservativo a tanta batida, segue-se logo a exposiçaõ de pharmacia. Póde-se portanto abusar dos vinhos, ha logo depois o amoniaco.

Se, ao contrario, sobe-se, o espetaculo é agradabilissimo, graças a uma enscenação a que algumas senhoras deram a magia do encanto.

Todos os ramos da industria estão alli representados e, o que é mais, dignamente representados.

É-me de todo impossivel reproduzir aqui as minhas impressões. E eu contento-me por hoje de observar que, como a exposição de historia veio apreciavel, a exposição industrial revela, o que tanto se contesta,que temos industria.

++

Fiquemos hoje por aqui com receio de classificar as fabricas de tecido como as classificou a Gazeta de Noticias: - Rink, Pau-Grande, Santa Rita, tres fabricas que recebem o fio da Inglaterra, de primeira classe. - Santo-Aleixo que mais d’uma vea lhes tem fornecido o fio, de terceira ou decima classe!

Não ha nada como conhecer o assumpto de que se trata.

Junio.

1881, ano VI, n.279, p.6

Pelas exposições

Eu dei da vez passada senão uma noticia da exposição de historia, pelo menos o meio mais acertado para conseguir vel-a.

Uma descripção ser-me-ia certamente impossivel, só a serie interminavel de retratos do imperador bastando para encher um grande livro: Pedro Segundo atravez das idades. A galeria Moreaux, por exemplo, de typos fluminenses cada qual tendo a sua historia interessante, levar-me-ia ainda mais longe.

Declino portanto da tarefa e com tanto menos remorso, quando o Dr. Ramiz Galvão suppriu perfeitamente essa lacuna publicando um catalogo cheio de erudição e que será consultado com grande aproveitamento.

Assim, adiante, á outra exposição, á exposição da industria nacional, de que se póde fallar mais ligeiramente, a vôo de andorinha, sem fazer injustiças.

++

Como a pharmacia que, quando se faz representar, é sempre pela medicina, a industria tambem quiz associar-se a arte.

Fazendo embora justiça ás boas intenções da industria, cumpre-me reconhecer que foi n’isso um pequeno incoveniente: a arte, a grande arte mostrou-se remissa, não quiz descer do seu nobre pedestal, e se não formos artisticamente representados na exposição continental, senão pelo que está na secretaria da agricultura, os argentinos podem perguntar com razo : [razão]

-Caramba! pos los brasileños no tienen mas que isso?

porque nenhum dos nosso mais famosos artistas está lá representado.

Mas, vejamos, sem outras considerações, o que a exposição exhibe de mais saliente em arte.

É preciso subir direito, ao primeiro andar, e caminhar em frente. Se se volta á direita ou á esquerda,vae-se ter á exposição de moveis dos Srs. Diego Santos ou J. Martins e corre-se o risco de lá ficar. O primeiro sobretudo, expõe um quarto de dormir, mobiliado em mosaico, onde se dormiria a eternidade!

Caminhae em frente. Uma mesa, bem servida vos attrahe, entrae. A toute dame tout honneur. É alli que algumas fluminenses exhibem as suas graças e habilidades de artistas. Ha n’um outro canto proximo á janella duas telas, assignadas M. F. d’Almeida, que realmente merecem ser vistas. São duas paisagens, uma que representa uma valle da Suissa, outra que é talvez copia d’algum quadro antigo. A primeira destas telas, ambas notaveis, está tocada com uma verdade de tons que encanta; o valle, a agua, as montanhas ao longe revelam, n’uma suave harmonia, o pincel d’uma verdadeira artista.

Entre estes dois quadros está ainda uma paisagem a oleo, assignada E. Roques, que é a viscondessa de Sistello. É um trabalho delicadissimo, de que os primeiros planos sobretudo, tem grande valor artistico.

São ainda desta distincta amadora algumas gouaches tocadas com muita arte, destacando-se pela grala e pela frescura a paisagem sobre um leque de seda.

D’entre os trabalhos da Exma. Sra. D. Zeferina C. Leão, notámos uma aquarella sobre seda, duas creanças e um ramalhete de flores, d’um colorido vigoroso, alegre e brilhante, e habilmente desenhada.

A Exma. Sra. D. Amelia C. de Albuquerque expoz tres photographias coloridas: duas da prima-dona Durand e uma da primadona Borghi-Mamo... Sempre dilettante.

Ha ainda diversos trabalhos das discipulas d’um capitão que decididamente não deve ter ganho as suas dragonas pela bravura do seu pincel!

Mas é sobretudo em bordados de toda especie, flores e fructos de todas as estações, rendar, crivos, bordados de todos os pontos e outros trabalhos de paciencia que mais se distingue a sala das senhoras. É uma profusão.

Infelizmente, de tudo quanto se faz com a agulha, seu sei apenas cholear e furo tres vezes o dedo antes de conseguir um posponto. Se a humanidade esperasse por mim, tudo andaria descosido.

++

Do lado dos homens quasi todas as telas já são conhecidas: as Exequias de Camorim do Sr. Monteiro; a Degolação de S. João Baptista do Sr. Victor Meirelles...

Pelas dimensões, o que dá mais na vista ao visitante é um Camões assignado pelo Sr. Petit - não ler assassinado, se faz favor? - Tem de Camões os Lusíadas debaixo dos braço e o olho direito furado.

O Sr. Monteiro expõe mais uma tela d’uma perspectiva admiravel. É uma passagem, da Praia Grande; um caminho cinzento, mal trilhado, que vae ter ao mar verde-azul, e um fundo de montanhas de muita verdade.

Entre as telas ainda não conhecidas, ha Um dia de inverno, paisagem a oleo do Sr. Leopoldo Miguez, violinista famoso, compositor distincto e que tambem com arte joga com infinita gama de tons.

É um bello quadro, um quadro em dó maior.

++

Em toda a exposição o enthusiasmo do Simplicio é pela luz electrica.

-Mas faz mal á vista, diz-lhe alguem.

-Oh! tambem os nossos avós diziam o mesmo do gaz!

Junio.

1881, ano VI, n.280, p.2

Chronicas Fluminenses

Rio, 31 de dezembro.

*

Fui visitar o atelier d’um artista laborioso, d’um pintor de muito talento, que se refugiou d’aquelle lado para dar mais livre curso ao seu genio de paisagista.

Estou-me referindo ao Sr. F. Monteiro.

Ha já bastante tempo que eu intencionava dedicar algumas palavras a esse trabalhador activo, um dos nossos pintores jovens que mais e melhor tem produzido. A occasião parece-me excellente, agora que o seu novo quadro, a Fundação da cidade do Rio de Janeiro, vem collocal-o definitivamente acima do par. Esta bella téla, a mais importante do artista, não é todavia nem uma surpresa, nem uma revelação; as primeiras estréas do Sr. Monteiro foram muito felizes para que a Fundação da cidade do Rio de Janeiro seja o cumprimento d’uma promessa. Elle conserva ainda na sua sala uma paisagem que todos vimos exposta na Academia; é um bello quadro onde o artista se revela feliz observador da natureza, mas ainda imbuido dos principios rhetoricos do ensino academico, de que elle se tem gradualmente libertado.

É esta sobretudo a sua qualidade mais apreciavel. Quem acompanha os seus trabalhos, e n’este ponto eu estou de perfeito accordo com o meu companheiro das paginas de fóra, sente a feliz tendencia do Sr. Monteiro para abandonar o absoluto das regras e cingir-se á penetração da natureza. O seu novo quadro, ao ar livre e perfeitamente illuminado, está desenhado com uma largueza de traço dessombrada e colorido com um verdade de tons que seduzem. A ceremonia passa-se no morro do Castello, ao grande ar; ha indios e portuguezes. O artista variando-lhes sempre as phisionomias, soube imprimir a cada raça o seu padrão, o seu verdadeiro typo.

Eu lamento sinceramente que a falta de espaço não me permittsa demorar-me mais um pouco sobre a obra do Sr. Monteiro. A Fundação da cidade do Rio de Janeiro, tem além de merito artistico, um grande valor historico. O quadro porém será exposto brevemente,e eu espero então poder occupar-me d’elle mais folgadamente. O que desejo sobretudo deixar bem saliente, é que temos um artista que crê na sua arte e que não lança, como tantos outros, á da indifferença, e que não vivem senão da esperança de encommendas do governo. A arte não é mais do governo nem dos principes, é do povo, é de todos.

*

Alter.

P.2

Echos da Semana

***

Mais uma exposição. No museu nacional, prepara-se uma exposição antropologica das raças do Brazil.

A direcção do museu, que já possúe grande copia dos primeiros habitantes do Brazil, está agora mesmo moldando em cêra os indios cherengues, do conselheiro Diogo Velho e outros typos patronimicos... Vae ser muito interessante.

***

R.

1882, ano VII, n.284, p.2

Echos da Semana

*

A Sociedade propagadora das bellas-artes realisou quinta-feira com grande solemnidade a distribuição dos premios aos alumnos do Lyceu de artes e officios, que mais se distinguiram durante o anno que acaba de findar.

É sempre uma festa sympathica, essa que recompensa o trabalho e anima o merito.

*

R.

1882, ano VII, n.285, p.3

Echos da Semana

*

O caricaturista pariziense André Gil, de cuja loucura tanto se fallou mesmo entre nós, começa a dar esperanças de restabelecimento.

N’um dos momentos, assás frequentes, de lucidez, exclamou elle com muita philosophia:

Pensa-se sempre em fazer hospicios para os doidos. Porque não se hão de fazer tambem para os imbecis.

*

R.

1882, ano VII, n.287, p.3

Echos da Semana

*

Domingo passado, em S. Domingos, grande concerrencia (sic) de curiosos á exposição do quadro a Fundação da cidade do Rio de Janeiro, do Sr. Monteiro.

Esta explendida e bella tela, de que a Revista Illustrada em tempo se occupou, está definitivamente terminada e brevemente será exposta aqui á admiração dos fluminenses. Consta-nos que o nosso jovem pintor dá os passos necessarios para obter do governo um salão onde exponha o seu trabalho.

*

R.

1882, ano VII, n.289, p.2

Echos da Semana

*

Está de novo desfalcada a Academia franceza, que ha um mez apenas se completára: acaba de fallecer Charles Blanc, um dos criticos que, pelas suas obras, mais concorreram para o engrandecimento das bellas artes.

Charles Blanc é o autor da Grammatica das artes do desenho, que a nossa Academia de bellas artes bem devia possuir.

*

Deve ser interessantissima a proxima exposição, emprehendia pelo Lycêu de artes e officios.

Sem fallar nas gouaches que tenciona expôr o Sr. I. Pacheco, já bastante conhecido, podemos augurar um grande successo aos trabalhos da Exma. Sra. Abigail de Andrade que pela primeira vez se exhibem á admiração do publico.

*

Sem assinatura.

1882, ano VII, n.292, p.3

Exposição de bellas-artes

Toda a imprensa já fallou sobre a exposição de bellas-artes no Lycêu. Todos manifestaram sua opinião mais ou menos sincera, mais ou menos entendida, e apezar da norma adoptada ter sido a indulfencia, nem por isso os expositores se acham satisfeitos com a analyse dos seus trabalhos. Elles não deixam de ter razão até certo ponto, pois que quando se acha tudo bom é o mesmo de que dizer que tudo é ruim.

Não distinguir o bom do soffrivel ou do mediocre, não póde agradar senão aos que se acham n’esta ultima classificação. Mas o que se ha de fazer?... Não se pode exigir que a nossa imprensa tenha criticos de força de Charles Blanc, Theophilo Gauthier e outros. E se por accaso os tivesse, estou bem certo que quasi todos os artistas se empenhariam para que não fallassem das suas obras.

Vê-se que a imprensa em geral procurou ser agradavel á quasi totalidade dos expositores e estes devem ser gratos ao menos pela boa intenção.

Por minha parte, não querendo de todo destoar dos outros, bem que tenho a convicção de entender alguma cousa da materia limitar-me-hei a julgar com toda a imparcialidade os trabalhos e o merito dos expositores que revelam talento e estudo.

Collocarei em primeiro lugar o quadro do Sr. Driendl, intitulado: Uma scena de familia nas montanhas da Baviera. É tão perfeito, que póde-se dizer que é a natureza apanhada em flagrante. Magistralmente composto, a sua execução tanto no desenho como no colorido, nada deixa a desejar e indica no seu autor um grande artista.

As quatro cabeças de estudo são tambem executadas por mão de mestre.

Segue-se o Sr. Grimm, com a sua immensa collecção de paysagens, feitas nos proprios lugares por onde viajou. Ahi, o visitante tem occasião de apreciar e comparar a differença da natureza de varios paizes, como sejam, a Italia, Grecia, Allemanha, Turquia, Egypto, Brazil, etc., etc.

O Sr. Grimm, que é dotado de um grande talento para paysagens, não deixa todavia de ser bom figurinista como se vê pelo seu bello quadro intitulado a Guitarrista e uma grande collecção de aquarellas admiravelmente executadas.

As cópias de Ticiano, de Rembrant e Vandick feitas pelo Sr. Algaier, são de uma tal fidelidade, que dão uma idéa perfeita dos quadros d’esses grandes mestres.

A fugida do Egypto, ou antes o sonho de S. José, revelam no Dr. Decio Villares um verdadeiro artista. A sua composição é simples e grandiosa ao mesmo tempo. O S. José está bem desenhado e sobretudo bem collocado como posição. Outro tanto não posso dizer do anjo, cujo desenho não é de todo correcto. Isto, porém, parece-me ser devido a não estar acabado.

Sobre as cópias que o Sr. Decio apresenta, pouco direi, por não ser possivel comparal-as com os originaes; todavia não posso deixar de apreciar as Consequencias da guerra, de Rubens o retrato do filho de Frederico III e Baccho. O retrato de F. Villaça. Os dois S. Jeronymos e outras pequenas composições, promettem um futuro de gloria para o jovem artista.

A Atala do Sr. Augusto Duarte é um bello quadro. Se a posição do indio fosse menos angulosa, as pernas mais finas e a côr d’ellas em harmonia com a do torso, essa figura seria magnifica. A cabeça sem ser bonita, é todavia muito notavel pela expressão.

Ha uma pequena incorrecção de desenho no rosto da mulher e os seus cabellos são por demais pretos e brilhantes para pertencerem á um cadaver. Em compensação as mãos são admiraveis assim como a côr cadaverica do corpo, apezar d’este ser  um pouco forte.

Se o nariz do frade tivesse mais um dedo de comprimento seria uma bella cabeça, mas como ha narizes de todos os tamanhos, cada um escolhe aquelle que mais lhe agrada.

Esse quadro que pecca um pouco pela composição e tem alguma incorrecção no desenho, é incontestavelmente um dos melhores que se tem apresentado ao publico.

Pintado com grande vigor e largueza, ha no todo um harmonia e um colorido, que revelam da parte do autor uma excellente escola e um grande estudo.

O lindo quadro intitulado Uma galeria de Louvre é mais uma prova do que avanço, assim como os seus retratos, destacando-se d’entre este uma cabeça de louco.

E. Papf. Um bom retratista sobretudo para o nosso publico fluminense que gosta de retratos bem lambidos. D’entre elles, sobresahe um de meio corpo, de uma moça, com fundo de jardim, que é realmente para se admirar pelo bem acabado e finura de execução.

As suas flores e parasitas são bem pintadas; bem pintadas e mais até, o que occasiona certa dureza desagradavel nos contornos.

P. Peres. A sua copia do Christo no tumulo de Rivera póde ser muito boa assim como o Santo Viatico de Peret e a Apparição de Samuel á Saul de Salvador Rosa, porém... para julgar copias, é preciso ter ao pé os originaes.

O mesmo direi quanto ás sua impressões sobre Laghouat de Guillenin, o Samaritano de Ribot e a Vaga de Courbet.

Não deixarei todavia de notar que todos esses quadros são bem pintados, - assim como o Interior, unico original que só tem um defeito, não ter calçado convenientemente o armario que está ao lado da chaminé.

J. Pacheco. As pinturas á gouache, que o publico de ha muito está acostumado a admirar, fizeram d’este intelligente amador um verdadeiro artista. Sentimos que ao lado dos gouaches expostos e d’entre os quaes destacam-se a Vista da praia de Itapuca, Uma noite de luar na Italia e a Vista da bahia e do Rio de Janeiro não esteja um album contendo uns vinte gouaches ainda superiores a esses.

Os retratos - systema Bychromotypia, - são realmente bonitos, e a prova é que um cavalheiro amante das bellas-artes, carregou com um, e por muito favor deixou ficar o outro.

A. Valle. O seu copo com flores e o quadrinho intitulado, Agua na  fervura, tem bastante merecimento. Este ultimo seria muito mais agradavel se o pintor tivesse conservado em volta do assumpto principal mais suavidade no tom.

O tecto excessivamente preto de fuligem, a porta por demais recortada e escura e a luz interior forte de mais, prejudicam um tanto a finura e o bem acabado do assumpto principal do quadro.

As suas marinhas são inferiores em merecimento: quanto aos seus retratos á crayon, nada ha a dizer. O publico já está acostumado a aprecial-os desde que o Valle procurou imitar a execução larga e artistica do Augusto Off.

Este tem apenas exposto dois retratos, o de Theophilo Gauthier pa oleo e um outro á crayon.

São ambos magistralmente executados.

(continua). 

1882, ano VII, n.293, p.6

Exposição de bellas-artes.

De uma duzia de quadros, expostos pelo Sr. G. James, destacam-se alguns que tem real merecimento. D’entre esses citarei um navio desarvorado, perto da barra do Rio de Janeiro, ns. 101 e 107, representando uma jangada.

O mar nestas duas marinhas, é tratado com mais justeza de tom de que em outras, cuja côr verde e demasiado exagerada destôa completamente da côr do céo. Foi esse o effeito que me produzio o quadro representandoo o Cabo da Boa Esperança e algunas outras marinhas, peccando quasi todas pela mesma desharmonia.

Os dois quadros representando ambos um naufrago tem unicamente o assumpto de interessante; quanto á execução, ella deixa muito a desejar. Assumptos d’esses requerem grande talento na composição, desenho correcto e pincel de mestre.

O Sr. Medeiros, apezar de professor da Academia de Bellas-Artes, ou talvez por causa d’isso mesmo, não foi feliz com o seu quadro intitulado Lindoia.

A composição do quadro não é má; direi mesmo que é soffrivel, mas o desenho é muito incorrecto e o colorido pessimo; tem um não sei que de antipathico, e de podre. As formas e a côr da india são repugnantes; parece que morreu ha dias! E aquelles verdes em volta d’ella? e aquella luz côr de rosa na arvore?! e...?

Não, decididamente prefiro o seu quadro de genero representando um moça sentada n’uma cadeira, tendo ao seu lado uma criança a dormir.

É um quadro mais modesto e que está nas forças do Sr. Medeiros; elle agrada logo á primeira vista e vê-se que o effeito de luz foi melhor comprehendido e copiado do natural. Outro tanto direi da cabeça da moça que é muito bem pintada, resentindo-se todavia o corpo de alguma imperfeição no desenho.

Estou convencido que, n’este genero de pintura, o Sr. Medeiros a quem não falta nem talento, nem os precisos conhecimentos, acabará mais tarde por apresentar-nos quadros muito apreciaveis.

As gallinhas de Jaques e as duas aquarellas de Caroselli são tres bons quadros, sobretudo o primeiro.

Entre quadros e fracções de quadros, o Sr. J. Ballá apresenta dezoito producções suas.

Dois outros estudos de paisagens copiados do natural, representando grupos de arvores e uma vista de palmeiras n’um quadro oval, onde o Sr. Ballá, seguindo as regras da arte, mostrou ter bastante aptidão pare esse genero de pintura, promettendo ser mais tarde um bom paisagista. Infelizmente elle teve a lembrança de querer inventar um novo systema de pintura onde á paciencia mais extra-chineza, junta-se a extravagancia mais estapafurdia. Por exemplo: não pintar mais com pinceis mas sim co  alfinetes, afim de obter o que elle cham uma grande finura no traço; assim elle pode como effectivamente vi, pintar folha por folha, capim por capim, e pedrinhas do tamanho de uma cabeça de mosca, tendo o seu toque de luz, de sombra e penumbra, e outras insignificantes cousinhas, muito bem retalhadas e recortadas, por mais longe que estejam.

Tudo isso demanda muita paciencia e um tempo immenso.

Por isso é que o Sr. Ballá dá muito mais valor a esse seu novo systema, do que áquelle que mais ia de accordo com a verdadeira arte e com o bom senso.

Espero que, convencendo-se que ainda em caminho errado, o Sr. Ballá voltará a dar-nos boas amostras de seu talento e o publico continuará a apreciar as suas producções artisticas para o que tem dotes e estudos especiaes.

É preciso porém pôr de lado os quadros intitulados Entrada do Rio de Janeiro tirado do morro do Picco, a mesma, tirado do Passeio Publico, a Bahia do Rio de Janeiro tirado do morro do Russel, onde se vê um arvore no primeiro plano que é um verdadeiro disparate, e outros pequenos quadrinhos pintados no mesmo genero e que não exprimem coisa alguma, senão uma propensão a recuar no verdadeiro caminho que o Sr. Ballá tem de seguir e que, estou certo, seguirá.

As Exmas. Sras. Carvalho expuzeram ainda alguns quadros de fructas e parazitas que denotam tres distinctas amadoras. São muito bem pintadas e estão a pedir á suas autoras que lhes dêm mais alguns companheiros.

Ao pedido dos quadros junto o meu, convencido de que terei mais uma occasião de louvar os seus bellos trabalhos.

O Sr. Souza Lobo apresenta entre retratos, quadros á oleo, fructas, estudos e desenhos uma miscellanea que denota da parte do seu autor muitas tentativas em varias especialidades no tempo em que esses trabalhos foram feitos. Como já decorreram muitos annos e que o Sr. Lobo nada apresenta de moderno para julgar se elle progredio ou não, limito-me a dizer que não posso formar juizo a seu respeito, esperando que n’uma futura exposição elle apresente algum trabalho que nos dê alguma idéa do seu merito.

O Sr. Poluceno está mais ou menos na [no] mesmo caso ou ainda peior com o seu grande retrato que nada exprime.

Artistas que foram alumnos da Academia de Bellas-Artes e que hoje exercem o professorado em varios collegios, têm obrigação de fazer algum trabalho que não seja só retrato parra desenvolver e animar o gosto pelas artes entre os seus alumnos e amadores.

O Sr. Pagani tem um estudo de flores muito apreciavel e que deve animar o seu autor a não parar ahi.

O Sr. Jacintho da Silva tem alguns quadros de fructas e parasitas pintados, já ha annos, com certo desembaraço e que muito promettiam para o futuro.

Infelizmente o futuro apresentou-se n’uns gouaches e desenhos feitos á pennas que são simplesmente horrorosos!

E são offerecidos a algumas senhoras! Pobres senhoras!

Francisco de Sá e Eduardo de Sá, têm cada um exposto um quadro intitulado Miscellanea.

São dois bons estudos, bem pintados e que denotam da parte de seus autores muito boa applicação. Dou os meus parabens ao mestre d’elles, o Sr. Medeiros, que muito lisonjeado deve estar com tão bons discipulos.

O Sr. Irinèo faz o que póde. Continue a estudar que um dia tirará proveito de seus esforços.

O mesmo direi ao Sr. Puga que mostra ter vocação para estudos de marinhas.

Do Sr. Victor Meirelles ha apenas dois ou tres retratos. São do Sr. Victor, por conseguinte não preciso dizer mais nada.

(Continua).

1882, ano VII, n.294, p.6

Exposição de bellas-artes

Dos quatro quadros de marinha que expoz o Sr. Rouede, o melhor é sem duvida, o intitulado: Sacco do Alferes, De um colorido harmonioso, embora um pouco molle, agrada logo á primeira vista, fazendo extraordinario contraste com o pendant (Ilha de Paquetá) pela dureza na maneira de reproduzir um rochedo, cuja côr lembra perfeitamente um queijo de Rocquefort.

- O Sr. Belmiro expoz apenas um retrato. Apezar deste ser bem pintado, não posso formar um juizo sobre o seu merito artistico, sem vêr algum trabalho de sua composição.

Sendo o Sr. Belmiro um dos melhores discipulos de nossa Academia das Bellas Artes, espero que n’uma outra exposição, elle apresentará algum quadro que melhor ponha em relevo o seu talento.

- Dous retratos de senhoras, um ... côr de café com leite, outro café puro e bem torrado, pelo Sr. Estevão Silva. Na verdade, não comprehendo que o autor destes dous retratos seja o mesmo que pintou o S. Pedro ouvindo cantar o gallo, que esteve na Exposição Industrial e que muito me agradou.

Ambos os retratos estão bem desenhados, mas como não tem o menor toque de luz nas cabeças, supponho que foram desenhados de dia e pintados de noite.

- O Sr. A. Petit, vantajosamente conhecido por todos os que desejam ter retratos baratos, expoz tres desta edição e um quadro a quem elle deu o nome de Vendedora de mingao.

Quanto aos retratos, o Sr. Petit tem feito reaes progressos, e entre elles, contam-se alguns bem soffriveis: mas quanto ao mingao, tenha paciencia, é muito ruim.

Estou prompto a louvar qualquer esforço por parte d’aquelles que procuram progredir trabalhando, e o Sr. Petit estaria nesse caso se se limitasse á fazer o que está nas suas força e não Camões na gruta e quadros que como este, requerem grandes conhecimentos e só podem ser admirados quando feitos por artistas de merito.

Não é pois para estranhar que o seu Mingao desagrade aos que entendem da arte.

Eu, por minha parte, acho-o muito desenchabido, e declaro francamente que não o posso engulir.

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Na parte da esculptura a exposição é muito pobre. Senti realmente que o publico não tivesse occasião de admirar os trabalhos do primeiro artista da nossa Academia de Bellas Artes, o Sr. Rodolpho Bernardelli. Espero porém que, rendendo homenagem ao grande talento desse artista que se acha actualmente em Roma, o digno director da Academia fará o mais breve que puder uma exposição especial de tudo quanto o Bernardelli enviou, a fim de que o publico admire os trabalhos do alumno que mais tem honrado a nossa Academia na Europa.

- O Sr. Chaves Pinheiro expoz uma estátua - S. Sebastião - na qual admira-se a habilidade que tem esse apreciavel esculptor em acabar perfeitamente os seus trabalhos. Vê-se que um pé é um pé, tem as suas cinco unhas, e muito bem feitinhas; o mesmo direi das pernas, do torso, dos braços, da cara e até da arvore, na qual está amarrado o Santo. O Sr. Chaves Pinheiro deve estar satisfeito com esse seu trabalho que tão concienciosamente executou. É um trabalho completo: nada lhe falta.

No entanto, vejam como são as cousas!... Para mim falta tudo. Falta o mais importante, falta aquillo: aquillo que separa o simples artista habil, do grande artista genial; aquillo que se chama a scentelha, a inspiração, o fogo sagrado.

O Bernardelli é quem nos mostrará um dia, tudo isso esculpido no marmore.

A maior gloria que póde o ter o Sr. Chaves Pinheiro é ter sido o seu primeiro professor e sua melhor estatua é o seu discipulo que elle começou aqui e que a verdadeira arte concluirá em Roma.

- O Sr. Almeida Reis tem exposto um busto em marmore, que deve ser o retrato do Dr. Passos.

- O Sr. Garcia expoz varios trabalhos em marmore, sobresahindo entre estes, uma mesa que tem um xadrez para jogo de damas.

Todos esses trabalhos, muito acreditam a casa do Sr. Garcia pela maneira como são acabados.

O Sr. Leopoldino de Faria, tem tres cabeças de estudo feitas ha tempo, que denotaram no seu autor bastante habilidade; infelizmente o seu quadro intitulado: Allegoria á lei 28 de setembro é de tal quilate que é impossivel classifical-o. Nunca se vio disparate maior; póde-se dizer até, pyramidal!

Vou procurar descrevel-o: não é muito facil, mas emfim vou tentar.

A figura principal, que deve ser a Princeza imperial, tem ao lado direito de sua cabeça, outra cabeça que é a do Imperador segundo o sceptro e que dá uma idéa perfeita do rei de copas.

Do outro lado da cabeça da princeza, aparece a do conde d’Eu á espiar. O illustre principe e seu augusto sogro, apezar de serem dois homenszarrões, ficam completamente escondidos pelo corpo da Serenissima Princeza que apresenta assim o aspecto de uma mulher com tres cabeças.

Vestida de setim branco e com um manto que nunca mais se acaba, S.A. Imperial, de cabeça erguida e braços cahidos, parece pedir pelo amor de Deus que a não deixem cahir.

S.A. tem toda razão pois que, achando-se pousada sobre uma especie de urubú e este sobre um throno, e o throno sobre uma almofada, a dita sobre um tapete e este sobre uma escada e a escada sobre um couro de boi e o couro de boi sobre não sei o que, corre altamente o risco de levar algum trambulhão, o que não está de accordo com a magnitude de uma lei como a de 28 setembro.

A nossa princeza tem excellentes qualidades, mas não qualidades acrobaticas.

Aos pés de toda essa trapalhada está uma figura, representando um indio de gatinhas, manifestando serio receio que lhe caia tudo aquillo nas costas. No mesmo plano e na mesma posição, vê-se uma negra velha que parece implicar com o urubú, ou antes, o urubú com ella.

De cada lado da princeza, pela altura mais ou menos dos joelhos, acham-se dois grupos de bonecos, quatro de um lado e tres do outro ao todo: sete. Por esse numero, vê-se logo que deve ser o ministerio.

Não se sabe onde os apotheosados ministros da lei 28 de setembro pousam os pés. Alguns d’elles, os que se acham do lado esquerdo da princeza, esqueceram as pernas em casa, ficando assim com o corpo completamente cortado ao meio.

Em cima do quadro, ao lado direito, apparece um cousa que tem um braço estendido e que parece querer derrubar esta importante composição-castello do Sr. Leopoldino.

Eis ahi, com a maior fidelidade, a descripção da Allegoria á lei 28 setembro que, segundo se lê n’um cartapaccio collocado em baixo do quadro, será offerecido a S.M. o Imperador.

Agora, pergunto eu: Que mal fez S.M. ao Sr. Leopoldino?

O facto de offerecer desde já essa composição a S.M. faz suppor que o seu autor julga ter feito uma maravilha!    

Elle terá talvez razão: n’esse genero nunca vi cousa igual!

Se me extendi mais sobre este trabalho de que nos outros, é porque o seu autor assim me obriga, e creio prestar-lhe um relevante serviço abrindo-lhe os olhos, e evitando emquanto é tempo, que elle ponha em execução em ponto grande este disparate que todos viram em ponto menor.

(continua) 

1882, ano VII, n. 295, p. 3 e 6.

Exposição de belas-artes

(continuação)

Pela primeira vez, n’esta Côrte, viram-se trabalhos de amadora, inteiramente diversos dos que em geral se costuma expor.

A arte do desenho é tão difficil, exige tanto estudo, paciencia e dedicação, que nem todos tem a coragem de abraçal-a, e raro é ver-se trabalhos importantes nesse gênero expostos por amadores.

Tornou-se pois notavel, sobretudo entre os entendidos a exposição feita pela Exma. Sra. Abigail de Andrade, que apresenta seis especimens da arte do desenho no seu mais alto gráo.

A perfeita correcção nos contornos e o bem modelado das sombras acabadas com esmero, fazem admirar a bella estatua do Faune copiado do gesso e feita em duas posições; a Manhã, grupo em marmore do celebre esculptor Schelling e a Venus e Cupido do mesmo, sendo estes dois trabalhos copiados em augmento de umas photographias.

Duas Academias das mais difficeis do curso de desenho de Julien, completam os seis trabalhos expostos por essa inteligente amadora, que mostrou em tres generos de desenhos o quanto se póde alcançar com o estudo serio e aturado.

Toda imprensa foi unanime em descer-lhe os maiores louvores, o que é uma justa homenagem ao merito dessa distinctissima amadora, que, pela primeira vez expoz os seus trabalhos em publico.

Esses louvores devem animal-a, a continuar no verdadeiro caminho da arte o estou convencido que em outra exposição, a Exm. Sra. Abigail alcançará na pintura os mesmos triunphos que obteve no desenho.

- De entre os trabalhos propriamente ditos de Senhoras, como sejam flôres, fructas ou passaros, ornatos etc., pintados á acquarella ou á gouache sobre papel ou seda, e que mais primam pelo gosto e pelo brilho das côres de que pelo desenho, feito em geral por meio de decalques, occupam lugar muito distincto os da Exma. Sra. Zeferina Carneiro Leão, pelo bom gosto com que ella os executa.

- Não menos dignas de louvor são as pinturas sobre seda das alumnas do Collegio S. Candida.

- Um mappa geographico planisferio faz honra a Exma. Sra. Eugenia Braga, discipula do Collegio Immaculada Conceição.

- Os trabalhos da Exma. Sra. Maria Teixeira de Faria, dão uma excellente prova de quanto essa distincta Senhora tem vontade de alcançar as palmas que, estou certo, virão um dia coroar os seus esforços e mais alguns annos de estudo na difficil arte da pintura, que a Exma. Sra. Maria Teixeira de Faria começou a ensaiar.

- O mesmo acontecerá com outras distinctas principiantes, as Exmas. Sras. Carolina Julia de Souza e Josephina H. Galvão.

- O Sr. J. de Vasconcellos tem alguns retratos á crayon feitos com bastante largueza e fieis em semelhança, que denotam no seu autor um talento especial para esse genero de trabalho, de que fez uma especialidade.

- O bem conhecido lithographo A. de Pinho tem varios retratos que primam pela similhança e o bem acabado.

Nota-se todavia falta de vida e estylo na sua execução, o que é para sentir-se n’um lithographo tão acreditado e cujos trabalhos são dignos de apreço.

- O Sr. H. Aranha tem duas pequenas telas,  expostas simplesmente como de amador; mas onde elle mostra realmente o seu talento, é na gravura em pedra, na qual não tem rival no Rio de Janeiro.

Senti que nesse genero de trabalhos o Sr. Aranha se limitasse unicamente á expor um diploma, assim como um retrato de Pedro II em agua-forte, quando tem outros tantos dignos de merecimento, não só gravados sobre pedra, como em aço, cobre e pedras finas.

- O Sr. Claudio L. de Carvalho, é também um gravador de muito merito e cuja especialidade são o mappas geographicos.

Dedicando-se ha muitos annos a esse genero de trabalho, conseguio á força de estudo e pratica, organisar e gravar mappas que não ficam atraz dos melhores da Europa. O Atlas e a Carta do Imperio do Brazil que elle expoz, dão a mais patente prova do que avanço, e são para elle, a maior gloria que podia alcançar.

-Outro gravador, o Sr. Rodolpho de Lima apresenta alguns specimens de gravura em pedra que mostram da sua parte grande vocação e uma habilidade especial para a vignete.

- O Sr. P. Ottwil expoz uns monogramos feitos com bastante gosto e umas cabeças de animaes que era melhor não expor. Horrivel bicharia;

- Uma miscellania  para agradar, deve ser composta com muito gosto e os diversos objectos nella contidos, executados com muita habilidade. Nesse caso se acha a que expoz o distincto amador H. Possolo.

- O mosaico do Sr. A. T. Teixeira é tambem apreciavel pela nitidez com que é feito.

- Uma cabeça de Christo e a Ceia de Leonardo Vinci fundidos na fabrica de ferro do Dr. Peixoto, em Campinas, muito honram esse estabelecimento pela maneira como esses dois trabalhos estão executados.

- O Sr. F. Guimarães, photographo, expoz tres retratos em esmalte e a batalha naval do Riachuelo.

Quem conhece a grande difficuldade que ha em executar trabalhos nesse genero, sobretudo em chapas do tamanho das que o Sr. Guimarães apresenta, é que póde dar-lhe o devido valor.

Só depois de alguns annos de constantes experiencias é que elle conseguio fazer esmaltes iguaes aos melhores da Europa e ver os seus esforços coroados de um pleno sucesso.

A cópia da batalha do Riachuelo é admiravelmente feita, e tem hoje um grande valor, não só por ter-se perdido esse quadro, um dos melhores de Victor Meirelles, como por ser o unico exemplar que existe feito em esmalte, o que garante uma duração eterna.

- O Sr. A. Henschel expóz dois retratos photographados sobre téla, e muito bem acabados; tão acabados que tornam-se feios, e anti-naturaes. Prefiro n’esse genero os retratos em ponto menor, onde o retoque é mais admissivel quando não é exagerado.

Attenuar a força da sombra, suavizar as meias tintas sem as destruir, e saber convenientemente collocar um ou outro toque de luz, tal é a missão do bom retocador que, deste modo, nunca altera a semelhança, nem faz da pelle da gente um aço polido.

Retratos em ponto grande, quer sejam a oléo ou a claro escuro como os que apresenta o Sr. Heschel, devem ser executados largamente, de modo a bem reproduzir a natureza que exigem ser examinados de mais perto.

Mais arte e menos paciencia, é o que eu deseja aos peritos retocadores da casa do Sr. Henschel.

- Passando a secção de Architetctura citarei, como dignos de serem admirados os trabalhos do Sr. Carlos Arnaud.

A sua Fachada de um theatro lyrco e o Córte do mesmo theatro são de uma execução admiravel. Rigorosamente desenhados e coloridos, e perfeitamente observados os effeitos da luz e sombra até nos menores detalhes, as plantas do Sr. Arnaud dão uma idéa perfeita e clara da parte archetectonica e ornamental, assim como do material a empregar na construcção.

O mesmo se observa no seu Córte longitudinal do Palacio Legislativo. O pequeno espaço de que disponho não me permitte alongar-me sobre as bellezas da architectura, a solidez da construcção onde o ferro toma grande parte, e a boa distribuição da luz e ventilação, que é uma condição importante para o nosso clima, e que o Sr. Arnaud comprehendeu e applicou perfeitamente.

Não deixarei todavia de notar que certas armas imperiaes ficariam muito melhor, pela maneira como foram collocadas, atraz de um bastidor de que na frente do seu theatro. Hoje encontram-se armas imperiaes em toda parte; nos droguistas, nos dentistas, nos alfaiates, nos etc., etc. Só falta o Sr. Arnaud pôr em baixo das taes armas, uma taboleta com a seguinte inscripção: Theatro lyrico, fornecedor de musica de SS. MM. Imperiaes.

O Sr. Dr. José de Magalhães expóz varios trabalhos sobre os quaes me é muito difficil dar uma opinião.

São tão diversos uns dos outros na sua composição e execução, que... estou bem embaraçado..,

Deixo pois de lado os que não me agradam como o Forum e outros,  para louvar a Fachada e o Córte de um theatro cujo estylo original e pouco commum entre nós, lembra o genero dos theatros europeus.

O que mais me sorprehendeu porém nesses dois trabalhos e na fachada de um asylo (menos o telhado deste) é o modo de acquarellar que é admiravel. Tem o cunho até daquellas acquarellas feitas por artistas europeus.

Dou pois os parabens ao Dr. Magalhães, estranhando todavia que não tenha assignado os seus melhores trabalhos.

- O Sr. J. L. Correia apresenta uma Fachada de Palacio da Justiça e uma planta  do mesmo. Entre parathesis, vê-se escripto a palavra  esboço.

            Em primeiro lugar, aquillo não é um esboço; porém se essa palavra é applicada para encubrir algmas imperfeições, louva a modestia e dou-lhe o seguinte conselho:

            O grandioso não consiste no disproporcional e na falta de elegancia, assim como a imitação do antigo não deve ser tão rigorosa que exclua a luz e o ar. Os edificios, mesmo com caracter de monumentos, devem ser compostos segundo o clima dos paizes onde tem de ser edificados. Os que servem para o Rio de Janeiro, não podem servir para S. Petersburgo.

- O projecto de decoração para um hotel feito a sépia pelo Sr. Thomaz Driendl, é um chefe de obra de perspectiva e desenho. Não admira; o que não será capaz de fazer o autor do quadro intitulado: Scena de familia nas montanhas da Baviera?...

- Fizeram-se representar na exposição com trabalhos de seus alumnos, os seguintes collegios: Pedro II, Werneck, Santa Candida, Instituto dos Surdos-Mudos e Asylo dos Meninos Desvalidos.

Conhecendo a pouca importancia  que até hoje se tem dado ao ensino do desenho, cabendo ao governo  maior culpa pelo descuido com que tem tratado esse importante ramo de instrucção, não posso sem ser injusto, criticar os trabalhos que foram expostos. Louvo-os todos pois, sem todavia deixar de reconhecer que entre elles ha soffriveis e mediocres, por que vejo nessa exposição dos collegios uma louvavel tenção da parte dos seus directores em incutir á seus discipulos o gosto por esse ramo das bellas artes que tem sido tão deprezado até hoje.

- Falta-me fallar agora dos quatro quadrinhos a oleo pintados cá pelo nosso patrão Angelo Agostini, representando uns caipiras á cavalo laçando bois  e um viajante em apuros com o encontro de um burro morta na estrada.

            Esses tres quadros executados de memoria, sob a impressão do facto presenciado, e feitos sem pretenção em quanto o diabo esfrega um olho e a preguiça esfrega os dous, tem um só merito na opinião do seu autor: é terem contribuido á fazer numero ao lado dos mais modestos na exposição.

            Convidado, pelo illustre e digno director do Lyceu de Artes e Officios o Sr. Bethencourt da Silva, á tomar parte nessa festa artistica, Angelo Agostini entendeu corresponder á essa honra, enviando o que tinha sob a mão, unicamente como uma prova de sua plena adhesão á excellente idéa de propagar por meio de exposições o gosto pelas bellas artes.

            Aproveitando a occasião, elle agradece aos seus collegas de imprensa a benevola e lisongeira opinião que emittiram sobre esses insignificantes quadrinhos, e ao Sr. Bethencourt da Silva o ter-lhe proporcionado mais uma occasião de louval-o pelos seus esforços em prol da instrucção artistica no paiz.

Concluindo esta analyse da exposição, não posso deixar de louvar a todos os artistas e amadores que á ella concorreram.

Todos, dando uma prova do seu maior ou menor adiantamento, mostram que não ficaram surdos ao appello da Sociedade Propagadora das Bellas Artes que póde reunir em redor de si alguns trabalhos, e provar assim que a arte não morreu de todo entre nós.

Se esta critica foi um pouco severa com alguns, é unicamente para que della tirem proveito. Ninguem poderá accusal-a de ter sido injusta.

Os mais censurados, tiveram palavras de animação, pois que o fim da nossa critica é animar á todos e não desanimar ninguem.

X.

1882, ano VII, n. 296, p. 6.

Pequeno Correio

Aviso aos amadores:

N’um dos salões da Typographia Nacional, está emfim aberta ao publico a exposição Monteiro, de que tão bem e com tanta justiça já se occupou n’uma das suas chronicas passadas o nosso companheiro Julio Dast. A exposição Monteiro consta de treze telas, treze bellos trabalhos que merecem ser admirados.

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Rolando.

1882, ano VII, n. 297, p. 2.

Chronicas Fluminenses

***

Mas não esqueçamos os vivos pelos mortos...

A Revista Illustrada reproduz hoje a Fundação da Cidade do Rio de Janeiro, a esplendida téla do Sr. Firmino Monteiro de que eu, por mais de uma vez, me tenho occupado.

Fui, mesmo, o primeiro a dar o alarme d’esse grande quadro, que o Rio de Janeiro hoje admira.

A Revista Illustrada tinha n’isso o empenho de um vaticinio; quando, ha trez annos, o Sr. Monteiro expoz o seu quadro Exequias do Camorim, nós dedicamos-lhe algumas palavras de animação, augurando n’elle um artista muito além do comum. Vemos, hoje, que não fomos mau propheta; a sua ultima obra colloca o notavelmente, acima do par.

Elle, entretanto, só bem tarde desconfiou de que era um artista. Antes de entrar para a Academia, o pequeno Antonio Firmino, encadernou livros n’uma officina da qual, aos vinte annos, chegou a ser director. Mas, então, ou porque o couro lhe cheirasse mal ou porque os in-folios lhe causassem horror, o encadernador deixou de bom grado a officina e fez-se alumno do Instituto Pharmaceutico, depois do Conservatorio de musica... Jeronymo Paturot, á caça de uma profissão, nem as pilulas nem os sustenidos nem os Deve - e - Haver o seduziram; e eil-o, finalmente, na Academia de Bellas-artes, para de lá sahir senão já um artista celebre, mas como Minerva armada para a conquista. Depois...

***

Depois trabalhou, trabalhou muito aqui, na Europa, e trabalha sempre...

Ha mezes, quando eu fui pela primeira vez ao seu atelier na esperança de ver apenas a Fundação da cidade do Rio de Janeiro, fui agradavelmente surprezo por uma galeria completa. É que para limpar os pinceis, depois do trabalho, elle suja adoravelmente uma tela d’alguna paisagem que lhe trota no cerebro... Anda sempre apressado. Outro dia eram tres horas da tarde elle voava para S. Domingos, onde foi esconder o seu atelier.

- Onde vaes com tanta pressa?

- Vou pintar uma cousinha d’après nature.

- A esta hora!

- É a unica hora em que ainda não pintei, e vou aproveitar os effeitos da tarde que promette estar magnifica.

Com todas essas qualidades, é todavia modesto, como não ha exemplo. Na vespera de abrir a sua exposição, diseutindo-se [sic] no escriptorio d’esta folha sobre o seu grande quadro, alguem lhe notou um quasi nada.

- Tens ahi a tua caixa de tinta? empresta-m’a, diz elle ao meu companheiro, ainda é tempo...

E tudo isso, elle diz e faz satisfeito, alegremente. Porque muito contrariamente ao habito fastidioso da maior parte dos nossos artistas, o Sr. Firmino Monteiro não choraminga a sua sorte de artista e nem se lamenta da falta de gosto do publico, nem maldiz o momento em que se fez pintor, “n’uma terra em que o governo só cuida de política”  nem descrê; nem desanima, não. Elle crê, confia, trabalha e é um artista.

            Não vão agora pensar por esse preito que eu lhe rendo que o Sr. Firmino Monteiro é estrangeiro, não. Elle é brasileiro, nascido na muito heroica cidade de S. Sebastião.

            A Revista Illustrada tambem é patriota - quando é tempo.

Julio Dast.

1882, ano VII, n. 298, p. 2.

Chronicas Fluminenses

***

            Realmente, hoje mais do que outr’ora, as artes precisam de auxilio. E póde um governo, que pedio verba para Venus, desinteressar-se de toda acção, mesmo indirecta, sobre o movimento das artes? É justo que o ministerio escravocrata por amor aos fazendeiros, não tenha um olhar de consolo para o artista, para o escriptor que tem aliás mais cubiça de gloria do que de dinheiro?

            Póde-se recommendar como sendo o melhor systema a completa abstenção do governo - as artes não são do governo, são do povo. -

É uma doutrina muito sustentada e muito sustentavel. Mas tivesse ella prevalecido, ou prevalecesse ainda, e nós não tinham a Academia de bellas-artes. Em toda a parte, sob qualquer fórma de governo, o estado trata com as artes e com as lettras, não só como potencias individuaes, mas ainda como forças legitimamente ciosas da sua independencia, que podem entretanto ter necessidade d’um apoio, d’um auxilio.

            E um theatro do governo, que não é senão o pagamento d’uma divida aos fluminenses, não seria, em parte, esse apoio, esse auxilio indirecto? Vamos, Sr. Dantas, agarre essa occasião de se tornar benemerito, nunca se é moço de mais para bem fazer, seja o feliz Mecenas da arte.

***

Julio Dast.

            P. 3.

            Echos da Semana

***

            Na “Glace elegante” á rua do Ouvidor, está exposto um busto do marquez de Pombal.

            É um trabalho muito bem acabado do Sr. Chaves Pinheiro; os cabellos sobretudo estão bem soltos, e se a semelhança é perfeita, o que não podemos garantir, é completa a obra do velho professor da Academia de bellas-artes.

***

R.

1882, ano VII, n.299, p. 2.

Echos da Semana

***

Agarramos ao vôo uma occasião de não dizer mal dos nossos vereadores.

Segundo nos consta, o Sr. Dr. H. Hermeto Carneiro Leão tenciona propor á camara, na sua proxima sessão, a compra do quadro historico do Sr. Firmino Monteiro: a Fundação da Cidade do Rio de Janeiro.

Essa proposta, que nós esperamos será unanimemente aceita, não faz senão muita honra ao seu auctor; o bello quadro do Sr. Firmino Monteiro não deve realmente, pela sua natureza pertencer, senão á Camara Municipal, que dispensando assim o mais merecido auxilio ao nosso artista, obtem ao mesmo tempo uma tela notavel, em que nada foi abandonado ao acaso. Na Fundação da cidade do Rio de Janeiro, sente-se um temperamento de artista ao serviço de uma inspiração patriotica.

***

R.

1882, ano VII, n.310, p. 2 e 3

Echos da Semana

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No estabelecimento la Glace Elegante da rua do Ouvidor, está exposta uma bella pequena tela do nosso artista Firmino Monteiro. É uma paisagem do Rio de Janeiro: um pouco de matto, um pouco d’agua, ainda matto, umas ruinas, uma pedreira e um pedaço de céo; mas tudo visto por um artista que sente e executado por um pintor que sabe pintar. É uma das melhores paisagens do autor da Fundação da cidade do Rio de Janeiro, hoje propriedade da nossa municipalidade

R.

1882, ano VII, n.312, p.3

Echos da Semana

***

Corre como certo que os membros da commissão architectonica impõem: ou a demolição da fachada da infeliz Academia de bellas-artes; ou elles deixam de fazer parte da dita infeliz Academia.

Que bella occasião de matar d’uma cajadada dois coelhos: conservar aquella joia architectonica e, librando ao mesmo tempo a dita infeliz Academia dos ditos professores!

Vamos, Sr. Leão Velloso, um bom movimento, assignale a sua administração por alguma cousa de util.

R.

1882, ano VII, n.314, p.2

Echos da Semana

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Gostam de pintura? A rua do Ouvidor está cheia. Além das duas miniaturas hollandezas expostas na vitrina dos Srs. Arthur Napoleão & Miguez, acham-se nos fundos d’estes, (da loja) 10 paysagens do Sr. Facchinetti. Tambem está exposta na “Glace elegante” uma grande tela do Sr. Decio Villares. É uma copia do tão celebre Christo de Prudon.

***

R. 

1882, ano VII, n.315, p.6

Bibliographia

Eu tenho sobre a meza um livro, o Holocausto, escripto por Pedro Americo. É um romance, cuja acção se passa na provincia natal do autor da Batalha de Avahy, e um grande romance, de que eu ainda não cheguei ao fim.

Um livro de Pedro Americo! Pedro Americo romancista!

Certamente, e porque não? Victor Hugo ensaiou-se muito tempo no calembourg e depois escreveu Notre-Dame de Paris; A. Karr foi jardineiro antes de escrever as Guêpes; Luiz Philippe teimava em ser pedreiro; entre nós, Arthur Napoleão não perdeu pouco tempo com a rebeca; e o Dr. Gusmão Lobo ainda hoje rende culto ás estrelas... Donde eu chego mesmo a concluir que o que estabelece a superioridade dos espiritos mediocres sobre as intelligencias superiores, é que os primeiros nunca fazem senão aquillo que sabem fazer, emquanto aquelles que podem o mais não chegam muita vez a fazer o menos...

Eu devo todavia confessar, como acima declarei, que ainda não cheguei ao fim do Holocausto.

- Trovas, Sonetos e Consonetos, por Bandae, um volume.

- O real Club gymnastico portuguez publicou um numero d’um jornal especial em homenagem ao grande cidadão Luiz Gama. Collaboram n’essa homenagem alguns escriptores mais ou menos conhecidos - antes menos do que mais.

- O numero 36 da Biblioteca do povo occupa-se do homem.

- D’um livro, Cinquante ans de vie litteraire, recentemente publicado em Pariz, colho esta noticia:

Quando o pae de Gustavo Planche morreu, Merle um folhetinista dramatico encontrando na mesma noite Gustavo, nos bastidores da Comedia Franceza, creu dever dirigir ao seu amigo algumas palavras de consolação.

- Oh! meu pobre amigo, que dia cruel!... Eu tomo uma parte bem sincera na sua dôr.

- Sim, responde Planche... meu pae morreu... enterramo-l’o ha poucas horas... Um senhor fez um discurso sobre o seu tumulo... Desessete erros de francez!

Alter.  

1882, ano VII, n.316, p.2

Echos da Semana

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Na Glace-Elegante, á rua do Ouvidor, está exposto um bello e bem acabado trabalho do Sr. Augusto Off. É um retrato a crayon do cnorado(sic) advogado Luiz Gama, que pertence ao club abolicionista José do Patrocinio. Como semelhança dizem-nos, está perfeito, como trabalho artistico é uma das melhores cabeças do Sr. Off, que entretanto excelle no genero.

***

O Sr. Facchinetti é que inventou decididamente um novo genero de pintura, que, não tendo ainda classificação e á vista d’um quadro ora exposto, estamos tentados de chamar pintura de familia. O Sr. Facchinetti, que, pinta sempre fazendas, pintou d’esta vez a casa do barão Homem de Mello: um pouco mais torta do que ella é, a casa lá está com todas as suas janellas, o terraço, o dono e a dona da casa, um famulo, um periquito... Mas que paciencia, santo Deus!

***

R.

1882, ano VII, n.321, p.2

Chronicas Fluminenses

Rio, 4 de novembro.

***

Mas é sobretudo nos cemiterios que se representa o grande espetaculo da commemoração dos mortos; é la que, ou nos cemiterios aristocraticos como S. João Baptista onde pára a fila de coupés, ou nos cemiterios populares como o Cajú, onde se bebe alegremente á lembrança dos mortos é preciso observar o grande desfilar dos pezares annuaes.

Eu admiro mesmo que algum pintor realista não tenha ainda tido a idéa de pintar o Dia de finados no Cajú, ou no cemiterio de S. João Baptista. O quadro está de resto todo feito, e todas essas manchas negras dos vestidos de lucto sobre as perspectivas pardacentas das alamedas, interrompidas por massas sombrias de verdura, aquelles pequenos montes brancos ao longe formados ou pelas simples cruzes ou pelos monumentos da vaidade, manchados aqui e ali de notas amarellas das côroas ou de toques bronzeados que lhes deixam as folhas mortas, esse formigar de visitantes tristes e curiosos vagantes n’essa paisagem ensoalhada, esse acotovellamento das grandes damas que se dirigem aos ricos tumulos com a gente do povo que vae contemplar ajoelhada a valla comum. Tudo isto não tem mais do que passar da natureza á tela; e o pintor teria fixado uma das scenas mais particularmente tocantes, elegante e popular ao mesmo tempo, da vida fluminense.

***

Para o artista que quizesse especializar, o seu pincel poderia encontrar o sublime ao lado do ridiculo.

            Eu vi, ha dois annos, n’esta mesma data, n’um dos cemiterios menos povoados do Rio de Janeiro, um espectaculo realmente poetico. Era o tumulo d’um joven noivo, morto dias antes de se unir eternamente áquella que sem duvida lhe ficou fiel - durante um anno. Coberto de flores, de rosas, rosas brancas, d’uma candura immaculada; era uma synphonia de neve. Uma corôa embalsamada envolvia, como d’um nimbo, o nome do morto... O anno passado n’esta data, era ainda a mesma candura, a mesma synphonia de neve, o mesmo perfume. Este anno, ó crueldade do tempo! Nem uma rosa, nem uma corôa, um nome apenas!

            Mais comicamente expressivo ainda do que tudo isso, ha o tumulo sobre que os famulos vão chorar. Demasiado sensivel de certo, a viuva ou a filha foge á vista do jazigo que encerra para sempre os restos querido do amado esposo ou do pae idolatrado; mas sem o esquecer manda regularmente dois ou tres creados incumbidos de illuminar o tumulo do fallecido. Mas d’um exemplo eu vi d’isto. Grupos de pretos e pretas que comiam, bebiam e fumavam sobre os epitaphios á lembrança de certo dos seus amos ou senhores mortos!

            - Joaquim! Você fumando sobre a cova do sinhô!

            - Ora! elle também não fumava!

***

            O Sr. Ferraz de Almeida, que nos chegou de Paris e que justamente colleciona apontamentos para alguns quadros brasileiros, terá visitado os cemiterios no dia 2 de novembro?

            Sem ser propriamente um realista, elle possue o talento e o saber bastantes para comprehender e levar ao cabo qualquer outra da sua arte; os seus quadros expostos na Academia, revelam um artista real que chegou ao successo sem trombetas nem tambor, mas docemente, seguramente, como um timido que é. Ha entre as suas telas quadros historicos, de genero e estudos; e em todos elles é o Sr. Ferraz um artista seguro, e bem inspirado. O remorso de Judas [imagem], o repouso d’um indio [imagem] forneceram-lhe assumptos de desenho e de largura de toque; mas é sobretudo na Fugida para o Egypto, composição imponente em que nada foi deixado ao acaso, que o nosso jovem artista melhor revela as suas qualidades; e quanta minuciosidade, que bellos tons, que verdade de attitude no Repouso da artista! Ha ainda dois medalhões, em que pouco se tem fallado, mas que com os seus tons quentes lançam n’aquelle meio, a sua nota alegre, graciosa e pittoresca.

            O Sr. Ferraz de Almeida é ainda muito jovem, começa; mas poucos tem dado tanto quanto elle em tão pouco tempo, e promettem mais. O Sr. D. Pedro Segundo, que o manteve em Paris á sua custa, deve hoje orgulhar-se de ter sido o Colombo d’um verdadeiro artista, modesto trabalhador, e que honrará de certo o paiz.

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Julio Dast.

1882, ano VII, n. 326, p. 2.

Chronicas fluminenses

Rio, 23 de dezembro.

***

            Mas o grande acontecimento da semana foi a festa, domingo, no grande salão do Conservatorio de Musica, da distribuição de premios aos alumnos da academia de bellas-artes.

            Ás 11 horas da manhã, uma guarda de honra do 1º batalhão de infanteria entope já toda a rua Leopoldina, na sua parte defronte do edificio. Minutos depois apenas, chega S.M. o Imperador acompanhado do seu camarista e do Sr. ministro do imperio, que são conduzidos ao grande salão, ou antes ao salão de honra. Ahi, o Sr. conselheiro Tolentino tomando a palavra faz um pequeno discurso, muito curto mas significativo. Lêde-o vós mesmos:

            “Senhor!... Senhoras!... Eu d’isso de bellas artes, devo dizer-vos, não pesco nem um pires. Eu era um simples empregado do contencioso, sem jámais ter reflectido sobre os effeitos do claro-escuro; ia todo dia ao Thesouro, disseram-me que passasse de vez em quando por ali pela academia, é perto, eu passo, e recebo por isso mais um salario que não me faz mal nenhum; mas quanto a fazer longos discursos sobre a influencia da arte etc. etc., não é comigo... Gato escaldado... Basta o relatório que eu me metti a fazer e no qual, parece, disse barbaridades... O Sr. Mafra foi o culpado; eu pedi-lhe que me escrevesse o relatorio, elle não quiz, para ser o primeiro a vir notar-me as barbaridades... Nada de discurso, portanto... De mais os alumnos o que querem são as medalhas, não é palavra, não é, seus maganões?”

            Tra la ra fon din din din... toca a orchestra uma abertura, e de collaboração com o ministro S.M distribue todos os premios, finalmente um bello concerto fecha a significativa festa.

***

            Do conservatorio de musica á Academia de bellas-artes, é um passo; demo-l’o...

            Eis-nos em plena exhibição.

            As quatro salas em que são expostos os trabalhos annuaes dos alumnos da Academia, regorgitam de curiosos. Comecemos pela sala dos paisagistas, é a menos repleta, por ser talvez a mais interessante. Ha n’esta sala mais d’um trabalho capaz de demorar a attenção do visitante, e eu citarei sobretudo as duas paisagens dos dois alumnos Domingos Garcia y Vasques e Hippolito Boaveatura Caron que se revelam francamente duas brilhantes promessas. O ponto de vista é o mesmo, um canto de São Christovão, creio, e com differença muito diminuta foi tratado com o mesmo vigor, com a mesma vida; as arvores, ao lado direito, são as mesmas, as mesmas cazoarinas e por entre ellas a mesma aragem fresca, agradavel. São dois quadros quasi já de mestre.

            Um olhar ainda sobre uma pequena paisagem do morro do Castello, e passemos.

            Na sala de pintura historica, a impressão é desagradavel; da meia duzia de São João expostos, nenhum merece decididamente ser adorado; pelo contrario, os alumnos da nossa Academia conseguiram dar ao primo de Jesus um aspecto repulsivo. A explicação, de resto, d’esta feialdade de apostolo está logo ao lado na figura obesa, feia, aleijada quasi d’um velho, que tem servido de modelo vivo aos alumnos! E, compreende-se, não é copiando Quasimodos, que se chega a reproduzir Apollos.

            Passemos sobre as miscellanas e mesmo sobre os trabalhos embora bons de architectura, e saudemos no Sr. Francisco Teixeira da Silva o alumno que mais valentemente se relevou artista. O seu esboceto, feito fóra d’aula, de sua propia arte e inspiração, é uma etapa. Um estudante, alto, delicado, dorme, vestido, sobre uma cama de ferro; e esta cama está no quarto. Nada é mais simples; mas o quarto é um quarto de estudantes, e este dorme, dorme profundamente n’uma suavidade de linhas, e n’uma largueza de traço, ao mesmo tempo, adoraveis; está vestido, mas sentem-se por sob a roupa as linhas correctas, ondulantes d’um corpo bem proporcionado, que descança. É um artista de talento o Sr. Teixeira da Silva.

***

Julio Dast.

            P. 3 e 6.

           

Bellas artes.

            No Domingo 17 do corrente, fui a Academia das Bellas Artes, ver a exposição dos trabalhos executados este anno pelos futuros Raphaes e Miguel Angelos brazileiros e mais do que nunca fiquei convencido de que para aprender a desenhar ou pintar, é preciso nunca entrar nesse estabelecimento, onde nada se ensina, nada se aprende, e que pela sua inutilidade não serve senão para desanimar qualquer que tenha vocação para as bella artes.

            O Atrazo de tudo aquillo e a apathia que se apossou de quasi todos os alumnos que lá estão a borrar papel e telas, é  devido, não á falta de modelos, como dizem, mas á falta de professores que sejam professores.

Posso garantir, e desafio á quem provem o contrario, que não ha entre os que occupam as cadeiras de desenho figurado e de pintura, um só que saiba desenhar.

Essa é a verdadeira razão do atrazo em que se acham os poucos alumnos que lá estão á esforçarem-se para aprender alguma cousa, mas que nunca o hão de conseguir, emquanto forem dirigidos por pessoas inhabilitadas como o Sr. Medeiros, por exemplo, que nem como alumno seria aceito em qualquer academia da Europa.

Não falta nem boa vontade nem intelligencia da parte, não direi de todos, mas de bastantes alumnos da Academia para que esta possa formar futuros artistas, se encontrassem quem os soubesse guiar convenientemente.

O concurso da aula de paysagem é a maior prova do que avanço; a tela do alumno Domingos Garcia y Vasques, e a do seu competidor que o segue de perto, Hyppolito Boaventura Caron, são duas paysagens que agradam aos mais exigentes e revelam dois futuros artistas que muito honrarão a nossa Academia, assim como honram actualmente o seu distincto mestre o Sr. J. Grimm, autor de umas bellas paysagens que muito admiramos na ultima exposição do Lyceu de Artes e Officios.

Mas é que o Sr, Grimm não faz parte da panellinha, é só se entende com os seus alumnos que elle leva para o campo e lá lhes diz:

- Está é a verdadeira Academia de Bellas Artes. Olhem para esta esplendida natureza e procurem sentil-a; impressionem-se com ella e transmittam sobre a tela essa mesma impressão.

            E com quatro borradellas artisticamente atiradas, o mestre ensina praticamente o modo de interpretar a natureza.

            É assim que o Srs. Vasques e Caron conseguiram fazer nos seis mezes, em que aprendem com o Sr, Grimm, o que nem em seis annos teriam feito com os outros professores da Academia.

            Uma pequena tela representando um estudante dormindo revela grande talento da parte do seu autor, o Sr. Francisco Teixeira da Silva.

            Muita graça na composição, bom desenho e bom colorido.

            Escusado é dizer que essa quadrinho foi pintado fora da Academia. E bem avisado andou nisso o Sr. Teixeira, pois que no templo das artes elle teria sido aconselhado pelos sabios professores que com certeza o teriam obrigado a pintar uma... bota.

            Esse quadrinho e as duas paysagens são as unicas cousas que prenderam a minha attenção; o mais... é melhor eu não fallar.

            Um conselho aos que se dedicam ao estudo das bellas artes, com excepção feita ao curso de paysagem do Sr. Grimm: Fujam da Academia, e para bem longe!

X.

1883, ano VIII, n.336, p.2

Chronicas Fluminenses

Rio, 24 de março.

É antes um quadro o retrato de S. M. o imperador pelo Decio Villares.

Um bello qudro, eu direi mesmo.

O Sr. D. Pedro Segundo está representado no seu costume de imperador do Brasil. E os tons frios das sedas e setins contrastam, em bellos e variados effeito, com as cores vivas, quentes dos papos de tucano e outros dixes imperiaes.

Os seus sapatos de setim, as sua meias de seda, o seu manto - grande capa que cobre tudo - estão habilmente desenhados e tocados com admiravel vigor.

Um fundo esplendido. Os accessorios foram tratados com um esmero quasi censuravel. - Em pintura, o muito bom ás vezes é ruim.

Do meio d’estes brilhantes e variadissimos tons, illuminado por uma luz bem forte, crua, se destaca o nosso imperador, bello, pesado, grande, d’essa grandeza do elephante, de que elle tem os pés, e n’uma attitude de quem vae, parece, escorregar.

É um quadro, um bello quadro. Mas é um retrato?

***

O retrato deixa de ser um obra d’arte, desde que não fôr um estudo de caracter. E eu penso que os traços caracteristicos do Sr. D. Pedro Segundo não estão na obra do artista. Aquillo não é o imperador do Brasil.

Na figura humana as linhas horisontaes tem uma grande significação moral. Segundo ellas são muito mais ou menos inclinadas n’um sentido, relativamente á vertical, exprimem perfeitamente a natureza, o caracter, as inclinações d’um individuo.

Ellas são perfeitamente horisontaes, indicam a calma, a tranquillidade.

São expansivas, exprimem o sentimento da alegria.

Convergentes ao contrario, denotam tristeza, orgulho.

As primeiras dão a ideia de equilibrio, de razão, sabedoria. As segundas, da expansão, incontinencia, voluptuosidade. As terceiras, finalmente, de meditação, recolhimento, orgulho. É o que exprimio a poetica e sabia Grecia nas tres deusas, que entre si se dispunham o celebre pomo de Paris.

Minerva: a sabedoria.

Venus: a volupia.

Juno: o orgulho.

***

Ora, pelas linhas do retrato, que lhe fez o Sr. Decio, S. M. o imperador é um orgulhoso, um deditador, um reconhido, um sombrio; tem todos os traços caracteristicos da mulher de Jupiter.

Tem o sceptro e até o chiton. - Não tem o pavão.

Não é assim entretanto. Elle não é nem Minerva, como lhe dizem muitos, sem pensarem, nem Juno, como o fez o artista, sem querer. É exquisito que ninguem o tenha ainda visto bem, quando tantos o olham. Os seus retratos contradizem-se constantemente.

Eu vi-o bem entretanto uma vez - a primeira vez que o vi.

Foi na aula de desenho. O professor esperava-o. - Sabia-se que elle vinha, e nós tremiamos á ideia de que elle ia examinar os nossos trabalhos. Elle entrou, e ao nosso grande pasmo ninguem tremeu - excepto o professor que ficou todo atrapalhado.

Eu vi-o então, e ainda hoje o vejo, completamente diverso do que os clichés o pintam. Nada absolutamente de pensador, nem de marcial. A expressão da physionomia é antes hieratica.

Como elle se sentasse, o peitilho da camisa enfumou-se e assoberbou-o. Uma das pernas das calças subio, e a meia não era, como nos retratos, tão esticada, tão transluzente.

Achei-o muito mortal.

No seu olhar, ao revez do que pintam os seus retratistas, ha entretanto muita luz. O olho, d’um azul limpido, é humido e muito brilhante. - O olho do soberbo é, como sabem, secco e velado.

O dever de ser constantemente grave modificou-lhe um pouco as sombrancelhas. Os demais traços tendem á expansão. Sem frei Pedro e sem a corôa, elle seria um bom homem, alegre, jovial e resoluto.

- Não esqueçamos seu o “Quero já; no Eboli, em Nova-Friburgo, elle sapateia como simples mortal, e viajando longe da corte, é um perfeito tourista.

***

            Não, elle não é um tristonho, o Sr. D. Pedro Segundo. Nem um pensador.

            Elle proprio deve rir-se da physionomia que lhe dão em todos os retratos. Elle que possue completa a Science Universelle de Sorel: a physionomia; a metoscopia ou estudo da fronte, a chiromancia, que consulta as linhas da mão; a pedomanci, que consulta as linhas dos pés.

            S. M. é um pouco dado á magia, um pouco feiticeiro, como se diz.

Elle conhece o pentaculo da conjuração, o septenario dos talismans. Sabe que a pedra philosophal é quadrada em todos os sentidos, como a Jerusalém de São João, e fazer a differença entre oo mago a quem o diabo se dá e o feiticeiro que se dá ao diabo.

Na sua bibliotheca, deve haver um raio cheio de volumes de sciencias occultas, mysticismo e theurgia ou magia branca. - Uma bibliotheca de loucuras, uma livraria de feitiços, em que inda ninguem o disse sabio, mas que elle consulta a miudo - Não se é bom astronomo, sem ser um pouco astrologo.

ES. M. é muito astronomo!

***

Depois, ha nada mais jovialmente bisarro do que um personagem grave que faz rir!

Nada de Juno, portanto. Mas, ao contrario, tudo de - por e para - Venus.

J. Dast.

1883, ano VIII, n.344, p.3

A semana - Echos e fatos

Segunda-feira, 4 de junho. - N’esta pasmaceira fatigante da nossa vida artistica, que não nos dá senão maus retratos ou pessimas lithographias, é com um verdadeiro prazer que se vê surgir da galeria commum de commendadores benemeritos uma obra realmente artistica, verdadeiramente bella.

Ora eu acabo de saborear esse prazer, admirando na Academia de Bellas Artes a ultima obra, que Bernardelli acaba de enviar de Roma. Realmente, caras leitoras, é adoravel de belleza a Venus [Calipígia] do nosso artista. De pé, os braços erguidos, suspendendo a roupagem, deixa vêr uma garganta cheia, vigorosa, um collo que surge grandioso, as espaduas arredondadas e um corpo ondeando na graciosissima curva da cintura, e reelevando-se por fim na linha veluptuosa de um quadril encantadoramente rechunchudo.

As coxas são poderosas, as pernas fortes e dignas de sustentar o edificio desse corpo harmoniosamente elegante.

Mais mystica do que a de Milo, a sua fronte recorta-se sob dous bandós nem muito alta nem muito baixa, os olhos sob as suas arcadas não muito profundas, o nariz ligando-se á fronte por esse traço recto e puro, que é a linha da belleza; a bocca cavada nos angulos, e os labios levemente arcados dão perfeitamente a idéa do amor da mulher no que a sua belleza tem de mais sério, de mais elevado.

***

R.

1883, ano VIII, n.347, p.7 

Bellas Artes

O naufragio do Montserrat serviu de assumpto ao Sr. E. Rouede para um quadro de marinha bastante interessante; representa o patacho atirado á praia de encontro a uns rochedos, no dia seguinte ao do sinistro. Esse quadro foi feito d’après nature e tem por conseguinte o merito da exactidão.

Se as nossas companhias de seguros maritimos tivessem espirito, comprariam esse quadro e mandariam-n’o como lembrança ao ministerio da marinha para ser collocado no gabinete do ministro.

Talvez que assim, vendo esse triste exemplo da incuria dos governos passados, o actual ministro se lembre de mandar construir embarcações especiaes com todos os apparelhos precisos para salvarem os navios em perigo.

&

Perto desse quadro vimos tres retratos do Sr. Petit bastante parecidos.

Em casa do Clement, o incansavel Facchinetti expoz mais algumas paisagens em miniatura á oleo que não são nada inferiores ás que elle já tem exposto.

Também lá está o seu retrato de chapéo, pintado pelo Papf e com muito chic.

O Papf quando quer...

&

Parece que o publico do Rio de Janeiro não conhece senão a rua do Ouvidor...

- Que quer? Deu-lhe para alli. Ainda que você tivesse exposto em sua casa quadros originaes de Rembrandt, Rubens ou Van-Dyck, raros são os que viriam aqui ver a sua exposição.

- No emtanto deve-se concordar que tenho cousas que valem apena serem vistas.

- Concordo, mas...

&

Quem conversava commigo era um homem de altura regular, gordo, com olhos tão pequeninos que não se lhe vê a côr; são porém vivos; um nariz em feitio de batata a desafiar os telhados, bem plantado no meio de uma cara cheia, redonda, franca e de um colorido muito approximado entre a cenoura e a abóbora.

A côr do seu cabello, cortado quasi á escovinha, é a dos mesmos legumes acima, porém mettidos em sombra. Emfim um verdadeiro typo flamengo e digno de desafiar o pincel de Rembrandt.

Duplamente flamengo até, pois que tambem o é de nacionalidade, o que não asseveraria se se tratasse de algum queijo da mesma procedencia, apesar dos tratados de commercio para garantir as trade mark.

&

Os artistas e amadores desta côrte e arrabaldes verão logo, ao lerem estas linhas acima, que se trata do Dewilde, em cuja casa elle encontram tudo quanto precisam para os seus desenhos ou garatujas, pinturas ou borradelas.

O Dewilde é quasi collega; elle também pinta, porém é com pinceis grandes; e em logar de ser em téla, é geralmente em madeira ou em paredes; mas emfim pinta; não se póde dizer que elle seja estranho á arte. Pelo contrario, posso até garantir que elle é um grande propagador della. Por sua vontade, elle desejaria que metade da população do Rio de Janeiro pintasse e não toda, afim que a segunda metade comprasse os quadros da primeira.

Em sua casa reunem-se algumas celebridades artisticas nacionaes e estrangeiras, que vão á cata de qualquer novidade que apparece no mundo artistico-industrial europeu.

&

Ultimamente, Dewilde recebeu de Roma umas aquarellas do Henrique Bernardelli, que realmente são dignas de ver-se.

Tem além disso alguns quadros de mais ou menos valor, algumas paisagens do Grimm e um bellissimo quadro do Driendel um artista de primeira ordem, que achou mais conveniente aqui no Brazil deixar a pintura para encarregar-se das ornamentações de igrejas, A elle deve-se as bellas vidraças de côres com figuras de santos que ornam actualmente a igreja de S. Francisco de Paula, e que posso garantir nunca ter visto melhores na Europa.

As nossas irmandades, que tem gasto tanto dinheiro em igrejas com pessoas inhabilitadas, devem aproveitar tão boa occasião encarregando esse distincto artista de as completar com alguma cousa mais apropriada do que esses pezadissimos ornatos de madeira pintados de gesso.

&

Para voltarmos a conversa com o mestre Dewilde, acabei por dizer-lhe: Emquanto você morar na rua Sete de Setembro, não espere ver sua casa cheia de gente a asmirar a sua exposição. Mude-se quando puder para a rua da Vadiação.

- A rua da Vadiação!?

- Sim, rua da Vadiação ou Ouvidor é a mesma cousa.

X.

            1883, ano VIII, n. 348, p. 6.

            O retrato do meu amigo C...

            5492 quadros! 2725 esculpturas, innumeras plantas e desenhos de architectura, tal é o numero de objectos d’arte de que se compõe o salon de 1883 em Pariz.

            Muito se pinta lá pela Europa!

            Nós aqui tambem pintamos, mas não é quadros. -

            De vez em quando lá apparecem no Moncada ou no Clêment umas caricaturas á oleo que dizem ser retratos de gente. Ainda ha poucos dias vi o retrato de um conselheiro, ex-ministro, pintado por um pintor bahiano que parecia ter empregado, de preferencia ao oleo, o vatapá, ou o carurú. Nunca vi pintura tão horripilante! Se eu fosse chefe de policia mandava metter na cadeia tanto os retratistas quanto os retratados, para não andarem por ahi a dar-se ao desfructe e fazer passar esta população aos olhos dos estrangeiros como uns selvagens em materia de arte. Que o nosso povo não entende d’isso, não ha a menor duvida; mas tambem não é uma razão para levar a ousadia a ponto de fazer alarde d’essa ignorancia.

            Ultimamente foi visitar um amigo que não via ha bastante tempo.

            Entrei para a sala e emquanto o foram prevenir, estive a contemplar um retrato á oleo mettido em rica moldura e que me pareceu ser o do dono da casa.

            Era um dos taes que se costuma expór na rua do Ouvidor e que dão uma perfeita idéa do adiantamente artistico a que já me referi. Com effeito! pensei eu, suppunha que o meu amigo C..., pela conversa que tive algumas vezes com elle, em materia de pintura, tivesse algum gosto e não fosse capaz de se mandar caricaturisar a oleo d’esta maneira.

            Estava n’essas reflexões quando entra o meu amigo.

            Que agradavel sorpreza! Ha tanto tempo que não vinhas vêr-me. Vou mandar soltar uns fogue...

            Derepente vi na cara de C... uma mudança extraordinaria. Uma forte contrariedade se estampára por tal modo no seu rosto, que não pude deixar de perguntar-lhe: O que tens? Pareces estar contrariado!

            Pudéra! Se vejo que estiveste a olhar para aquella tremenda borracheira!

- Pois não é o teu retrato?

            - Era essa a intenção do borrador que o pintou e dos amigos que m’o offertaram, mas deves concordar que elle não passa de uma furiosa bota.

- Lá n’isso eu concordo plenamente.

- Pois então tu pensas que se eu tivesse de mandar fazer o meu retrato, eu o teria confiado aquelle sapateiro que ainda teve a coragem de assignar o seu nome embaixo.

- Não faço tão máo juizo sobre o teu gosto.

- Ainda bem! Comprehendes que tendo aqui quadros que me trouxe da Europa o Luis de Rezende, marinhas do De Martino, guaches do Pacheco e do Arsenio, eu não podia por vontade propia ter aquele horror dependurado no melhor logar da minha sala.

- Sim, na verdade... mas então por que o guardas?

-  Se m’o offereceram!...

E tu não sabes!... isto eu o digo a ti só: esse retrato tem-me causado até scenas muito desagradaveis entre mim e minha mulher. Ella já não é a mesma. Por qualquer cousa questionamos.

- Como?! Pois da ultima vez que eu estive aqui, tu e ela pareciam dous pombinhos!

É verdade! E no entanto desde que esse retrato está aqui, ella tem mudado completamente.

- Que diabo de influencia póde ter o retrato em tua paz domestica?

- Eu a explico do seguinte modo: De manhã eu sáio para os meus negocios e só volto á tarde. Ella vê-se todo o dia sózinha com aquelle mono...

- Olha que estás tratando do teu retrato.

- Mas se elle não se parece!

- Todavia a intenção do pintor e dos teus amigos...

- Que os leve o diabo! mas não me interrompas... ia dizendo que minha mulher á força de ver aquelle... monstro todos os dias, acabou por acostumar-se com a tal cara e achar que ella se parece commigo.

Ora, diga-me com franqueza: eu tenho uma cara aparvalhada como aquella?!

Isto nem se pergunta...

- Ainda hontem, a proposito de uma pulseira que ella vio em casa do Luiz; como eu não me mostrei enthusiasta e fiz ouvidos de mercador, ella disse que, pedir-me a mim ou ao meu retrato era exactamente a mesma cousa, tão parecidos eramos um com o outro. Imagina como eu não fiquei!!

- E tu subiste a serra por causa d’isso?

- Subi-a até o cume.

- Pois tu não vês que tua mulher faz jogo com o retrato... Queres ver como ela acha o retrato horrendo?

Compra-lhe a pulseira.

- Isso sei eu. Quando se tratou de tomar uma assignatura para o Excelsior, ella até mostrava-se indignada contra o pintor e os meus amigos.  Mas tu não sabes o que são as mulheres. De tres em tres dias ella achará o retrato horrivel e de tres em tres dias parecidissimo commigo.

- Tu acabarás por não fazer caso e acostumar-te a...

- Nunca!

- Então manda levar o tal retrato para a praia.

- Ah! se eu pudesse! Mas os amigos da manifestação - retrato visitão-me constantemente e se não o vissem mais na sala o que - diriam?!

- Então resigna-te.

- E que remedio!!!

X.

1883, ano VIII, n. 353, p. 2.

Chronicas Fluminenses

Rio, 31 de agosto.

O Sr. Jorge Mirandola Filho, engenheiro e architecto e hydraulico, que na semana finda comprimentou a S. M. o imperador, mandou-me um livro, que ninguem entende, mas que todos deviam ler.

É a representação e projecto de reforma geral da escola e academia imperial de bellas-artes do Rio de Janeiro, apresentados á assembléa geral legislativa, na primeira sessão da decima-nona legislatura.

O Sr. Jorge Mirandola, que é premiado pela mesma escola e mesma academia com as grandes medalhas de ouro, premiado em diversas exposições nacionaes e estrangeiras, membro correspondente da universidade de Santiago, do Chile, iniciador e fundador do congresso philantropico e sanitario e autor do projecto e planos de reorganisação physica e moral do proletariado no Brazil, tem ainda o grande merito de não ser comprehendido.

Reunimo-nos tres para decifrar o seu primeiro periodo, e nem no primeiro nem nos subsequentes nos foi possivel metter o dente.

A camara portanto não terá tambem comprehendido patavina do projecto de reforma do engenheiro hydraulico e civil, membro... etc., etc.

Mas tudo isso pouco importa.

***

O essencial é que os deputados, ou alguem mais serio do que os deputados pense seriamente n’aquella infeliz academia de bellas-artes.

Cada vez mais abandonada e mais esquecida, a nossa academia tem-se tornado cada vez mais esteril. As exposições provam o seu rapido regresso de anno a anno.

A sala de desenho de figura, da ultima exposição fazia rir. O modelo, que copiaram os alumnos em diversas attitudes, era um verdadeiro aleijão. Quasimodo não era mais horrivel.

Parecia pilheria, de tão burlesco quer era tudo aquillo.

Depois d’essa exhibição, a reforma mais necessaria seria mesmo, como observou alguem, a reforma do nome da academia em:

Academia das feias-artes!

***

Quando se tratou de augmentar, embora afeiando, o bello edificio de Grandjean, fallou-se em reforma igualmente do ensino.

Promettia-se então muita cousa: augmento de ordenados, creação de novas cadeiras, reorganisação do ensino - como nas escolas medica e polytechnica.

As obras de demolição tocam entretanto a seu termo, aquelle bello frontão vae em breve ficar acaçapado sob os telheiros do Sr. Paula Freitas, e nada das reformas promettidas e necessarias.

Não é meu fim fazer aqui uma propaganda da grande influencia das bellas-artes sobre a educação d’um povo, nem sobretudo, fazendo ao Sr. Mirandola a mais desleal concorrencia apresentar projectos de reforma da academia.

Mas porque não se mandará contractar professores habilitados na Europa, na França ou na Italia, para a nossa academia, como se mandou para outras escolas de ensino superior?

O grande mal, a maior causa de atrazo dos alumnos, é não ter mestres, que o guiem.

É desagradavel dize-lo; mas nós não temos professores habilitados das mais importantes cadeiras de pintura, esculptura e architectura.

O Sr. Grimm, óra aqui, e que graças á sua dedicação e bom methodo, está em vias talvez de nos preparar alguns bons paysagistas, não é professor da academia, mas simplesmente um amador apaixonado, emprestado á academia.

***

Não é falta de aptidões dos brazileiros, eu afirmo com grande satisfação.

Rodolpho Bernardelli na architectura (sic), Firmino Monteiro na pintura são recentes exemplos brilhantes que irromperam não da academia, mas apesar da academia.

Fora da academia mais d’um talento se tem manifestado.

Agora mesmo nos chega da Europa o Sr. Corrêa e Castro, brazileiro, que é um artista de grande e incontestavel merecimento.

Paysagista apaixonado e observador seguro, o Sr. Corrêa e Castro sabe vêr a natureza, surprendender-lhe as bellezas e reproduzi-la, verdadeira, atravez do seu temperamento de artista.

Fugindo ao chic, a sua obra apoiada sobre a observação, ao ar livre, é franca, o seu traço é largo; e nos seus quadros nada parece abandonado, nada elle deixa ao acaso.

Traz-no pittorescas paysagens da Italia e bellos recantos da França.

O que não nos dará elle do Brasil, quando tiver estudado essa excelsa natureza, rica, variadissima, cheia de encantos e surpresas para quem sabe observa-la. Que esplendidas paysagens! Que céos de turqueza, que florestas de violetas não vae elle traduzir da natureza para a téla!

***

E os nossos pintores na Europa?... O que faz o Sr. Pedro Americo? o homem dos grandes projectos.

Do Sr. Firmino Monteiro já se falou aqui na Revista Illustrada.

E o Sr. Victor Meirelles trabalha, eu sei.

Sem successo, é pena. Apesar de algumas apresentações especiaes, os salonistas de Paris não acharam digno da sua critica o quadro do nosso artista.

Nem uma menção, nem uma palavra com effeito da Batalha naval do Riachuelo, refeita entretanto.

Apenas o Evenement diz d’ela algumas palavras de acerba critica.

Uns estupidos decididamente aquelles criticos de Paris; mas, que esperem la, que C. de L. vae por força descasca-los todos, no proximo rodapé do Jornal do Commercio.

Professores portanto, que saibam desenho, eis o que é preciso para a academia.

Julio Dast.

1883, ano VIII, n. 357, p. 2.

Chronicas Fluminenses

***

Já viram como está criminosamente hediondo o edifio da Academia de bellas artes - depois da nova reforma?

É um verdadeiro aleijão que só vandalos podiam ter commettido!

O burgues telheiro do Dr. Paula Freitas eleva-se acima da bella fachada de Grandjean com essa presumpção soberana, que é a presumpção da ignorancia.

***

Que contraste entretando não vae em breve fazer com aquelle estropeão, o edificio ali perto em construcção do Gabinete portuguez de leitura.

Apenas em meio este, e já se lhe póde admirar o puro estylo manuelino.

Como deve ficar bello, magnifico, esplendido!

E o edifico do Gabinete portuguez de leitura é mandado fazer por uma associação estrangeira, particular, que não tem nem conselho de bellas-artes, nem professores de architectura no seu seio!

***

E já que fallo em bellas artes, não posso deixar de convidar a leitora á exposição dos trabalhos do Arsenio da Silva, no estabelecimento do Sr. Insley Pacheco.

Um verdadeiro artista, morto sem ter tido toda a admiração que merecia, sem ter occupado, entre os pintores, o lugar de honra a que seu talento lhe dava direito, eis a historia de Arsenio da Silva:

A nossa Academia de bellas-artes foi a mais injusta inimiga do habilissimo artista.

Injusta - ou invejosa, eu devia antes dizer.

Os peccos da Academia, fructos seccos que nada fazem, nada produzem, vêem sempre com maus olhos os que fazem alguma cousa e moveram a Arsenio uma guerra pequenina, que elle não soube todavia despresar.

Arsenio da Silva era entretanto um artista: ha nos seus trabalhos tanta delicadeza de tom quanta segurança de traço.

Tem n’essa exposição diversos quadros a oleo, alguns de grandes dimensões como o Jardim de Armida, mas é sobretudo nos seus trabalhos a gouache, que eu mais o admiro.

É n’estes realmente que elle realmente mais excelle em gosto e arte; é ahi, que o seu pincel se mostra riquissimo de tons, delicadissimo no desenho e admiravel de variedade; que melhor hão de salvar o seu nome do olvido.

Eu não cito nenhuma, seria preciso cetar quasi todas: vão ver.

***

Cabe aqui agora agradecer ao Sr. Insley Pacheco a idéa d’essa interessantissima exposição e o zelo com que elle a realisou.

É com effeito, graças ao seu amor pela arte e á sua admiração pelo finado artista, que nós podemos admirar, juntos, quasi todos os quadros de Arsenio.

Foi elle, que sem outra recompensa alem da homenagem á memoria do amigo, reuniu tantas bellezas, para nos mostrar - e de graça.

Julio Dast.

1883, ano VIII, n. 363, p. 3 e 6.

O quadro de Victor Meirelles

Quando pela primeira vez foi exposto o quadro, representando o combate naval do Riachuelo, em 1872, appareceu no Jornal Illustrado Mosquito um desenho com uma descripção humoristica, a qual encerrava a critica do mesmo quadro e que reproduzimos hoje n’esta folha tal qual foi publicada n’essa época.

Se o artista que pintou o combate naval do Riachuelo tomasse em consideração as criticas sensatas que lhe fizeram n’essa occasião, apontando-lhe os defeitos principaes do seu quadro, com certeza, tendo de reproduzil-o novamente, teria corrigido o que não prestava, dando-nos um quadro muito melhor do que o primeiro. Porém o Sr. Victor Meirelles acreditou ter feito um chefe de obra, julgava-se infallivel, superior a todos os pintores do mundo novo e velho e reproduziu exactamente.

Se elle tivesse a centesima parte do merito que os seus amigos lhe querem attribuir, com certeza não teria repintado as monstruosidades que se notam na sua téla, sobretudo depois de lh’as terem sido apontadas.

Já o facto de reproduzir exactamente a mesma composição, prova pobreza de imaginação. Todavia se n’essa composição elle tivesse procurado melhorar, - sempre ha que aperfeiçoar por melhor artista que se julgue -, teriamos tido provavelmente occasião de louval-o, o que para nós seria um motivo de verdadeiro prazer, sobretudo em questão de arte.

Sempre é desagradavel falar mal de alguma cousa, mas é que acima das considerações pessoaes, ha o dever a esse impõe-nos a obrigação de proseguir no caminho da critica, mas da critica justa, imparcial e honesta. O nosso fim, é melhorar o que deve ser melhorado.

Somos brandos ás vezes e implacaveis em outras. Em questão de bellas-artes temos sido indulgentes em geral com todos, pois comprehendendo que a arte entre nós ainda está na infancia, não podemos ter exigencias que seriam mal cabidas e até tolas; medimos então a nossa critica pela bitola do adiantamento relativo em que se acha o nosso paiz em materia de bellas-artes, e sempre temos palavras lisongeiras e animadoras para aquelles que são modestos, que trabalham e fazem o que pódem.

N’este caso porém, o Sr. Victor obriga-nos a sermos severos. Não procuremos por ora criticar o seu monstruoso chromo ou oleographia; limitamo-nos unicamente a protestar em nome dos conhecimentos artisticos do paiz que, apezar de serem pequenos, sempre vão progredindo, contra a ausadia de querer impôr-se como uma alta capacidade artistica, tão alta que fez com que se construisse um barracão palacio no largo de maior movimento do Rio de Janeiro, incommodando o transito publico e tudo isso para que? Para expôr a copia de um quadro já visto por nós, que fez fiasco no Salon de Paris, que passou completamente desapercebido, apezar de seu tamanho e que não serve senão para mostrar a archi-provada incapacidade artistica de seu autor em composições d’essa ordem e a sua enorme dóse de orgulho.

No entanto elle passa na opinião de seus admiradores por um artista excessivamente modesto! Pois não? Já estamos d’aqui vendo taes scenas de modestia:

Chega-se um amigo; e depois de ter olhado para o quadro sem entender patavina, aproxima-se do artista, dá-lhe um apertado abraço e exclama:

- Tu és o genio da pintura, Victor!

Victor! Tu és o primeiro pintor do mundo!

Victor! Tu és uma gloria nacional!

- Isso é bondade sua, responde o tal genio todo derretido.

E é assim que elle criou uma reputação de modestia!

Que vá alguem fazer-lhe amigavelmente a menor observação, notar-lhe o mais insignificante defeito e verá como elle pula, como se torne insolente! Se elle fosse realmente modesto, passaria o dia inteiro a contemplar o seu quadro de binoculo em punho?

Haverá prova maior de orgulho do que ter repetido o quadro com todos os defeitos?

E para que expol-o antes de esperar a exposição da Academia de Bellas-Artes que deve effectuar-se brevemente?

O Sr. Victor julgará por acaso a Academia pouco digna de receber o seu quadro? É possivel, já que não achou nem os professores da mesma, seus colegas, nem os seus alumnos merecedores sequer de uma simples attenção, representada pro um convite no dia da abertura da exposição!

Se bem que esta esteja a cargo da Santa Casa da Misericordia, com certeza esta não se teria negado a consentir que o Sr. Victor, professor da Academia, convidasse aos seus discipulos e collegas.

Emfim, n’esta questão de delicadezas entre professores da Academia não nos mettemos. Elles são brancos, lá se entendem.

O que só quizemos tornar saliente é, que por causa das glorias nacionaes feitas de encommenda por alguns amigos, não queremos vêr sacrificada nem a verdadeira arte nem o criterio.

X.

1883, ano VIII, n.365, p. 7

Exposição de Quadros

Acham-se expostas em casa do Sr. L. de Wide na rua Sete de Setembro n. 102 as lindas paysagens dos Srs. Caron e Vasquez, discipulos do Sr. Grimm.

É com o maior prazer que convido as pessoas que julgam ter algum gosto, a se darem ao incommodo de ir até essa rua. Terão assim uma idéa do que é paysagem. São simples estudos, e mettidos em molduras que não são molduras; mas são estudos que valem mais do que todas as borracheiras, que o publico costuma ver expostas em certas casas da rua do Ouvidor e mettidas em ricas molduras.

Para poderem vender estas, é que sem o menor escrupulo, apresentam aos olhos dos estrangeiros e dos nacionaes, que têm algum gosto, esses especimens da maior audacia a oleo ou a crayon que a mais profunda ignorancia pôde engendrar.

São verdadeiros attentados para os quaes infelizmente do codigo não tem penas: attentados maiores do que aquelles que atacam a propriedade alheia: pois emquanto estes apenas prejudicam e incommodam um individuo, os taes attentados a oleo, mettidos em moldura, attacam a nossa civilisação e prejudicam o nosso gosto.

Infelizmente, como já se disse, não ha penas! Não ha cadeia para esses estragadores de tintas e borradores de télas! Não ha castigos para esses corsarios, carbonarios e intrujões da arte!

Todavia parece-nos que o Sr. ministro do imperio bem podia nomear uma commissão de hygiene, composta de bons artistas, que mande retirar da rua mais frequentada do Rio de Janeiro essas pestes que infectam o nosso gosto, e mandal-as para a Cidade Nova ou Sacco do Alferes, escolhendo ainda assim ruas menos frequentadas.

Creiam o Sr. Maciel que prestaria um bom serviço.

X.

P.7

Combate Naval do Riachuelo

Continúa o Sr. Victor Meirelles em extase diante do seu quadro, verdadeira maravilha de tons amarellos, encarnados e outros cuja côr não ousamos qualificar, mas que os que virem o quadro conhecerão logo.

Dizem alguns amigos do illustre pintor e gloria nacional d’este imperio, que elle já tratou de mandar vir o almoço e jantar no barracão, assim como uma cama para de noite dormir e sonhar mais a vontade, junto d’esse chefe de obra, o mais importante de toda esta metade d’America.

Consta tambem que elle tem mais dois binoculos.

Sem assinatura. 

1884, ano IX, n.370, p.6

Echos e Factos

***

Aos amadores de boas pinturas.

Acham-se expostas em casa do Sr. De Wilde á rua Sete de Setembro umas bellissimas aquarellas feitas pelo Sr. Grimm, quando este habil artista esteve em Roma.

***

R.

1884, ano IX, n.371, p.3

Echos e Factos

***

            Chegou de Paris, onde foi passear e ao mesmo tempo aprefeiçoar-se na arte em que elle já é tão eximio, o nosso pintor Firmino Monteiro.

Durante o tempo que esteve na cidade das artes, o autor da Fundação da cidade do Rio de Janeiro, nem ficou ocioso nem se esqueceu das cousas patrias, pintou, como já tivemos occasião de dizer aqui, dois quadros historios um dos quaes esteve exposto no salão de Paris o anno passado.

***

R.

1884, ano IX, n. 374, p.6

Bellas Artes

Nada conheço mais difficil do que dar uma opinião franca sobre qualquer obra d’arte.

Dizer o que se pensa, o que se sabe, o que se vê; notar esta ou aquella incorecção, descuido ou defeito: louvar o que é bom e apontar o que não é, são cousas que não se podem fazer entre nós.

E porque? Porque infelizmente nunca ou quasi nunca se fazem criticas sensatas e conscienciosas; porque poucos entendem e muitos escrevem sem nada entenderem. Não posso explicar d’outro modo certos louvores immerecidos que leio ás vezes nos jornaes, acerca de verdadeiros disparates expostos em algumas casas da rua do Ouvidor, e uma completa indifferença quando se trata de trabalhos que tem algum merito.

Ora, como em geral o nosso publico não tem a menor intuição do que é arte, facilmente deixa se illudir pelo que lê no jornaes, onde elle suppõe haver pessoas habilitadas para emittirem uma opinião.

A vista disso, tomei por habito abster-me o mais possivel de dar a minha; não que eu me julgue no caso dos mais collegas; isto seria o cumulo da mais falsa modestia e não tenho por habito fallar contra a minha cosnciencia. N’este caso eu direi: Chacun à sa  place. E eu tomo o primeiro lugar. Se me abstenho pois de fazer critica como elle dave ser feita, é unicamente porque esta não seria comprehendida pela maioria do publico que julgaria logo, por causa de algum defeito por mim apontado, o artista sem merito e o seu quadro sem valor.

O nosso publico tão acostumado a ver comparar-se os artistas nacionaes com as maiores celebridades estrangeiras, antigas e modernas... Por exemplo: Na occasião da abertura do barracão do largo S. Francisco, o Sr. de Cotegipe, no seu discurso de inauguração, comparou o Sr. Victor Meirelles ao Horace Vernet.

Ora, o Victor Meirelles é um pintor de merito, não ha duvida alguma, e entre os artistas brasileiros elle occupa um distincto lugar; mas comparal-o ao Horace Vernet!

Só um barão de Cotegipe que, em materia de arte, entende tato como eu entendo de fazer missa.

E quantos não ha, que para mostrarem os seus conhecimentos artisticos, citam os nomes de Raphael, Miguel-Ângelo, Ticiano, Gerome, Cabanel e outros, a proposito de qualquer borracheira exposta, se esta é feita pro qualquer amigo ou recommendado!?

É por todas essas razões que nada escrevi sobre a exposição dos quadros do Sr. Spaini, que manifestou-me o desejo de ouvir a minha opinião.

Pela mesma razão, nada direi acerca da Francesca de Rimini de Aurelio de Figueiredo e de todos os quadros que ornam o seu atelier e mostram quanto esse joven artista se dedica de corpo e alma á pintura.

Senti-me satisfeito entretanto de achar-me n’um atelier, rodeado de trabalhos de arte, retratos, paysagens, quadros de genero, historicos, e outros objectos artisticos.

Não me parecia estar no Rio de Janeiro, onde só se entra em lojas, botequins e confeitarias, fallando-se em plitica ou da vida alheia e reodados de empadas e mães-bentas ou cortes de casimira em lojas de alfaiates que, emquanto cortam as calças dos freguezes, estes cortam a pelle dos que passam e com lingoa mais afiada ainda do que as tesouras dos nossos Renards e Dusautois.

Em lugar, pois, de fazer uma critica sobre o importante quadro da Francesca de Rimini, eu darei simplesmente um conselho ao seu autor.

Vá para a Europa; para a Italia, onde todos os artistas, se reunem; onde a arte é comprehendida; onde não se barateiam nem quadros, nem retratos, quando o artista tem merito; onde não se exige que se pintem caras sem sombra e onde afinal um critico de bellas-artes póde escrever sem receio de prejudicar os artistas na opinião do publico, nem passar por pessimista.

X. 

1884, ano IX, n.380, p.7

Pequeno Correio

O nosso pintor Firmino Monteiro, de quem esta folha mais d’uma vez tem fallado, faz por estes dias uma exposição, dos seus trabalhos feitos em Pariz. É no salão do Sr. Insley Pacheco, a rua do Ouvidor, 102, que o publico terá de admira-los.

Vão ver, e depois conversaremos.

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Rolando

1884, ano IX, n.390, p.3

Salão de 1884

Não começarei como o illustrador folhetinista do Brazil que, acerca da actual exposição de quadros e outros objectos de arte mais ou menos bellas, entendeu dever tratar dos tempos coloniaes, do conde da Barca, do Marquez de Marialva e outros personagens, que serão muito boas pessoas sem duvida, mas que, não tendo exposto cousa alguma, pouco ou nenhum interesse merecem aos olhos do publico e dos expositores, ávidos de saber o que pensa a imprensa sobre as diversas obras d’arte, que se acham dependuradas nos novos salões da Imperial Academia das Bellas-Artes.

O illustrado collega do Brazil foi para a Academia e parou em frente no magestoso frontispicio, architectonicamente admirado diante das bellas columnas que ornam a entrada principal.

So isto dá um folhetim, pensou elle, e voltou sem ter visto cousa alguma da exposição.

D’ahi, grande decepção entre os leitores, que chamaram os primeiros folhetins de caceteação historica.

A razão é, que estes, em lugar de pararem em frente ao edificio, foram logo entrando, sequiosos de ver o que se pinta n’esta terra e para esta terra.

É que na exposição ha quadros e estatuas executados uns aqui, e outros no estrangeiro, por artistas brasileiros que lá se acham estudando.

Figuram pois, na exposição, trabalhos de Rodolpho Bernardelli e Henrique Bernardelli, Amoedo, Almeida Junior e Pedro Americo: mas este é mestre e já não estuda. Tem-n’o perfeitamente provado com a remessa de onze quadros, dos quaes só tres são regularmente pintados.

Começaremos por tratar dos mestres Pedro Americo de Figueiredo e Victor Meirelles de Lima. A tout seigneur tout honeur.

Seremos, talvez severos, porem sempre justos n’esta critica, onde o amor a verdadeira arte estará acima de tudo.

A experiencia tem provado que os grandes louvores não tem tido outro resultado senão estragar verdadeiras vocações. Não seremos nós que começaremos a estragar algumas que se revelam entre os pensionistas da Academia, que actualmente estão na Europa, apezar de ter-nos bastante agradado os quadros que de lá enviaram. Nem esperavamos tanto.

Duas grandes victimas de louvores immerecidos são justamente os dois principaes professores da nossa Academia, considerados genios pelos seus amigos e admirados. Estes, entendem tanto de arte como nós entendemos de hebraico, mas nem por isso deixaram de incensal-os e cantal-os em prosa e em verso.

O resultado foi uma tremenda decepção, pois que hoje muitos já reconhecem que os dois genios não passam, perante a verdadeira arte, senão de duas mediocridades.

Eles pararam quando deviam ainda estudar e estudar sempre.

Mas pouco a pouco o gosto vae-se desenvolvendo entre nós e os admiradores dos dois mestres já vão esfriando o seu enthusiasmo.

Começaremos pelo Sr. Pedro Americo, professor de esthetica, pintura historica e archeologia.

Professor de esthetica! É justamente o que ele não conhece. Tanto na Batalha de Avahy, como nos quadros que se acham no salão, não se descobre o menor conhecimento dessa sciencia da arte.

Conhece a theoria e estamos convencido de que elle é capaz de fazer uma excellente prelecção sobre esthetica, porem, sentil-a e applical-a, nunca.

A sua reproducção da Carioca é simplesmente um desastre!

Se censuramos o Victor Meirelles de ter reproduzido o seu Combate do Riachuelo, sem corrigil-o dos erros que se notaram no primeiro quadro, muito mais digno de censura é o Sr. Pedro Americo que entendeu naturalmente que a sua Carioca era o nec plus ultra da perfeição!

Corrigir um quadro, como o do Riachuelo, era uma tarefa que apresentava innumeras difficuldades, excessivo trabalho e prazo bastante longo; e nem sempre o artista tem meios para fazer o que deseja. Porém, corrigir a Carioca, uma simples figura, e em que o artista tem plena liberdade de execução, sem ser obrigado a cingir-se ao realismo a que um quadro historico obriga, não devia ser uma grande difficuldade para quem se julga um genio.

O seu quadro A Noite, prova bastante quanto elle desconhece a esthetica. Não só esta completamente sacrificada, como tambem as proprias regras do claro-escuro, que o Sr. Pedro Americo ignora completamente.

Não conhecer a acção da luz sobre os corpos, realmente é imperdoável.

Essa allegoria representa uma mulher. Está, pois, a noite personificada n’um corpo humano.

A sua posição é elegante, o rosto sympathico, os seus braços bem abertos e correctamente desenhados.

Um véo, que seria de melhor gosto e mais esthetico não ser bordado envolve o corpo, desde acima da cintura e cobre quasi as pernas, vendo-se apenas a parte inferior destas a descoberto, assim como os pes, que infelizmente têm o dedo pollegar por demais aberto.

De cada lado desta figura vê-se duas crianças, representando os genios do Amor e do Estudo.

A posição destas é tudo quanto ha de anti-esthetico, commam e estaparfudio, sobretudo a do Amor que está a disparar uma de suas settas, apoiado na perna esquerda e esta sobre o véo, que deixa assim de ser um corpo flexivel para tornar-se solido.

O facho do hymeneu, que se vê dependurado sob a barriga do amor está accesso, mas nem por isso queima a barriga do Cupido, nem o véo que decididamente é de ferro.

Que é de ferro, não ha a menor duvida, pois que o outro pequeno atracado a um pesado livro, apoia-se com toda a franqueza sobre o dito véo.

Embaixo, ao lado direito, vê-se uma coruja voando.

A figura da Noite tem na mão esquerda uma taça cheia de estrellas, que ella vae semeando pelo espaço com a mão direita.

Está pois o grupo no firmamento, n’aquelle espaço sem fim, a milhões de leguas da Terra. N’essas alturas, o Dr. Pedro Americo não ignora que não ha a menor atmosphera, e portanto é impossivel o tal véo ter ondulações, nem tão pouco a coruja voar.

Se esta ficasse presa nas dobras do véo e este cahisse verticalmente, a composição tornar-se-hia mais esthetica e sobretudo mais scientifica.

Só se poderia passar um pouco a perna á sciencia em relação ao fogo dos fachos, por causa do effeito de luz de que o quadro necessita. Infelizmente o pintor entendeu sacrificar inteiramente essa composição, não observando a menor regra do claro-escuro. Pode-se perdoar tudo, menos um erro d’estes, que desacredita completamente um artista e o coloca abaixo da mediocridade.

É possivel que o Sr. Pedro Americo, a quem não se póde negar intelligencia, tenha dado occasião a tão grosseira falta de bom senso!

É possível que elle não comprehenda que, tendo um foco de estrellas do lado esquerdo, estas devem projectar toda a luz sobre a parte esquerda da figura?

Não comprehende então que para se ter luz é preciso sombras e fortes, e que a estrella da mão direita apenas deveria servir para attenuar um pouco a força d’estas?

Não comprehendeu o Sr. Pedro Americo o magnifico partido que poderia tirar da sua composição, com o jogo de duas luzes, uma fria, meio azulada e viva como a das estrellas, outra quente e vigorosa como a do fogo, que illuminaria com reflexos avermelhados os lugares sombrios e oppostos á outra luz!

Se o Sr. Pedro Americo não comprehendeu o que qualquer comprehenderia, sem ser pintor; se entendeu dever pintar aquellas figuras com uma luz que elle mesmo não é capaz de explicar; se emfim, entende que a arte consiste só em pôr tintas a torto e a direito n’uma tela, sacrificando a esthetica e até o bom senso, o melhor é quebrar os pinceis e atirar a palheta pela janella fóra.

Se todavia, o Pedro Americo reconhecer que errou; se procurar corrigir os defeitos que lhe apontamos e nos quaes nunca deveria ter cahido, se emfim ele tiver alma de artista e quizer que o seu nome seja considerado como o de um homem de talento e consciencioso, deixe a vaidade e o orgulho de parte, e pense no futuro.

É preciso que d’aqui a cincoenta ou cem annos, quando os nossos nettos olharem para os quadros de Pedro Americo ou de qualquer genio da actualidade... eles não se ponham a rir.

(continua).

X.

1884, ano IX, n.391, p.3

Salão de 1884 - II

A Rabequista arabe, o Estudo de perfil e a Menina em costume de 1600, são os melhores quadros de Pedro Americo.

No primeiro, o que nos parece ser de muito bom gosto, são aquellas côres vivas e brilhantes que rodeiam parte da cabeça da rabequista.

O segundo tambem está conscienciosamente pintado. É o retrato de uma gentil menina, de olhos grandes e bonitos, e que parece ter uma excellente qualidade para um pintor; é ser bom modelo.

O terceiro, mais importante como trabalho, representa uma menina em pé e de tamanho natural - elegantemente vestida e de porte ainda mais elegante.

O desenho d’este é correcto, a côr harmoniosa e todos os accessorios que completam o quadro, arranjados com gosto e pintados com muito esmero:

Por ahi se vê que o Sr. Pedro Americo, quando se limita aos assumptos simples e que os estuda conscienciosamente do natural, sahe-se galhardamente d’elles e consegue produzir excellente impressão.

Não diremos isto em absoluto, porque infelizmente elle abrio uma excepção com o soi-disant retrato de D. Catharina de Athayde.

Não conhecendo D. Catharina, não podemos julgar se o retrato está ou não parecido. É possivel ainda que, algum dia, tenhamos a ventura de a encontrar -  Não se espantem! N’esta época de espiritismo não seria para admirar - então daremos o nosso parecer quanto á semelhança. Por ora, limitamo-nos a declarar que a cara é bem sympathica, diremos até bonita.

Porém... Ahi é que o Sr. Pedro Americo foi cruel!

D. Catharina não tinha ou não tem, com certeza, um pescoço tão esticado!

Nem tão pouco uns braços tão compridos! E que mãos!

E que fim levariam os hombros?!

Parece-nos que, com uma dama tão distincta como é D. Catarina de Atahyde, o Sr. Pedro Americo deveria ter sido mais gentil, cortez e correcto no desenho do corpo.

Quanto a cortina, fundo e accessorios d’este quadro, não podemos deixar de achal-os admiravelmente bem pintados.

O mesmo diremos acerca do retrato de D. João IV. Excellente execução nos accessorios, mas pessima carnação no joven principe. Que côr de pernas! Teria elle brotoeja!

E a carnação da Mater Dolorosa! Com aquelle manto azul! E aquelles olhos!

É extraordinaria a predilecção que tem o Sr. Pedro Americo pelos olhos abertos, escancarados e espantados!

Tanto na sua Mater Dolorosa como nos quadros historicos intitulados Joanna d’Arc, Davi e Abisaig e Judith, não se vê senão olhos a quererem saltar fóra das cabeças e outros, que não cabem nestas, como por exemplo: os de Abisaig, aquecendo Davi, que chegam até as orelhas.

Dos olhos deste velho freicheiro, não são os de uma pessoa que está se esquentando, parecem antes os de um louco furioso, ou os de um sujeito espantado de ver a seu lado, não uma mulher, viva e seductora que vem a acaricial-o e esquental-o - como diz o catalogo - mas sim uma mulher sem graça nenhuma com uma côr de pelle horrenda, uma cara estupida e uns olhos que nunca mais se acabam.

Não nos demoraremos em analysar este quadro, cuja composição estapafurdia, mostra perfeitamente que o seu autor não está na altura de assumptos desta ordem.

A Joanna d’Arc está no mesmo caso. Aquelle olhar exprime simplesmente espanto e nada mais. Aquelle jacá, puramente brasileiro e sobre o qual se vêm collocadas pesadas tampas de madeira e sobre estas ainda uma moringa ou vaso de cobre, dão uma perfeita idéa, não só dos conhecimentos archeologicos do autor, mas tambem dos scientificos, pois que elle entendeu que uma materia fragil póde suportar sobre sí outras muito mais pesadas.

Ha outras bellezas archeologicas como por exemplo um vaso vidrado e outras cousitas que não valle a pena mencionar.

O arranjo do quadro, ou antes O mise-en-scène não deixa de ter sua graça. O effeito é exactamente o de um theatrinho. De cada lado vêm-se bastidores e bambolinas em cima. Só falta a caixa do ponto no primeiro plano.

Agora vamos tratar de outro quadro do Sr. Pedro Americo e por ahi teremos uma perfeita idéa do grande talento que elle tem revelado como pintor historico.

A pintura historica não póde ser considerada senão como realista.

A poesia, o idealismo e a phantasia devem ceder o passo á verdade do facto que o artista reproduz, empregando essas tres cousas, apenas como meio de embellesar a composição, mas nunca de modo a sahir fóra da verdade do assumpto, sacrificando a realidade á fantasia, sob pena de cahir em grave erro.

Na Judith do Sr. Pedro Americo tudo é sacrificado, até o proprio criterio!

Não é preciso ser artista para comprehender que aquella mulher, depois de passar a noite na tenda de Holophernes a espera que este adormecesse, não perderia seu tempo a enfeitar-se, antes ou depois de ter executado o seu projecto que consistia em cortar a cabeça do terrivel guerreiro.

Ora, cortar a cabeça a um typo desses, não é a mesma cousa de que cortal-a a um frango.

Não direi que Holophernes protestasse na occasião, mas, com certeza, o corpo não ficou immovel quando Judith cortou-lhe o pescoço. Uma operação dessas, por mais habil que seja o operador, não se faz em um segundo, e Judith não ficou repentinamente transformada em guilhotina.

Holophernes era de carne e osso; por consequencia tinha sangue e este, sahindo simultaneamente do corpo e da cabeça, devia durante a operação, e depois desta, espirrar com força, correr abundamente e salpicar tudo em redor de si.

Imaginamos então ver Judith sair da tenda com as feições alteradas, pallida, os cabellos em desordem assim como as vestes, e toda ensaguentada.

Parece-nos que assim devia estar Judith e é d’este modo que o Sr. Pedro Americo a deveria ter apresentada no seu quadro.

Infelizmente não é assim que a vimos. Calma e placida, sem a menor pinta de sangue e com as vestes muito direitinhas, assim como o penteado e todos os enfeites que a adornam, Judith não parece que acabou de cortar a cabeça de Holophernes, mas sim, que se prepara a cortal-a; por isso, levantando os braços ao céo, parece pedir a Jehovah que a auxilie em tão arriscada empreza.

Este é que deve ser o verdadeiro assumpto do quadro pela maneira como ele foi tratado. E para isso o Sr. Pedro Americo não tem outra cousa a fazer senão tirar a cabeça, o facão e... e mais nada.

Aceite este conselho Sr. Dr. Pedro Americo e o seu quadro muito lucrará em relação á esthetica, á verdade e até ao bom-senso.

O Sr. Victor Meirelles de Lima, professor de pintura historica na Academia de Bellas-Artes, apresentou n’este salão tres trabalhos que não são novidades para o publico, visto que já os conhece de ha muito tempo, por terem já sido expostos.

Dois d’estes, são simples estudos de cabeça, que nada tem de extraordinario a não ser o colorido falso e convencional adotado pelo Sr. Victor e que faz suppôr que são dois chromos.

O outro é o celebre Combate do Riachuelo de gloriosa e barraconica memoria, que valeu ao seu autor o titulo de rival de Horacio Vernet, conferido pelo Exm. Sr. barão de Cotegipe, uma alta capacidade artistica.

N’essa occasião, o nosso Horacio Vernet responde que: ...Voltára da Europa, por lembrar-se que a patria ainda podia precisar dos seus serviços.

Parece que a patria não precisou de nenhum, pois que até agora, a respeito de mais quadros, e mais serviços estamos a vêr navios - os de Riachuelo, bem entendido.

Não faremos simplesmente a critica ao quadro do Riachuelo, ou antes, a esse serviço a oleo prestado á patria, mas sim do systema de pintura adoptada pelo Sr. Victor em todos os seus trabalhos.

O todo d’esse combate naval não nos desagrada; a sua composição não é mal comprehendida e no seu ensemble, ha bastante harmonia e effeito.

Ja tudo isto é uma cousa enorme, para um assumpto tão difficil como esse. O colorido é brilhante e o tom quente da luz, bem comprehendido em razão da hora - tres da tarde.

Porém ha tanta luz n’esse quadro, mas tanta, que elle chega a produzir-nos a impressão de um dia de mormaço. Involuntariamente, quando olhamos para elle, procuramos abrir o nosso chapéo de sol.

(continua).

X.

1884, ano IX, n.392, p.3 e 6

Salão de 1884 - III

            Como já dissemos, o Combate do Riachuelo não nos desagrada quanto á composição. Esta é simples mas não foge do natural. A posição do Amazonas está bem em relação á do vapor paraguayo.

No quadro ha espaço e horisonte.

É todavia para sentir que o auctor não tenha aproveitado a fumaça da artilharia e dos vapores para projectar sombras em alguns pontos de seu quadro, sobretudo no convéz do vapor paraguayo.

As figuras que se vêm n’este, destacariam muito melhor ainda, ou em luz sobre a sombra ou em sombra contra a luz, como se vê na Batalha dos Guararapes, no grupo do tambor, o que produz excellente effeito.

Não é tanto pelo facto de destacar as figuras; não é por ahi que estas peccam; é pelo effeito da luz que seria muito melhor, tornando-se esta muito mais intensa pela proximidade das sombras.

Quem tiver a menor noção de pintura, numca poderá gostar do systema de pintar do Sr. Victor Meirelles, sobretudo quando este artista tiver de executar telas grandes. Tudo é lambido, tudo é escovado. Não se sente a tinta, parece haver desejo de poupal-a.

Não se nota uma pincelada dada com vigor, com energia: tanto a carnação como as roupagens, a madeira, o ferro, o céo, o terreno, as pedras, ou as folhas, tudo é pintado do mesmo modo. Tudo aquillo é muito bonitinho, mas não é natural.

Quanto á côr, é a mesma cousa; não é o colorido que a natureza nos mostra, é uma côr inventada pelo Sr. Victor Meirelles e que serve para todos os seus quadros. Ella não deixa de ser harmoniosa, é verdade, e até certo ponto mostra que o Sr. Victor é colorista, e nem a todos é dado sel-o.

Infelizmente a sua côr é falsa e nada tem de natural. E como a base d’ella é o amarello, o rôxo e o encarnado, em todas as suas variantes, quando tem de empregar uma côr opposta, o azul-escuro ou preto, por exemplo, este grita: aqui d’El-rei! Como acontece com as calças do marinheiro brasileiro cahido sobre a caixa da roda do navio paraguayo.

É a unica côr que parece ter vigor no primeiro plano do quadro.

Se collocarem este a quinhentos metros de distancia do espectador, ninguem distinguirá mais nada do que está pintado, porem as calças lá estarão perfeitamente visíveis, protestando contra as outras côres que a deixam só.

Onde, porém, o Sr. Victor mostra a sua fraqueza, é no desenho, e sobretudo na perspectiva das figuras.

Tanto faz para elle, que estas estejam no primeiro, segundo ou terceiro plano: todas são desenhadas do mesmo tamanho e pintadas com o mesmo vigor.

Ignorancia, pois, da perspectiva linear e aerea.

O velho paraguayo, que vem correndo para o espectador é do mesmo tamanho, senão menor, do que um outro collocado mais longe alguns metros, e cuja posição da perna estendida, é algum tanto exquisita. Ninguem até hoje, soube dizer se aquella perna é a direita ou a esquerda.

Ha quem assevere que essa figura só tem uma perna.

As outras que seguem e que continuam a ser do mesmo tamanho da do primeiro plano, apezar de estarem a 10 ou 15 mettros de distancia, rodeiam uma peça de artilharia, sobre a qual se acham debruçados.

Se estas figuras se levantassem, a peça com a carreta mal lhe chegaria a altura dos joelhos: se esses mesmos gigantes, se lembrassem de deitar-se sobre o convéz, a cabeça e os pés quasi tocariam a bombordo e a estibordo do vapor.

Ou este é uma lancha, ou então as taes figuras são uns gigantes de tres metros, pelo menos de altura!

Esse phenomeno de perspectiva, ás avessas, não se dá somente no convez do navio paraguayo; dá-se tambem a bordo do Amazonas.

Este navio é visto quasi de frente. A distancia que ha entre a prôa e o passadiço collocado no centro do vapor, é bastante grande: uns vinte metros pelo menos.

Pois bem, o Sr. Victor Meirelles, achou que esse negocio de distancias é uma conversa, e a perspectiva uma tolice.

Um heroe, como o Barão do Amazonas - então chefe Barroso, não podia estar sujeito ás leis da perspectiva, que reduziriam o seu tamanho pela distancia, mas sim, áquellas que o Sr. Victor Meirelles entendesse dever lhe dar.

O barão está no passadiço e com elle tres officiaes. Não importa, - disse o Sr. Victor - barão, passadiço e officiaes que venham para frente, e zás! com algumas pinceladas cheias de tinta e de patriotismo, o heroe do combate do Riachuelo e os tres officiaes que parecem figurinos de alfaiates, foram pintados na mesma proporção, senão maior de que a tripolação collocada na prôa do Amazonas!

Esse tour de force, só de um Victor Meirelles!

Pintar o barão do Amazonas com proporções gigantescas, só porque ouvio dizer que esse illustre chefe tornára-se grande no combate do Riachuelo, na verdade... c’est trop fort!

Não fallaremos das incorrecções de desenho e de uma grande quantidade de cousas estapafurdias que lá se acham pintadas e que provam que o Sr. Victor não nasceu para genio como julgam seus os admiradores.

Do que fallaremos sómente, é da sua pouca consciencia como artista, visto ter tido a coragem de reproduzir os mesmos e gravissimos defeitos que apontados por pessoas competentes e que têm mais amor á arte do que elle.

Ha só uma explicação a esse proceder anti-artistico do Sr. Victor Meirelles. É o seu immenso orgulho!

Pois não tem de que.

Esta critica feita aos dois mais afamados professores da nossa Academia não tem por fim querer molestal-os, como elles podem pensar.

Fomos francos e severos, mas tambem fomos justos.

Temos notado nos seus trabalhos o que é bom e censurado o que não presta. Esta nossa franqueza, sabemos perfeitamente, não agradará nem a elles nem aos seus amigos. Pouco nos importa com isso. O nosso fim é dizer a verdade; e o que foi expendido nestas columnas acerca dos defeitos de ambos os mestres, póde ser verificado por quem quizer ir á exposição e olhar com attenção para os trabalhos criticados.

Se os Srs. Victor Meirelles e Pedro Americo se limitassem a fazer quadros na altura de suas forças, teriam occasião certamente de brilhar, pois que não contestamos que elles tenham bastante talento. Mas querer atirar-se a assumptos que só pódem ser tratados por grandes artistas... é... não se conhecer si mesmo.

A tout seigneur tout honneur, dissemos no começo desta critica do salão: por isso nos estendemos mais sobre os dois laureados mestres da nossa Imperial Academia das Bellas-Artes.

São capazes de não agradecer essa attenção.

Paciencia... Ha tantos ingratos neste mundo!

O Sr. José Ferraz de Almeida Junior e Rodolpho Amoedo são os que maior sensação tem causado n’esta exposição.

Ex-alumnos e pensionistas da Academia foram para a Europa estudar o que esta não lhes podia ensinar; e pelos quadros que mandaram, vê-se que elles não perderam o seu tempo.

Estudaram bastante estudaram muito até em razão do pouco tempo que lá estiveram. Por isso não se póde deixar de admirar os seus grandes progressos.

O Rodolpho Amoedo ainda está na Europa, tendo conseguido do governo mais dois annos de prazo, para executar um quadro cujo esboço enviou para a actual exposição.

O Almeida Junior já voltou ha um anno e trouxe comsigo varios quadros, dos quaes, quatro figuram no nosso salão. São estes: o Remorso de Judas, boa tela pintada com vigor e sentimento. O derrubador brasileiro, insignificante como composição porem bem executado. O descanso do modelo, um quadro interessantissimo pelo assumpto e pela excellente execução.

Esse foi exposto no salão em Paris e apezar de haver lá uns tres a quatro mil quadros, conseguio chamar a attenção do publico e teve as honras da reproducção em photogravura.

Não menos digno de louvor é a Fugida para o Egypto, tão mal collocado na exposição da Academia. A falta de inclinação, dá a esse quadro um reflexo, proveniente da clarabóia, que não deixa ver quasi a cara da Virgem e a de S. José, e que no emtanto, são pintadas com muito sentimento.

Houve um descuido bastante sensivel na execução da agua. As patas do animal deveriam agital-a e ella está tranquilla.

O Sr. Rodolpho Amoedo, muito tem concorrido em abrilhantar esta exposição com os seus trabalhos. Alguns d’estes também foram expostos no salão em Paris. São quatorze telas entre grandes e pequenas, constando de estudos, composições e duas cópias. Só uma d’estas telas não presta: é um estudo de cabeça de um menino napolitano. As outras, apezar de terem alguns senões, possuem qualidades que muito as recommendam. Entre estas, destaca-se o Ultimo Tamoyo. Não gostamos muito do modo como foi executado o frade, nem tão pouco da perna esquerda do indio. Quanto ao mais nada temos a dizer senão que o Sr. Amoedo surprehendeu-nos devéras, pela maneira brilhante como se sahiu de um assumpto tão difficil quanto ingrato. Com certeza não esperavamos tanto.

Outro quadro que tem chamado muito a attenção dos amadores, é o Estudo de mulher.

Gostamos muito da maneira franca como está pintada essa tela, menos a cor da mulher, da cintura para baixo. Aquella cor que termina nos pés não nos parece natural, nem está de accordo com a das costas. A cabeça é admiravel porém o cabello deixa muito a desejar: falta-lhe luz. O braço, apezar de ser um pouco fino, está bem modelado: outro tanto não podemos dizer das pernas, nem das... (ó diabo!) Onde acabam as costas emfim.

A ser realista, é preciso sel-o devéras. Perdoariamos a ousadia de uma posição como a d’essa mulher, se a sua execução chegasse a provocar, da parte de quem olha, o desejo de dar-lhe uma palmada. Então sim!...

Apezar d’estes senões, o quadro tem qualidades admiráveis.

Com que franqueza é pintada aquella seda branca, aquelle tapete, o travesseiro, o fundo, tudo quanto rodeia a figura tão mollemente deitada!

A Partida de Jacob é tambem uma bonita tela. O que é pena é a posição da mão da velha e a dos dedos do pé da mesma.

O tom do fundo é harmonioso, bem que um pouco frio. Os carneiros foram algum tanto descuidados. Em compensação - e isto é o principal - a cabeça de Jacob é muito expressiva.

Ha tambem um esboceto de um quadro [imagem] que o Sr. Amoedo vae executar, intitulado Jesus Christo em Capharnahum, e que muito promette.

Não fallaremos das outras télas do Sr. Amoedo, unicamente pela falta de espaço. As que citámos, juntamente com as do seu collega Almeida Junior, são sufficientes para collocarem estes dois jovens pintores em primeiro lugar entre os artistas brasileiros.

Sentimos muito que esta nossa opinião vá desagradar aos mestres já consagrados genios! Mas que tenham paciencia. Le monde marche e os novos artistas tambem.

Tanto melhor para a arte no Brazil.

Assim, ao menos, ella irá progredindo.

X.

            1884, ano IX, n.393, p. 3.

            Salão de 1884 - IV

            O Sr. Aurelio de Figueiredo, expoz vinte telas, sendo as mais importantes de entre estas - pelo tamanho - a Francesca de Rimini e Cecy no banho.

            A execução d’estes dois quadros denota, no seu autor, alguma habilidade, porém, falta absoluta de conhecimentos necessarios para emprehender trabalhos desta ordem.

            O Sr. Aurelio, ignora de todo as regras mais elementares da perspectiva, como já verbalmente lh’o dissemos e provamos, quando sua Francesca esteve exposta no barracão do largo de S. Francisco. É fraquissimo em desenho e quanto a colorido, não se póde realmente classificar o que elle é.

            Ora, apresentam os quadros feitos com bastante largueza de toque e colorido harmonioso; ora mostra-nos outros de um estylo inteiramente diverso e cuja côr discordante e horripilante faz aos olhos da gente a mesma impressão que fazem aos ouvidos os sons de uma rabeca desafinada.

            Esses dous systemas, vieram provar que o Sr. Aurelio de Figueiredo, costuma copiar e dar como seus grande parte dos trabalhos que até agora tem exposto ao publico.

            Ora isto não é sério.

            As outras telas - menos uma intitulada Trabalho e estudo - não valem nada. Ahi não se vê nem estylo, nem desenho, nem colorido. São na maior parte, cópias de chromos muito ruins. Umas celebres flôres e o cesto de rosas, será tudo o que quizerem, menos flôres. A tal Contemplativa e umas paysagens imitando hervas á mineira misturadas com goiaba são simplesmente horriveis.

            Pois bem. O Sr. Aurelio tem a pretenção de vender todas essas borracheiras á Academia! E imaginem por quanto... Vinte contos de réis! Dez, á Francisca de Rimini, quatro, a Cecy dando de mamar á sua companheira e seis ás outras bugigangas!

            É uma audácia! É um cumulo!

            Acreditamos que a Academia não terá a coragem de comprar nenhum d’esses trabalhos que não tem o menor valor artistico. Em tempo a prevenimos.

            O dinheiro é pouco e só deve servir para comprar os melhores quadros que se acham na exposição, premiando assim os que realmente merecem.

            Muito mais modesto é o Sr. Augusto Duarte, que contenta-se até com um conto de réis, pelo seu grande quadro da morte de Atalá.

            Apezar de não nos agradar muito a composição, tem essa tela bellissima qualidades como pintura, e vê-se que n’ella tudo é bem estudado. O seu autor não é nenhum genio, mas os seus trabalhos agradarão sempre na maior parte, pela sua conscienciosa execução.

            Quatro cabecinhas de estudo são muito bem pintadas, assim como dous quadrinhos - Margens do Parahyba. A Cascata grande tem pedaços bem felizes e promette futuras paysagens melhores ainda.

O Sr. Medeiros, expoz só um quadro, Iracema, e, lá para que digamos, não se sahio muito mal. Se bem que a figura não seja capaz de inspirar-nos uma paixão, todavia reconhecemos na sua execução bastante progresso e uma differença enorme de uma celebre Lindoia ou Pinoia que o mesmo expoz no Lycêo de Artes e Officios.

Não sendo obrigado a ficar em extasis diante da Iracema, os nossos olhos percorreram o resto do quadro e admiraram o vasto horisonte, o céo, o mar, a vegetação, a praia, e, digamol-o em honra do Sr. Medeiros: ficamos muito satisfeitos; nem esperavamos tanto.

Temos muito prazer em ter ensejo de louval-o, tanto mais que sempre fomos severos em outras occasiões. O Sr. Medeiros é professor da Academia e, como tal, tem obrigações de fazer os maiores esforços para apresentar quadros dignos da sua posição. Noblesse oblige.

O Sr. Firmino Monteiro expoz nada menos de vinte e cinco télas entre paysagens, quadros de costume e de genero.

D’este esperançoso artistas já nos occupamos varias vezes, sendo a ultima por occasião da exposição de alguns dos seus quadros na casa do Insley Pacheco.

A mulher do soldado e o Capitão João Homem são duas télas pintadas especialmente para a exposição; por isso ressentem-se ambas da precipitação com que foram feitas para chegarem a tempo. Era muito melhor que só se apresentasse uma e bem estudada. Porém, a mania do Sr. Firmino Monteiro é pintar muita cousa e não acabar cousa alguma. A mulher do soldado de clavina em punho tem uma cara horrivelmente feia e que só exprime idiotismo e a da criança mau desenha. O soldado deitado, tem felizmente a macega que encobre um pouco o corpo.

Comtudo, esse quadro tem verdadeiro merito no todo. A composição é boa e as roupagens executadas largamente assim como a macega. Ao menos, n’este quadro ha um pensamento: a idéa é sympatica e se o seu autor tivesse melhor estudado as caras de suas figuras, o successo do quadro seria seguro.

O Capitão João Homem, dá exactamente a idéa que produzimos, na parte illustrada d’esta folha, de um theatrinho de bonecos. Todas essas figuras são ridiculas, mal desenhadas e mal pintadas. O Sr. Monteiro não tem ainda bastante conhecimento de desenho para atirar-se em composições d’estas sem primeiramente estudar bastante do natural, fazendo posar modelos; assim conseguirá fazer alguma cousa que agrade. Para pintar ligeiro e dispensar o natural, é preciso ser bom desenhista e ter conhecimento exacto da forma humana para poder executar esta de cór.

Aconselhamol-o pois a que estude bastante antes de pintar quadros historicos ou de genero. O Sr. Monteiro tem verdadeiramente talento e póde vir a ser um artista notavel. Intelligente, activo e trabalhador, tem todos os requesitos necessarios para o successo, se para lá chegar elle tomar o bom caminho. Não é pintando muitas telas, é pintar poucas porém bem.

Em dezoito paysagens, ha só uma bôa; a do n. 50. As outras não passam de esboços e na maior parte bastante descuidados e falsos de tom.

Temos os maiores desejos de que o Sr. Monteiro vá progredindo: e se hoje o criticamos com esta franqueza, é porque temos vontade de louval-o mais tarde, com o mesmo enthusiasmo que sentimos quando estreou com o quadro Fundação da cidade do Rio de Janeiro.

X.

            1885, ano X, n.400, p.7

            Exposição pernamente

            Rua Sete de Setembro n. 102

___

            Incansavel em procurar todos os meios de chamar a attenção do publico sobre os raros productos artisticos que de vez em quando apparecem, assim á moda de cometas, e desejando fazer conhecidos alguns artistas nacionaes e estrangeiros que começam a dar copia de suas habilitações e boa vontade, no espinhoso caminho da arte, o Sr. De Wilde construio ultimamente um salão para exposição de quadros e um atelier com todas as condições necessarias e luz apropriada, para se poder vêr convenientemente os trabalhos artisticos que lá estiverem expostos.

            Na verdade, a maior parte dos trabalhos de pintura que se vêem entre nós, perdem extraordinariamente por falta de luz conveniente. Quasi sempre esta é reflectida do chão e, portanto, completamente falsa. O Sr. De Wilde tratou de obviar a esse incoveniente, seguindo o systema que se usa na Europa, nos salões e ateliers de pintura.

É de esperar que o publico, amador de Bellas-Artes, visite esse salão-atelier, dando assim prova de que não é indifferente aos esforços d’aquelles que procuram fazer com que a arte saia da vergonhosa apathia a que está condemnada entre nós.

Pois bem, nós esperamos justamente o contrario. Como conhecemos bem o nosso publico, elle, ao lêr esta noticia, fará logo tenção de ir vêr o salão. Mas essa tenção durará os 365 dias do anno.

Todavia, não ha que queixar-se. Logo que o nosso publico faz tenção, já é alguma cousa.

X.

1885, ano X, n.405, p.2

O Salão De Wilde

Em beneficio da victimas de Andaluzia, inaugurou, ha dias, o Sr. De Wilde uma exposição de quadros, em seu atelier, á rua Sete de Setembro.

Ha ali muitos trabalhos dignos de serem vistos e adquiridos pelos amadores, contribuindo, ao mesmo tempo, para uma excellente obra, de soccoro á desgraça.

A exposição tem sido muito visitada e cremos que o publico honrará os esforços e as intenções desse nucleo de artistas.

Sem assinatura.

1885, ano X, n.406, p.6

Bellas Artes

Effectuou-se afinal, a distribuição dos premios aos artistas que concorreram com os seus trabalhos para a ultima exposição de quadros na Academia das Bellas-Artes; na mesma occasião, distribuiram-se igualmente premios aos alumnos da Academia e do Conservatorio de musica.

Acerca d’estes ultimos premios conferidos a alumnos, nada diremos, não sabendo se foram ou não merecidos; porém, quanto aos que a Academio conferio aos expositores... ahi ha muito que dizer, que gritar e que bramar contra a injustiça e a cerimonia dos quatro individuos que julgaram do merecimento dos quadros expostos.

Por mais prevenido que se estivesse contra as tramoias daquella gentinha da Academia, numca se podia suppôr que, tratando-se de uma grande exposição de quadros, na qual entraram muitos artistas que não são da Academia, tanto nacionaes como estrangeiros, o jury se compuzesse só de quatro pessoas, sendo todas da casa como se se tratasse de uma simples distribuição de premios, em familia.

Dois d’esses juizes são tambem expositores e, julgando em causa propria, conferiram-se dous grandes premios.

- Proponho a Grande Dignataria da Rosa para o meu illustre amigo Victor Meirelles, disse o Sr. Pedro Americo.

- E eu tambem proponho a mesma Grande Dignataria para o illustre amigo Pedro Americo, respondeu o Sr. Victor.

Amen... disseram os Srs. Bittencourt e Mafra.

E os dois grandes artistas nacionaes, que out’ora estimavam-se como cão e gato, deram-se um apertado abraço e os mais sinceros parabens pelo grande premio que, mutuamente, acabavam de conferir-se...

- Esta scena commove-me, exclamou o illustre secretario Mafra.

- Que grande comedia, disse em sua consciencia o Sup. Arch. do Lycêo, e, no entanto não teve a coragem de sahir d’ella.

Seguiram-se os outros premios. As commendas, officialatos e habitos, foram distribuidos por entre os expositores amigos e sympathicos, pouco se importando o tal jury se os trabalhos prestavam ou não. Os outros, que não tinham a felicidade de ter relações intimas com os illustres e mutuos juizes, apenas obtiveram medalhas e menções honrosas. Entre estes, citaremos Thomaz Driendl, J. Grimm e Henrique Bernardelli.

O primeiro expoz um retrato do Dr. Ferreira Vianna e um quadro de genero, intitulado - Scena da Baviera, que agradaram immensamente, sendo louvados por toda a imprensa.

O segundo expoz tres grandes paysagens, de muito trabalho e bastante valor; foi professor-contratado da Academia, durante algum tempo e conseguio formar paysagistas, o que nunca a Academia pôde fazer.

Henrique Bernardelli, irmão do grande esculptor Rodolpho Bernardelli, enviou algumas aquerellas, dous quadros de genero e uma copia de Raphael, encommendada pela Academia.

Este distincto artista acha-se em Roma, em companhia do seu irmão e tem feito notaveis progressos; os seus quadros são bem aceitos nas exposições, onde, só por empenho, se receberam os do Srs. Pedro Americo e Victor Meirelles.

A estes tres artistas Driendl, Grimm e Bernardelli, é que o jury conferiu medalhas como se fossem, simplesmente, alumnos...

Estamos auctorisados a declarar que elles regeitam semelhante honraria; e fazem muito bem.

Já conheciamos a capacidade artistica dos membros do jury, agora conhecemos a capacidade moral.

A compra de umas celebres orchideas a aquarella, por um conto de réis, estorquido aos fundos destinados á aquisição de quadros de expositores, bem mostrava o que podia ser semelhante jury...

Pobre Arte!

X.

1885, ano X, n. 407, p.7

Livro da porta

Estudos e apreciações sobre bellas-artes, por Felix Ferreira. Reunidos em elegante volume apparecem-nos agora diversos estudos e criticas d’este nosso collega, enfeixando, por assim dizer, todo o movimento artistico dos ultimos tempos.

O genero é dos mais difficeis - maximé, entre nós.

Mesmo em paizes adiantadissimos os criticos de arte são raros. Entre nós, porem, é quasi tentar o impossivel, pois em uma sociedade torturada como a nossa, por problemas crueis, a attenção publica não está ainda desassombrada para cuidar d’esses assumptos. E a critica é destinada a corresponder ou a elucidar uma preocupação geral, por este ou aquelle assumpto.

Isto, para nós importa em mais um motivo de recommendação do livro, pois que é em meio das difficuldades que se affirma o merito.

E, n’este caso, a simples tentativa mereceria ecomios, quanto mais em trabalho de certo folego e valor.

Desejariamos tratar minuciosamente d’este livro, honrando assim os esforços do auctor. Fallece-nos, porém, o espaço preciso. Trataremos, entretanto, de o lêr e mais tarde daremos nossa opinião.

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Argus.

1885, ano X, n.408, p.7

Estudos e apreciações de bellas artes

Depois de folhear este volume do Sr. Felix Ferreira, passamos a fazer uma leitura mais demorada, e, posto que nos inspire sempre consideração qualquer tentativa ou trabalho, e que pesassemos bem a magnitude do assumpto, as decepção foram grandes!

Sem nos julgarmos auctorisado exigir que o critico de arte, entre nós, seja um Theophylo Gauthier, um Charles Blanc ou um Wolff, temos, comtudo, a esperar, que quem se abalanca a estas empresas revele alguns conhecimentos artisticos, bom gosto e criterio.

Ora, pela leitura do livro do Sr. Felix Ferreira, vimos, com grande pesar, que essa producção transborda de banalidade, de conceitos insustentaveis e de injustissimas apreciações.

Para muitos artistas de merito, que o Sr. Felix Ferreira não comprehendeu, a sua critica será um motivo de não pequeno desgosto. Luctar deseperadamente contra a indifferança do meio, e, afinal, ter como premio uma injustiça, eis o que a muitos bons talentos, que cultivam as artes entre nós, reservou o auctor dos Estudos e apreciações.

Por outro lado, o insenso é queimado ás mãos cheias, sobre trabalhos de um merito todo de convenção, obras primas officiaes, descretadas não se sabe por quem!

Resumindo: o Sr. Felix Ferreira deve empregar o seu brilhante talento de escriptor em outra qualquer especialidade.

Não trate mais de bellas artes.

Tenha pena d’ellas!

X.

1885, ano X, n.409, p.2

Historia vulgar

No angulo de uma rua, em um bairo excentrico, existia, de seculos, um blóco granitico, escalavrado, sujo, e coberto de lama. Muitos transeuntes tinham-lhe dado topadas e seguiam, rogando-lhe pragas. Os enxurros, tambem, tinham-lhe depositado, em redor todas as imundicies das viellas proximas. Um limo negro e infecto bordava-lhe as anfractuosidades. Era raro o cão, que, ao passar por elle, não tinha a phantasia de se encostar um pouco, equilibrando-se, apenas... em tres pernas.

N’essa rua morava um artista, parece que um homem de talento, que ás vezes, ao pôr do sol, assomava á janella e punha-se a contemplar as phantasias estranhas das nuvens sobre o horisonte.

Um dia, baixando os olhos, por acaso, pousou-os na pedra abandonada e o pensamento começou-lhe divagar, em caprichosas locubrações.

Pensava elle:

- Aquella pedra que ali está nada representa. Entretanto se um artista, eu, por exemplo, a tomasse, o meu cinzel poderia fazer d’ella uma obra d’arte!

A extravagante phantasia encantou-º

-Quanta gente por ali tem passado, e que nem sequer essa ideia tem tido! Pois, bem! Vou distinguir me de todo esse publico anonymo.

Transportou a pedra.

Era um blóco exquisito, partido ao acaso, com umas escabrosidades sujas, porem, de puro granito.

Pegou no cinzel e começou a desbatal-o. D’ahi a momentos já aooareciam curvas nitidas e linhas de suave matiz.

Foi indo. De vez em quando parava, media, envolvia o blóco de um olhar amoroso, e, como por encanto, as linhas de uma elegante estactueta iam apparecendo.

O granito limpo, tinha pontos brilhanres, que reflectiam a luz e que até oareciam pequenas lagrimas crystalisadas.

Ao fim de alguns dias, uma bonita estatueta da liberdade, já ostentava os seus elegantes contornos.

E o artista meditava:

- Ora, quem dirá que isto sahiu d’aquella pedra immunda, que ali estava impedindo o curso do enxurro!

Estava encantado com a sua obra e trabalhava n’ella com tanto ardor, que, ás vezes, até se sentia fatigado, faltava-lhe o ar e quasi que desfallecia. Mas, logo se reanimava, só pelo desejo de ver a sua obra completa, e de contar aos seus amigos, como aquillo tenho sido feito.

Mas eis que um bello dia, entra-lhe pela porta dentro o visinho de defronte, reclamando a pedra, que era sua, que por estar na rua não lhe tinha perdido o direito e a fazer uma questão muito grande pela posse do blóco nojento de hontem, já transformado em risonha esperança.

O artista não imaginava que podesse haver reclamações, mas vendo-as apparecer, tenou resistir.

Dizia-lhe a consciencia:

- Isto não é mais a pedra que o meu visinho tinha em frente da sua porta, para dar topadas no escuro. É o meu trabalho que aqui está!

Resistiu. Então, o visinho foi queixar-se ao Juiz de paz da fraguezia, que veio promptamente ao lugar da contenda, decidindo, que, para evitar questões, o artista entregasse a sua obra ao reclamante...

Que Salomão!

E este, pouco depois, retirava-se muito ancho e satisfeito de sua proesa...

Mas, as pessoas que testemunhavam a scena, diziam:

- Isto é que se chama pouca vergonha! Isto é que é verdadeiro roubo da propriedade!

E acabou-se a historia.

J. V.

P.7

H Langerock

É este o nome de um illustre e distincto artista, muito conhecido no mundo das artes (já se vê que não é o nosso) pelos seus bellos quadros.

O publico já teve occasião de apreciar dous esplendidos trabalhos que estiveram expostos na vitrina da conhecida casa Costrejean, representando o Jogo da bola  e uma Pescaria sob reinado de Luiz XIII.

Actualmente o Dewilde possue, no seu salão-atelier, mais duas télasinhas, muito mimosas, do mesmo artista.

O Sr. Langerock, depois de ter visitado o Oriente, a Africa, o Egypto etc. resolveo-se a visitar o Brasil e fazer conhecimento com a nossa natureza, a única cousa decente que felizmente temos.

Que esta o absorva o dia inteiro, afim de lhe não deixar tempo de pensar nos homens e nas cousas cá da terra, é o que desejamos, para que elle tenha sempre do Brazil, a mais favoravel impressão.

Agradecendo a visita  com que nos honrou tão distincto artista e amavel cavalheiro, fazemos votos para que o nosso sol da America - lhe illumine o maior numero de télas possivel, tendo nós assim occasião de apprecial-o por muito tempo.

X.

1885, ano X, n.412, p.3

Exposição

O Sr. Parreiras, discipulo do Sr. Grimm, expóz ultimamente no salão DeWilde, algumas paysagens, que denotam grande adiantamento e especial vocação para esse genero de pintura.

Desejamos que esses trabalhos encontrem aceitação por entre os poucos amadores que temos aqui na côrte, afim de que o seu autor possa continuar na carreira que enceitou e para a qual o futuro reserva-lhe um bom lugar entre os nossos bons paysagistas.

Orlando.

1885, ano X, n.417, p.7

R. Bernardelli

Chegou da Europa, em um dos ultimos vapores, o talentoso esculptor Rodolpho Bernardelli, bem conhecido no mundo das artes e geralmente considerado o primeiro artista brazileiro da actualidade.

Rodolpho Bernardelli é condecorado pelo governo italiano, e na exposição que vae ser promovida das suas obras, o publico terá occasião de apreciar verdadeiros primores.

Ao talentoso esculptor, cujo nome, na velha Europa é citado entre os de maiores vultos da arte contemporanea, enviamos um aperto de mão.

Sem assinatura.

1885, ano X, n.419, p. 3.

Bellas-Artes

Esteve exposta na Glace Élegante, uma tela emmoldurada, onde se via, pintado e lambido, o retrato de um rapaz bonitote, apertado n’uma casaca de pau preto.

Por ser mediocre o desenho, ruim o colorido e pessima a maneira de pintar, pareceu-nos que esse trabalho fosse de algum d’esses pinta-monos, que, frequentemente, dão á luz detestaveis abortos, geralmente apadrinhados o recommendados, com adjectivos louvaminheiros, pelos nossos noticiaristas-criticos.

Procuramos a assignatura do quadro, mas debalde o fizemos; não existia.

***

Esse facto despertou-nos muito a curiosidade de saber quem era o novo athleta que vinha engrossar as fileiras dos congumellos da pintura.

E tanto indagamos, que, por fim, soubemos, de fonte limpa, ser aquella bota obra do nosso mestre, gráo dignatario e doutor - Sr. Pedro Americo de Figueiredo e Mello!!

Ficamos desnorteados.

Pois que! O laureado pintor historico, Dr. e professor de esthetica da nossa Imperial Academia de Bellas-Artes; o homem que já disse ter commovido a Italia com as producções do seu ardente engenho, a ponto de merecer ovações emthusiasticas de não sabermos que principes: esse portento artistico! - não desenha correctamente um retrato, não vê o claro-escuro, não sabe pintar o panno de uma casaca?!

E o que colligir d’ahi?

Que os grandes dignatarios, glorias da patria e genios da pintura, têm qualidades tão excelsas, tão mirificas, que não podem aninhar dentro do seu talento, esta bagatella que se chama - saber pintar um retrato; esta ninharia que tem aureolado os nomes de muitos artistas, entre os quaes: Bonnat e Carolus Durand?

Não. Nunca.

***

O que devemos fazer é não sermos tão beocios; não dar ouvidos a elogios partidos de bocca propria, nem a parvoices encomiasticas que se escrevem a proposito de grandes quadros, sem se indagar se estes são productos originaes do talento do artista, ou se não passam de mantas de retalhos, habilidosamente alinhavadas, e com as quaes o autor, pretendendo tapar a vista dos que a tem perspicaz, embrulha, de facto, os pascacios boquiabertos, que illudidos, começam a dar bordoadas de cégo no bom senso, incensando, á direita e á esquerda, o nome do proprio magico, que lhes virou o juizo.

Em havendo menos credulidade e mais discernimento proprio, nada haverá que admirar, vendo-se pintores celebrados e historicos deixarem perigar a sua fama, por causa de um simples retrato - como succedeu agora ao Sr. Pedro Americo que é um dos sóes da nossa arte - mas sol que tem a originalidade commum entre os da sua especie - de só brilhar para si e al longe... não sendo visivel para nós.

***

Todos sabem já que o Sr. Victor Meirelles vae pintar a cidade do Rio de Janeiro, vista do morro de St. Antonio, para mostral-a em panorama ao mundo civilisado, que está esperando mais este attestado do nosso progresso para collocar-nos a par... da Zululandia, por exemplo!

É bonita a idéa?

Bonita ou não, o caso é que foi apoiada por todos os nossos collegas da imprensa, um dos quaes chegou a dizer que ella só por si valia mais que quantas legações temos na Europa pois que, á vista do panorama, remover-se-iam os obstaculos que impedem a vinda dos trabalhadores agricolas, os quaes correrão, então, para aqui, como os rios para o mar.

Se esta cincada estivesse nas Balas de estalo seria uma pilheria fina: mas, impressa nas columnas editoriaes...!

***

Rasoavelmente, não é admissivel que, por meio de um panorama, se obtenha o que o tempo e os esforços mais ou menos habeis, secundado por muitos milhares de contos de réis, não têm conseguido.

É irrisorio dizer que a gente disposta a emigrar se esqueça de que o nosso paiz, alem de ter fama de doentio, não tem leis que facultem aos colonos o mesmo modo de viver que elles tem nas sua terra; que não temos o casamento civil, principal base da familia, mas que, em compensação, ainda temos a escravidão que nos avilta e afugenta o trabalhador livre; é irrisorio dizer, repetimos, que tudo será esquecido á vista do tal panorama que afinal, pouco mais vem a ser do que a vista de uns feios telhados, n’uma área irregularmente cortada de ruas tortas estreitas e immundas.

***

Dando de barato que os esplendores da natureza que nos cerca, produzam admiradores desejosos de vel-a, ao vivo, é evidente que esse sentimento de curiosidade só animará a roda de artistas e alguns touristes endinheirados a emprehenderem uma viagem... de recreio; mas, seguramente, não é com bonitas paisagens que se apanha colonos.

Fazemos votos, pois, para que essa infeliz e panoramica idéa não vá avante; não podemos sancionar com o nosso apoio uma subscripção que exige quantia fabulosa para a execução de um dos maiores disparates de que ha exemplo, e que não servirá senão para expor-nos ao ridiculo no estrangeiro.

Se o publico do Rio de Janeiro está disposto a abrir os cordões da bolsa em negocios de bellas-artes, aproveite então a sua boa tendencia em auxiliar os nossos artistas, entre os quaes já contamos alguns de bastante merito, comprando ou encommendado quadros.

Estamos convencidos, até de que os Srs. Langerock e Victor Meirelles, socios na panoramatica idéa de pintar os telheiros fluminenses, preferirão executar no seu atelier alguns quadros, tendo certeza de encontrar compradores, do que metterem-se n’uma empreza, cujo resultado será um tremendo fiasco.

Para subcripção d’esse genero basta a que fez e ainda pretende fazer o Sr. Julio Cezar, com o seu balão, n’esta terra de beocios, onde os maiores disparates encontram sempre o mais efficaz apoio.

***

Nunca o Rio de Janeiro teve em seu seio tantos artistas, nacionaes e estrangeiros, como presentemente. Se os que tem realmente talento encontrassem aceitação da parte do nosso publico e sobretudo d’aquelles que tem meios de os occupar, teriamos occasião de apreciar algumas producções realmente artisticas e assim os passeiantes da rua do Ouvidor não olhariam mais para as tremendas borracheiras, que, diariamente, se vem expostas nessa rua, em detrimento da arte, do bom gosto e do nosso adiantamento, que pode bem ser qualificado na altura dos hottentotes, por qualquer estrangeiro que passe diante das casas - Galeria Moncada e Glace Elegante.

***

Temos actualmente artistas para todos os gostos e paladares.

Para os amadores de patriotadas, que vão mais atraz da pomada e das honrarias mal adqueridas, do que da verdadeira arte, temos os grandes dignatarios da roza, Pedro Americo e Victor Meirelles.

Para os que não gostam da arte, mas da real, d’aquella que cultivaram os maiores vultos artisticos da velha Europa, temos o Rodolpho Bernardelli que chegou ultimamente de Italia, onde foi admirado pelos grandes mestres e condecorado pelo rei Humberto, na ultima exposição de bellas-artes. Os seus trabalhos acham-se actualmente expostos da Academia de Bellas-Artes. Ahi o publico tera occasião de admiral-os.

Rodolpho Bernardelli foi agraciado na Italia, onde a esculptura chegou ao mais alto gráu, distinguindo-se entre os grandes mestres, os jornaes fizeram-lhe os maiores louvores e em toda parte obteve as mais subidas provas de distincção. Foi o unico discipulo da nossa Academia de Bellas Artes que honrou-a no estrangeiro. Pois bem, esse artista de grande merito, esse verdadeiro genio, não possue a menor graça do nosso imperial governo!

Quererá este reparar esta injustiça fazendo-o commendador? Agora, é tarde; seria pol-o abaixo dos dois grandes dignitarios, verdadeiras nullidades artisticas, e comparal-o ao porteiro da Academia, o qual, pelos seus importantes serviços - em tratar das portas, naturalmente - mereceu o honroso titulo de commendador.

Para agraciar o Bernardelli, estabelecendo uma justa distancia entre o seu merito e o dos grandes dignitarios Pedro Americo e Victor, o governo não lhe pode dar menos do que o titulo de Duque.

***

Estamos curiosos por ver em que parará tudo isto.

Temos, porem, a certesa de que o Bernardelli pudesse agraciar-se a si mesmo, como fizeram, em congregação, os laureados pintores, elle não escolheria cousa alguma, dando-se por muito honrado com a fita da Corôa de Italia, honrosamente conquistada no campo da Arte.

No proximo numero nos occuparemos do magistral trabalho executado em marmore intitulado: Christo e a mulher adultera.

***

Um artista de muito merito é sem duvida alguma o Sr. Treidler, cujos trabalhos estão expostos no pequeno salon do Sr. De Wilde, á rua Sete de Setembro n. 102.

Indicamos propositalmente o numero da casa onde estão esquecidos aquelles bellos modelos de paisagem, no intuito de conseguir que o nosso publico se desvie da rua do Ouvidor e vá aprender a ver o que é bom, para, depois, saber condemnar o que não presta.

Diante da maior parte dos quadros do Sr. Treidler sentimo-nos agradavelmente impressionados pelo modo artistico, largo e limpo, e pela fidelidade com que se ve reproduzida a natureza, que parece viver na tela tal é a verdade dos tons.

Vê-se que o distincto paisagista tem bastante conhecimento da perspectiva aerea, o que torna o seu colorido transparente e verdadeiro.

Continuaremos.

Z. 

1885, ano X, n.420, p.2

Rodolpho Bernardelli

Rio, 31 de outubro, 1885.

A mais nobre das artes da antiguidade, a serena esculptura, essa predilecta dos deuses, cuja missão, quasi exclusiva,era a representação dos Immortaes, depois de fazer palpitar o marmore sob o cinzel dos apaixonados artistas, pareceu, um dia, abandonar a terra.

A um longo periodo da injustiça condemnação, pois que a julgavam uma arte, apenas, historica, impropria ás transformações que as epocas vão operando em tudo, e incapaz de reproduzir as paixões, os dramas e as epopeias do mundo moderno, emergiu, afinal, das suas ruinas, e póde-se dizer, que é hoje, uma das artes que mais dilatado futuro têm diante de si.

Julgou-se, por muito tempo, que essa fórma de expressão, pelo facto de se gravar sobre a pedra, não podia acompanhar nos vôos arrojados, nem o poema, nem a téla, nem o drama e nem a musica. Puro engano! O marmore, sente, vive e palpita, do mesmo modo que a argilla biblica quando o sopro de um creador a anima. Tão rica de expressão como as congerenes, ella, tem-se prestado, admiravelmente, á representação do heroismo, do desespero, do amor ou da piedade. A questão é que esses sentimentos lhe sejam inspirados por quem os comprehenda!

***

Até hoje, porem, a esculptura só tem dado signaes de vida nos paizes cheios de tradicções artisticas, aonde o culto do bello passa de geração em geração por um phenomeno de hereditariedade, podendo-se dizer que é um dos componentes do sangue popular.

Não sabiamos de nenhum paiz novo, desorganisado, n’uma evolução palpitante, que bruscamente, como uma replica audaciosa aos que julgavam a arte sagrada monopolio das nações seculares, pudesse estender o braço á Grecia ou a Italia. Pertencem-nos essa originalidade honrosa, e, venha ella, ao menos, para compensar o patriotismo de tantas decepções!

Quanto á explicação do facto, as versões variam.

Alguem, muito enthusiasta da nossa Academia de Bellas-Artes dizia:

- É que Rodolpho Bernardelli foi d’aqui muito bem preparado.

- Creio que sim, - atalhou um dos ouvintes. Não se póde negar que o Bernardelli levou d’aqui... o seu talento! Nós ainda não nos achamos em estado de preparar outra cousa...

De facto, a somma de talentos que o Brazil produz é consideravel; mas, tambem, o numero de assassinatos que a indifferença publica perpetra, é respeitavel. Basta passar a vista, pelos nossos annaes litterarios e artisticos... Fica-se assombrado. É um perfeito cemiterio.

Mas isto é natural, porque nos meios desorganisados, não é de certo a creança pobre, filha de paes obscuros, mas em cujo cerebro brilha a scentelha divina, a que encontra os meios de se desenvolver para honrar a patria.

E entratento, sem nos referirmos á litteratura e ao jornalismo, temos um Carlos Gomes e um Bernardelli.

***

Rodolpho Bernardelli procurou um meio propicio para desenvolver as suas possantes faculdades, dirigindo-se a Roma e passando ahi meia duzia de annos, na frequencia dos grandes artistas e nos trabalhos de atelie.

As suas primeiras obras, revelaram logo, para os mestres, uma esperança esplendida.

Seguiu-se esse trabalho, subterraneo e mysterioso, em que o artista lucta braço a braço com a natureza a toda as horas do dia, e mesmo nos sonhos phantasticos das suas noites agitadas, até que, como um conquistador, começa a devassar dominios incognitos.

***

Na ultima exposição de bellas-artes vimos, com surpresa e admiração, o Santo Estevão, um prodigio de realismo, que é o encanto dos artistas, e aonde não se sabe que mais admirar, se a expressão dolorida e resignada da phisionomia, que se volta para o ceu, se a flagrante verdade d’aquelle corpo emagrecido, que tomba aos golpes do supplicio. Fica-se extactico.

Tambem a Faceira, esse typo das nossas florestas, essa concepção que nos affirma que a mulher é a mesma sob todas as fórmas, esse mixto de belleza e graça, revela-nos, a cada ponto de vista novo em que nos collocamos, os recursos magistraes do artista.

Mas, aonde o talento de Bernardelli deu o vôo mais audacioso, foi no grupo monumental de Christo e a adultera.

Diante delle, a multidão passa silenciosa, como se receiasse profanar com uma banalidade, o drama palpitante que o marmore nos desvenda.

Como concepção, não sabemos que defeitos notar-lhe. A figura do Christo, segundo as tradicções e os trabalhos de toda ordem a que tem dado lugar, parece-nos interpretada de modo superior. O crente, o apostolo e o reformador estão ali, na uncção do olhar, na serenidade da decisão da phisionomia, no vigor da sua dominate attitude. Os seus gestos teem a apostrophe e teem o perdão. A seus pés a adultera, sente-se protegida, diante de um povo maculado, que a cobre de imprecações.

A ideia que inspira a obra d’arte, parece nos, pois, ter todos os requisitos da esthetica moderna: clara, verdadeira, e commovente.

Quanto a execução é ella primorosa.

Resiste, mesmo, a uma prova terrivel, tal como ter sido calculado e realisada em dadas condiçõs de luz, recebendo-a de cima, para que as sombras deem o necessário relevo ás expressões e ás roupas, e estar exposta, a uma luz inteiramente diversa, que afere de lado, alterando completamente, a obra do artista. E, na esculptura, o jogo de luz é o unico elemento de que o estatuario dispõe, para arrancar da pedra os effeitos que elle imagina.

Mesmo n’estas condicções inferiores de exposição, a obra de Bernardelli, sobressae extraordinariamente, e se descessemos aos detalhes da execução, teriamos de extasiar-nos, ante a habilidade, a paciencia, as difficuldades infinitas de processo, com que o artista teve de luctar, para extrahir do blóco o marmore inutil, que circunscrevia a fina madeixa, os braços suspensos, as dobras as roupagens, e as curvas sensuaes da adultera. E, no ponto em que ella impelle as roupas do Christo, e curva o braço escondendo o seio, ha detalhes dignos da mais alta admiração. As difficuldades materias que a esculptura offerece são enormes. Basta, que cada um, supponha estar vendo o blóco, como o descreve o padre Antonio Vieira, quando diz: Arranca o estatuario uma pedra d’essas montanhas tosca, bruta, dura, informe... e depois seguir as linhas harmoniosas da figura.

***

            Rodolpho Bernardelli deve estar saptisfeito. A sua patria tem a aspiração de ser um pais artista, e inclinamo-nos a crer, que, na America, é mesmo o unico que dá serias esperança de o conseguir. Actualmente, porém, o espirito publico, não tem, nem a liberdade nem o dezejo de se despreocupar das pungentes questões, que lhe lavram o seio. Conta-se de Clemenceau, que, durante a guerra prussiana ninguem o viu rir, uma só vez. Com o Brazil, no intimo do seu coração, dá-se o mesmo. Como Tantalo, elle morre de sêde á beira dos regatos crystalinos, e o ár puro florestas traz, não sabemos de onde, alguma coisa de deleterio.

            N’estas condicções é admiravel como a vitalidade nacional ainda se manifesta e como ella esquece, por um momento, a sua desgraça, para atirar um punhado de flores á fronte dos artistas.

Julio Verim. 

1885, ano X, n.421, p.6

            Rodolpho Bernardelli

            Sexta-feira passada, alguns artistas, amigos de Bernardelli, offereceram lhe um jantar, no hotel Novo Mundo.

Homens de letras e artistas ahi se achavam reunidos, á hora aprazada, em face de um menu de primeira ordem, mas que podia perfeitamente queixar-se, de não ter recebido, da parte da maioria dos convivas, as attenções a que tinha direito! As maxillas, salvas honrosas excepções, moviam-se, muito mais para conversar, do que para fazer ao banquete as honras principescas, a que tinha todo o direito.

            Não queremos com isso dizer que fosse um jantar platonico. Não. O que queremos expor é que elle poderia reclamar contra o facto de ser um simples pretexto. Essa missão foi perfeitamente cumprida, realizando um rendez-vous entre as seguinte pessoas: Dr. Ferreira de Araujo da Gazeta de Noticias, França Junior do Paiz, Arthur Azevedo do Diario de Noticias,Valentim Magalhães da Semana, Angelo Agostini da Revista Illustrada, não tendo podido comparecer o Sr. Laet do Jornal do Commercio. A roda dos artistas compunha-se de Rodolpho Bernardelli, Zeferino da Costa, Cernicchiaro, Medeiros, Belmiro, Decio Villares, Felix Bernardelli, Peres e Duarte.

            Achava-se, tambem, entre os convivas o estimado negociante Sr. André de Oliveira.

            A festa correu animadissima e de modo a estreitar, ainda mais, as relações entre artistas e homens de letras.

            Conversou-se, largamente, na creação de uma sociedade, tendo por fim dar encremento ás artes, sendo um ponto de reunião para os artistas, fazendo exposições de trabalhos, e enviando ao salão, de Paris, os que fossem escolhidos por um jury. A sociedade procuraria meio de subsidiar alguns artistas, de modo a que podessem estudar na Europa; emfim, empregaria todos os esforços para tirar o movimento artistico, no Brazil, da apatia em que se encontra.

            Bella ideia, e, a nosso ver, não muito difficil de realisar, desde o momento que os artistas se convençam que a união faz a força e empreguem alguns esforços no sentido de terem, tambem, o seu club, com ateliers de trabalho, licções, e exposições periodicas.

            Bernardelli foi muito festejado durante o correr do banquete; mas, como elle se sentiria lisonjeado, se d’esta festa, em sua honra, nascesse um tentamen, serio e efficaz, em favor da verdadeira arte e dos que a cultivam!

Sem assinatura.

            1886, ano XI, n. 426, p. 6.

            Rodolpho Bernardelli

            A imprensa fluminense tomou a iniciativa de uma subscripção nacional, destinada a ofertar ao artista, cujo nome nos serve de epigraphe, um blóco de marmore e os meios necessarios para a execução do seu primoroso projecto de esculptura O Santo Estevão.

            Nada mais justo do que esse movimento de enthusiasmo por um artista que honra o Brazil e cujos trabalhos teem sido altamente apreciados nos maiores centros artisticos do mundo, e, entre nós causaram não pequena impressão, valendo-lhe francos elogios de toda a imprensa, e as maiores animações por parte do publico, que, em grande numero, concorreu a admirar as suas obras, na Academia de Bellas-Artes.

            Infelizmente, porem, o nosso paiz parece cada vez menos preparado, para incitar esses trabalhadores extrenuos, n’um caminho banhado pelo Sol da gloria, mas erriçado de urzes, ladeado de precipicios, e aonde a lucta com os elementos é assustadora, faltando, muitas vezes, com as animações devidas a esses espiritos de elite, cujos nomes, mais tarde, se tornam um patrimonio nacional.

            Quando a reclame ou o patronato, não se poeem á frente d’essas tentativas, em geral o publico, não liga a taes assumptos a importancia que lhe devia merecer, ao passo, que, grandes recursos são obtidos para obras de merito equivoco, e de execução muito problematica, mas que tiveram a felicidade de captivar as bôas graças do mundo official.

            Então, os coffres publicos ou particulares abrem-se, valiosos auxilios são offerecidos a esses ditosos, e, ao fim de alguns annos, ou não apparece coisa digna de attenção ou vem á luz alguma obra enfesada, que seria melhor continuar na obscuridade, d’onde nunca deveria ter sahido.

***

            Rodolpho Bernardelli é um artista já consagrado pelos grandes triumphos obtidos, e cujas obras ahi estão, para maravilhar os entendidos e impressionar até os que não teem grande preocupação com as coisas da arte.

            O joven professor da cadeira de esculptura, já condecorado pelo governo italiano, por merito artistico, é dos que se não contentam com os louros adquiridos. O Santo Estevão, passa entre os entendidos, pela sua obra prima. Deixal-a em gêsso, sem a vida propria que a marmore dá ás concepções humanas, sujeita aos estragos do tempo, e deteriorando-se cada dia, seria um crime, de que as gerações futuras nos haviam de tomar serias contas.

            Nada mais justo, pois, do que o empenho em que se encontra a imprensa, de offerecer ao grande artista os meios de executar uma de suas melhores concepções.

            A subscripção vae seu caminho.

            Iniciada ha poucos dias, conta já muitos subscriptores.

Orlando.

            1886, ano XI, n. 438, p. 6 e 7.

 

            Bellas-Artes - A Igreja da Candelaria

            Temos por habito frequentar poucas vezes as igrejas e a razão é muito simples: os nossos tempos, em geral, são feios, pouco asseados, de uma architectura impossivel e cheia de ornamentação sem gosto, extravagante e excessivamente pesada. Tudo isso tira ás igrejas o caracter severo e grandioso que devem ter, e, apezar de não sermos ultra-catholicos, não podemos deixar passar, sem reparo, essa falta de respeito á casa do Senhor e ás linhas architectonicas, completamente sacrificadas por uma infinidade de arabescos e ornamentos, que não significam outra cousa senão o desejo de gastar muito dinheiro inutilmente.

            A igreja de S. Francisco de Paula, é um exemplo do que acima fica dito. Pareceria-nos antes o tempo das deusas da farinha ou da cal, se estas existissem. Dizem-nos que toda a ornamentação é obra de talha; se assim é, porque razão escondel-a sob uma camada de cal ou de tinta branca? Fizessem-n’a logo de gesso; o effeito seriao mesmo e teriam poupado centenas de contos de réis.

            A irmandade da Candelaria tem, felizmente, a idéa de sahir fóra desse systhema, empregando, em lugar de madeira pintada de branco, o marmore, que é muito mais proprio e duravel. Ahi, ao menos, não ha receio de cupim nem de nenhum bicho damninho.

            São dignos de louvor os provedores e irmãos que presidiram ás obras desse templo, o primeiro, incontestavelmente, de todo o imperio e talvez da America do Sul e bem inspirados foram elles entregando a pintura sacra e decorativa da igreja ao Sr. Zeferino da Costa, artista consciensioso e de real merecimento.

            Antes de commeçar os seus trabalhos o Sr. Zeferino voltou á Italia, onde tinha passado alguns annos, como pensionista da nossa Academia de Bellas-Artes e ahi, estudando o melhor meio de ornamentação para uma igreja nas condições da Candelaria, consultando mestres e visitando innumeros templos, conseguio voltar com todo o plano de ornamentação já pronto, contando-se n’elle inumeros esboços de figuras e quadros sacros perfeitamente estudados, para poder, com toda a certeza, executal-os nas gigantescas proporções que exigem um templo como o da Candelaria.

            E é por essa razão que olhando-se para a parte concluida da igreja, vê-se tudo em perfeita harmonia, tanto nas côres como nas proporções, conservando o trabalho do Sr. Zeferino o mais rigoroso desenho e effeito de perspectiva, admiravelmente bem combinados com a parte architectonica da igreja.

            Não é assim que procedem, em geral, os mais artistas e architectos entre nós; consultando simplesmente o seu orgulho, julgam-se uns Migueis Angelos de genios, e, mettendo as mãos a obra, ou antes os pés, executam um sem numero de disparates...

            Mas voltemos á Candelaria.

            Devendo se concluir a nave da igreja e as partes lateraes, o Sr. Zeferino da Costa apresentou á nova administração das obras da Candelaria o seu projecto para a pintura do tecto, onde, em varios paineis, se vê a historia da fundação da mesma igreja e a Invocação de S. Cecília que deve figurar na parede, diante da qual se acha o côro da igreja. Esta bella allegoria foi executada em ponto grande, sobre papel e collocada no proprio lugar, para dar melhor idéa do effeito que deve produzir, mais tarde, quando pintada.

            O excellente partido que tirou o artista das tres janellas produzem um admiravel effeito de perspectiva que faz suppôr a igreja maior do que ela é.

            Ao Sr. Zeferino da Costa damos um bom aperto de mão pelos seus bellos trabalhos e aos irmãos administradores da Candelaria as nossas mais sinceras felicitações por terem encontrado um artista habilissimo, consciensioso e trabalhador.

            No mesmo atelie do Sr. Zeferino trabalha Rodolpho Bernardelli. Antigos companheiros da Academia, tiveram occasião de estar juntos em Roma, onde as suas almas de artistas sentiram a mesma impressão que produz a grande arte.

            Hoje, elles não são simplesmente amigos, são dois verdadeiros irmãos.

            Quando se procura um, tem-se quasi a certeza de encontrar, também, o outro.

            Quem quizer, pois, ver os trabalhos do Bernardelli deve ir ao côro da Candelaria. Ahi, terá occasião de vêr alguns bustos que devem ser fundidos em bronze, o do distincto rabequista J. Withe, o do Sr. Visconde de Amoroso Lima, e um outro para a camara municipal de Juiz de Fóra. São de uma semelhança perfeita e de uma execução... de uma execução... á Bernardelli; não é preciso dizer mais nada. Tambem vê-se um S. Lucas, (gesso), projecto para uma estatua em marmore, em ponto maior do que o natural, para a igreja da Cruz dos Militares.

            Além dessa estatua e para a mesma igreja, o Sr. Bernardelli devia fazer tambem a de S. Marcos. Era essa, pelo menos, a opinião do Sr. Dr. Ferreira Vianna que induziu o nosso artista a começar o trabalho.

            Bernardelli fez o S. Lucas mas... recuou diante do S. Marcos. Lembrou se do rifão “O homem põe e Deus dispõe” e applicou-o ao caso. O Dr. Ferreira Vianna propoz mas a irmandade ainda não se dispoz - a mandal-o executar.

            No emtanto, se nessa irmandade presidisse o gosto, o amor á arte e á religião, o S. Lucas não ficaria, simplesmente, n’um projecto em gesso. Basta olhar para elle, para comprehender que é um crime não fazel-o executar em marmore.

            É isso que o Dr. Ferreira Vianna devia fazer comprehender á irmandade. Um homem tão intelligente e illustrado póde prestar os melhores serviços, dando bons conselhos; parece-nos que, se poupassem alguns centos de mil réis na cera e armação da igreja e no foguetorio por occasião das festanças, sempre se economisariam uns poucos de contos de réis que poderiam ser applicados a obras de melhor utilidade e duração eterna. A cera derrete-se, mas as estatuas ficam.

            Outra imagem, e esta deve ser de um effeito deslumbrante uma vez executada em marmore é a da Virgem da Candelaria. Suspensa no ar e o manto ainda arrastando em graciosa curva sobre o mundo que lhe serve de pedestal, a virgem, segurando nos seus braços o menino Jesus, produz uma impressão tão bella, tão sympathica, ha um não sei que de celestial e sereno em toda ella, que parece impossivel ser o que se vê, a obra de um ente humano.

            É este o effeito que produz a grande arte. Olhamos para certas obras que parecem emanar directamente de Deus e quando os nossos olhos procuram o autor, parece-nos impossivel que elle seja uma creatura humana, exactamente igual a nós. Era esta a impressão, com certeza, que produzia no publico que visitava a Academia, a figura do Bernardelli ao lado do seu grupo “O Christo e a mulher adultera.

            (continúa).

            1886, ano XI, n. 439, p. 6 e 7.

            Bellas-Artes

            (continuando do n. 438).

            Pouco tempo depois da morte do duque de Caxias e Marquez do Herval, alguns patriotas, movidos por uma justa admiração pelos relevantes serviços prestados por tão illustres brasileiros, promoveram uma subscripção popular que attingio a uma boa somma de contos de réis, os quaes estão, provavelmente, a dormir nos cofres de algum banco.

            O fim desta subscrição, era mandar erigir um monumento para perpetuar a memoria desses dois vultos que pertencem hoje á historia patria e, ao mesmo tempo, significar o justo apreço em que elles são tidos por todos que sentem pulsar em seus peitos, o mais nobre e patriotico sentimento: o da admiração e reconhecimento por aquelles que tanto souberam honrar a patria.

            Fomos dos primeiros a applaudir a iniciativa destas subscripções que sempre pensamos seria coroada de pleno sucesso. Não nos enganamos e grande parte do povo correspondeu ao appello dos patrioticos cidadãos que se collocaram a testa desta.

            Mas... já lá vão seis a sete annos que se fizeram as subscripções e até hoje nunca mais se ouvio fallar nem em monumentos nem em cousa alguma.

            O mesmo aconteceu em relação a outra gloria nacional, José de Alencar: verdade é que sendo este um litterato, a subscripção conservou-se nos limites da mais pura modestia.

            Sempre caipóra a litteratura entre nós; até mesmo depois da morte!

            Verdade é, que Alencar deixou, com suas obras, verdadeiros monumentos litterarios, mas isto mesmo é uma razão para que se lhe erija um de bronze.

            Comprehendemos que os dignos cavalheiros encarregados das subscripções não tivessem, até hoje, dado andamento para a execução de tao importantes obras artisticas, por não encontrarem, no Rio de Janeiro, quem dellas se pudesse encarregar: mas, desde que chegou Rodolpho Bernardelli, não ha mais razão para uma demora que hoje não tem mais explicação.

            Concluindo o modelo para o tumulo de Jose Bonifacio, o patriarcha da Independencia, Bernardelli retirou-se para a Europa, de onde mandará, executados em marmore e bronze, os poucos trabalhos que lhe foram confiados durante a sua estadia no Rio de Janeiro.

            É muito provavel, que uma vez em Roma, elle não volte tão cedo. Conhecido na Italia, como um dos melhores artistas modernos, nunca lhe faltará nem trabalho nem gloria, e nós teremos o desgosto de ter affastado do nosso paiz, um grande artista, de real merecimento, a quem se pódia confiar os trabalhos de quem acima fallamos.

Se o duque de Caxias, marquez de Herval e José de Alencar constituem tres glorias nacionaes, nada mais justo que Bernardelli, outra gloria nacional, seja o encarregado desses tres monumentos que honrarão o paiz.

O que esperam então as commissões?

---

Consta-nos que o Sr. Almeida Reis, pretende apresentar-se candidato para a execução da Virgem da Candelaria. É impossivel que elle ignore que o Bernardelli já fez e apresentou o seu projecto.

Ou o Sr. Almeida Reis, toma os irmãos encarregados das obras da Candelaria como uns imbecis, ou então é de uma audacia que só encontra desculpa na sua profunda ignorancia em materia d’arte.

Não pense o Sr. Almeida Reis, pelo facto de termos lhe já feito alguns pequenos louvores, que tenhamos pelos os seus trabalhos a menor admiração como obra d’arte, não.

Quando se tratou do monstro em bronze que se acha no frontispicio da estação da Estrada de ferro de D. Pedro II, representando o Progresso, (não é o da esculptura, com certeza) a Revista publicou algumas palavras animadoras, é verdade, mas, com o unico fim de não molestar ao autor e não prejudical-o na opinião dos que lhe confiaram esse trabalho, pois por isso podia influir, algum tanto, nos seus interesses.

Sempre fomos indulgentes e generosos para com os artistas que trabalham, sem exigir que as suas producções sejam obras primas; julgamos cada um segundo o seu merito: o que não admittimos, porém, é o orgulho, a inveja e a audacia.

O Sr. Almeida Reis deveria conhecer-se melhor, e se a sua intelligencia não é bastante clara para saber da differença que ha entre elle e o Bernardelli, nós lh’o diremos já:

É a mesma que existe entre o Sr. Almeida Reis e um servente de pedreiro boçal.

Se um destes se tivesse apresentando a tal estatua do Progresso, o Sr. Almeida Reis teria dado com certeza, uma boa gargalhada. Foi justamente o que fizemos, quando nos disseram que o autor do tal Progresso e do Antonio Jose pretendia fazer concurrencia ao autor do Christo e a adultera.

Sr. Almeida Reis, quer um bom conselho?

Vá tomar lições com Bernardelli.

X.

1886, ano XI, n. 441, p. 7.

Bellas-Artes

N’uma das salas do pavimento terreo da Typographia Nacional expoz o Sr. Rodolpho Bernardelli, grande quantidade de quadros a oleo e a pastel feitos pelo seu irmão Henrique Bernardelli, actualmente em Roma.

De todos os artistas modernos brasileiros que foram para a Europa aperfeiçoar-se na arte da pintura, este parece ser o que mais tem aproveitado.

Será por ter mais talento ou por ter ido para a Italia de preferencia á França, onde se acham seus collegas Amoedo e Monteiro que seguem, mais ou menos, o mesmo genero de pintura?

Não queremos, por ora, manifestar nossa opinião sobre o talento desses artistas que ainda estão estudando. Mais tarde, elles se encarregarão de o patentear por meio de composições mais importantes, onde a imaginação artística na composição de um assumpto e o savoir faire no modo de executal-o, permittirá formar uma opinião mais segura.

Por ora, nos limitares a dizer que Roma offerece muito mais vantagem a quem quer estudar do que Paris. Esta grande capital, tem a vantagem, é verdade, de ver para ahi affluir tudo o que ha de melhor em materia d’arte; as suas exposições annuaes no salon dão uma idéa geral do movimento artistico de todos os paizes; mas isto será sufficiente para quem precisa estudar? Não nos parece. Será muito bom talvez para quem já sabe e que só preciso vêr; mas para quem pretende apprender não ha outro paiz senão a Italia e sobretudo Roma, onde se reunem os melhores alumnos de todas as academia do mundo, que para ahi são enviados pelos seus respectivos governos para aperfeiçoarem-se nas artes da pintura, esculptura, architectura e musica.

Essa quantidade de moços de talento, vindo de toda a parte, formam um conjuncto artistico como não se encontra em parte nenhuma do mundo. Roma será sempre a capital da arte; é esta a sua especialidade. Paris é a capital do engenho humano, quer da sciencia, na industria ou nas artes, mas, só em tempos determinados, por occasião das suas grandes exposições.

Quem quer aprender vá a Roma; quem quer vêr ou expôr vae a Paris.

Henrique Bernardelli foi para a capital da Italia; elle queria estudar e não podia escolher melhor.

Eis ahi a vantagem que vemos nas suas pinturas sobre a dos outros seus collegas da Academia, que estão na Europa.

Os seus quadros já são bem aceitos nas exposições da Italia e de Paris e o mais brilhante futuro espera o jovem pintor que muito honra a nossa Academia das Bellas Artes, apezar desta ter sido algum tanto injusta para com elle.

Notaremos, de passagem, que o Henrique Bernardelli não foi pensionista da Academia, mas sim do seu irmão Rodolpho, que dividio a sua pensão para elle poder estudar.

Hoje, procurando ainda ajudal-o, Rodolpho Bernardelli reuniu varios quadros e grande quantidade de estudos, emquadrou-os em elegantes e originaes molduras e espera que o publico de bom gosto os levará para a casa para ornar os seus salões.

Por nossa parte podemos garantir que os quadros de Henrique Bernardelli representam uma boa collocação de capital. Comprar uma obra artistica, é o mesmo de que comprar uma acção de uma empreza cujos lucros, ás vezes, quadruplicam e mais o valor da mesma acção. Estamos convencidos de que com os quadros do Henrique Bernardelli acontecerá o mesmo.

Admittindo que algum pessimista nos diga que o nosso calculo é duvidoso, ainda assim podemos garantir, e ninguem nos contestará, que, a compra de um desses quadros é sempre uma boa acção.

Nessa mesma exposição acham-se algumas paysagens do Sr. Fachinetti.

Parece-nos inutil fallar desse sympathico artista, já tão conhecido de nosso publico.

Estamos convencido de que elle encontrará apreciadores, pois que em materia d’arte, ha gostos para todos os generos. O systema de pintar do Sr. Fachinetti pertence a elle só, em qualquer galeria de quadros de algum amador fluminense, e ainda mesmo collocado muito alto, com toda a facilidade se dirá: aquillo é um Fanichetti.

No salão Vieitas, onde o publico vê sempre expostos objectos d’arte e de fantasia, como bronzes, quadros á oleo ou aquarellas, louças porcellanas artisticas, gravuras etc., o Sr. Castagnetto vae expor um grande numero de quadros.

Ainda não os vimos mas estamos convencidos que devem agradar.

O Castagnetto tem muito talento e no genero marinha que elle adoptou, elle chegará um dia a ser notado como um dos melhores pintores.

Que os expositores sejam felizes e que seus quadros sejam bem aceitos na opinião dos amadores e sobretudo nas suas salas, é o que desejamos.

---

Do insigne gravador Sr. Leopoldo Heek recebemos um bello especimen de gravura, primorosamente executado, e que bem póde soffrer o confronto com as produções similares, que nos veem do extrangeiro.

X.

1886, ano XI, n. 442, p. 3.

Exposição artistica

Continua aberta e tem sido muito frequentada a exposição de quadros de Henrique Bernardelli e Nicolau Fachinetti, na Imprensa Nacional.

Com a remessa de mais quatro quadros, ultimamente vindos de Roma e que se acham igualmente em exposição, podemos garantir e sem receio de sermos contestado por gente que entenda de pintura, que o Sr. Henrique Bernardelli é o pintor brasileiro que mais se tem distinguido até hoje.

Sem assinatura. 

1886, ano XI, n. 444, p. 3 e 6.

Bellas-Artes

            Encerrou-se no domingo, 5 do corrente, a exposição de Henrique Bernardelli, na Imprensa Nacional.

            A concurrencia do publico, apezar de não pequena, ainda assim, não correpondeu ao que esperavamos em relação ao merito dos trabalhos expostos. Segundo a opinião de alguns, foi isso devido á falta de reclames. É possivel que assim seja; mas se o artista de merito tem de lançar mão de annuncios pomposos para chamar a attenção publica, como fazem os charlatães, para impingirem suas drogas, é preciso concordar que é bem triste semelhante expediente, que colloca a arte na mesma altura que a Herva Homeriana ou a Salsaparrilha de Bristol!

            Outra vantagem do annuncio, sobre tudo quando este é grande ou repetido varios vezes, é chamar sobre o assumpto annunciado a attenção da folha ou a benevolencia da critica.

            Ainda hontem tive uma prova disso, fallando com um collega, que taxou de estopada as corridas no Hyppodromo Guanabara.

            - Como assim?

- Ora imaginem; a gente toma a barca Ferry para ir ao Porto das Neves; á chegada quasi sempre a barca encalha, ora para a direita, ora para a esquerda; toca a andar para traz, depois para diante; com o movimento das rodas a agua torna-se escura, pardacenta, grossa, e fedorenta; e depois de algum tempo de vae e vem, desembarca-se no tal Porto das Neves, que muito melhor seria chamar-se porto da lama.

- Creio que não é absolutamente necessario teres o incommodo de lá ir. É facil saber se do resultado dos diversos pareos, por meio de informações que...

- É impossível; não tenho remedio senão ir. Pois não viste que bom annuncio elles mandaram?...

---

Rodolpho Bernardelli não mandou annuncios para a imprensa, nem tão pouco fez o menor pedido ás redacções, para fallarem dos quadros do seu irmão. Enviou convites a todas as folhas e esperou que estas manifestassem a sua opinião.

Assim, entendemos nós, devem proceder os artistas serios e de merito reconhecido.

Infelizmente, com a maioria de nossos jornalistas, esse systema nem sempre produz bom resultado para os que contam com a opinião imparcial da imprensa.

Não posso explicar d’outro modo, a frieza que notou-se em quasi todos os artigos concernentes a essa bela exposição artistica e em muitos dos quaes liam-se os maiores disparates.

A não ser O Paiz que soube notar a boa impressão que lhe poduziu o bello talento do Henrique Bernardelli, os outros jornaes falaram d’este, não como de um artista já feito, mas como de um moço que dá boas esperanças, para o futuro!

Ora bolas, para os taes criticos...

Se depois de sete annos, que o Bernardelli está em Roma e estudando muito, elle só consegue dar esperanças, o melhor é aconselhal-o a largar os pinceis, ou vir então para o Rio de Janeiro, estudar pintura com os nossos criticos.

E se o Bernardelli não fizer isso, está perdido para a arte, (nacional bem entendido).

Ninguem imagina as altas capacidades que temos na imprensa, para tratar de bellas-artes! São verdadeiros maestros.

E, para provar o que aqui fica dito, transcrevemos alguns trechos do artigo Bellas-Artes publicado na ultima “Semana” e que muito nos fez rir. Ahi vae essa grande peça artistica:

..........................................................

A obra, embora não accuse um mestre, é, hoje, grande promessa de um artista do futuro. Feita por uma verdadeira vocação artistica, illude muito, mormente aos julgadores inexperientes; mas uma analyse regular, e imparcialmente feita, nos dá a conhecer certo maneirismo de toque, certa falta de precisão no empasteamento das tintas, como se a mão vacillasse na escrima da espatula, e, para affectar largueza fosse accumulando tinta e mais tinta”.

- Accumulando asneira e mais asneira, é o que fez o illustre critico, com o que ahi está escripto; mas, vamos adiante:

Noto, tambem, abuso de tons azues e de sombras, violaceas, já nas figuras já nas paizagens”.

Se o illustre critico se desse o trabalho de reflectir, veria que as paisagens e figuras feitas em pleno ar, não podem deixar de participar da luz do céo: e sendo este azul, toda a parte que não for illuminada pelo sol ha de ser forçosamente azulada, sobretudo nos planos mais distantes. Continua o mestre:

Para que houvesse uma razão de ser na prodigalidade de sombras violaceas, seria preciso que os corpos illuminados fossem de uma determinada côr, isto é, amarella”.

Não me consta que outra qualquer côr refflicta sombras ligeiramente roxas” !!!

- Só na cabeça do illustre critico é que pode haver côr violacea ou roxa, feita com amarello!

Ahi vae uma tirada impagavel e com a qual termina tão sabia e succulenta critica:

Entre os quadros expostos figuram alguns que estão em desharmonia com as aspirações estheticas do nosso tempo (!) - Estes parenthesis são nossos - “Bacchanal, Depois da Bacchanal, Banhos romanos e Profano-sacro, são obras sem o minimo interesse, porque são inuteis. (?!) A arte moderna tem um destino a cumprir - é a cooperadora da organisação social” (!!!)

Toda obra que, nesta épocha, se fizer sem o cunho caracterisrico do enorme movimento que se opera em todas as sociedades civilisadas, por melhor pintada que seja, tende, fatalmente a cahir e a desapparecer da chronologia dos productos artisticos do ultimo quartel do seculo dezenove” (!!!!)

Com uma lição destas, dada por tão abalisado critico, o Henrique Bernadelli não tem outra cousa a fazer, senão pegar nos quadros das Bacchante e outros acima mencionados, que se acham em desharmonia com as aspirações estheticas do nosso tempo, fazel-os desapparecer da chronologia e das vistas do nosso illustre critico e pintar individuos de cartola e casaca, n’uma payzagem em que se vejam muitas chaminés, locomotivas, fios electricos, bonds etc etc, tudo enfim que tenha o movimento que se opera em todas as sociedades civilisadas.

Fazendo isto e empregando amarello para fazer tintas violaceas e roxas, terá conseguido uma grande victoria e os applausos do nosso primeiro critico em malas-artes. Tão pouco não dará motivo a esta phrase, com que elle termina o seu artigo:

Os pintores das plaisanteries tiveram - sua época”.

Outro tanto não se póde dizer do escriptor d’estas plaisanteries que assigna-se Alfredo Palheta.

Esta palheta é, naturalmente, a tal que serve para o famoso amarello nas tinas rôxas.

Não teriamos dado a menor importancia a esse amontoado de tolices, se estas não viessem publicadas n’um jornal tão conceituado, como é A Semana e cujos redactores principaes tanto estimamos pelo seu talento e illustração.

Mas não podiamos deixar passar tantos disparates e tanto pedantismo da parte de um individuo que tem a petulancia de querer passar por entendido aos olhos do publico, quando, na realidade, elle não passa de um... tolo, muito ignorante.

Queiram desculpar os collegas Valentim e Felinto tão rude franqueza.

Se um dia, quem firma esta sarabanda, se lembrar de querer criticar-lhes algum artigo litterario, caiam-lhe em cima de riho e sem piedade. Mas d’isso estamos livres, pois só costumamos fallar d’aquillo de que entendemos perfeitamente.

Digam, pois, ao tal Sr. Palheta que trate d’outro officio.

Henrique Bernardelli está tão altamente collocado, como pintor, na opinião dos que entendem de arte, que não se pode deixar de reconhecer que o Sr. Palheta deu-se a um grande disfructe, em querer dar-lhe uma lição de pintura.

X. 

1886, ano XI, n. 445, p. 7.

Artes & Industrias

Os Srs. Pacheco & Filho, acabam de apresentar mais uma novidade ao publico, com a exposição que fizeram, em seu estabelecimento photographico, á rua do Ouvidor 102, de um novo systema de retratos em porcellana, vitrificados a grande temperatura.

Já todo mundo sabe que os retratos esmaltados por esse modo, são indeleveis á acção da luz, do ar e do tempo, e duram seculos; o que não acontece com os originaes em quem o tempo - este perfido - com toda a semcerimonia e ferocidade, altera as feições por meio de rugas, que ninguem pede, branqueia os cabellos e disforma o corpo. É horrivel!

A sciencia tem dado grandes passos, mas ainda não chegou á maxima perfeição!

Quando se descubrir o meio de fazer-nos viver seculos, sem alterar as nossas feições, então sim; mas, emquanto se tratar, simplesmente, das nossas veronicas, as grandes descobertas, com certesa, ainda não disseram a sua ultima palavra.

Verdade, é, que o Sr. Pacheco declarou-nos que esses retratos são mettidos n’um forno e passam por uma temperatura de 1200 gráos de calor! Irra!

Apezar do nosso desejo de viver muitos annos, não estamos muito resolvidos a supportar tamanho suador!

Esses retratos que o Sr. Pacheco & Filho acabam de expôr, podem ser obtidos por um preço tão modico, que esta ao alcance de qualquer.

Uma grande companhia, que actualmente, funcciona na Inglaterra, conseguio o fabrico deste producto que tem por base a photographia; por este meio, a companhia acha-se habilitada a fornecer, para toda parte do mundo, retratos esplendidos sobre chapas de porcellana, bastando, para isso, enviar-lhe os retratos em papel ou clichês photographicos.

Os esmaltes que, até hoje, custavam centenares de mil reis, podem ser obtidos actualmente, pelos preços de dez até 50$000.

Esta grande revolução na arte photographica, é toda em favor do publico, o qual, por uma insignificante quantia, poderá guardar eternamente a imagem dos entes que lhes são mais caros.

Quem quizer pois aproveitar essas grandes vantagens de uma nova industria criada em beneficio de todos, dirija-se aos Srs. Pacheco & Filho, que tratarão de satisfazer esses desejos.

X.

1887, ano XII, n. 447, p. 3.

Bellas Artes

Um destes dias fui convidado para ir ver um novo quadro que se acha no paço municipal. Para lá dirigi-me, ou antes, dirigimo-nos, pois que eu estava em companhia do autor do dito quadro, o Sr. Pedro Peres.

Se, bem que este já me tivesse prevenido que o seu trabalho se achava collocado muito alto e em pessimo luz, nunca pensei que me causasse tão má impressão. Debalde o artista fechava umas janellas e abria outras; em vão eu aproximava-me ou recuava, procurando o melhor ponto de vista, ora indo para a direita ora para a esquerda. Um sem numero de reflexos insupportaveis brilhavam, aqui e acolá, de modo que me era quasi impossivel perceber o quereproduzia essa tela, de não pequena dimensão.

As janellas muito baixinhas e estreitas para uma sala d’aquellas proporções, cuja largura e comprimento contam-se por dezenas de metros, só deixa entrar a luz até menos da metade do assoalho; este, a seu turno, a reflete sobre o quadro, ou melhor, os quadros, pois que lá existem outros.

Imaginem, que luz!

A cara do Peres não exprimia, positivamente, um grande contentamento, e pareceu-me até notar no seu olhar a mais profunda indignação, quando se dirigia para as malditas janellas!

Se o architecto, que construio o municipal edificio, apparecesse, na occasião, creio que teria recebido a mais valente descompostura que póde passar um pintor - em desespero.

Excusado é dizer que eu o teria ajudado.

Mas voltemos ao quadro: Representa elle uma das sessões festivas da nossa Municipalidade, em que os illustres edis remettem á Serenissima Princeza Imperial um certo numero de cartas de liberdade, para a mesma Augusta Princeza entregal-as aos escravos, que, desse momento em diante, passam a ser livres como qualquer cidadão. É nestas festas que a imperial voz de S. M. costuma dizer aos vereadores: Prosigam ou Não esmoreçam, ou Espero não morrer sem ver livre o ultimo escravo. Palavras essas que a Historia registrará, com o maior jubilo e satisfacção.

Se D. Pedro II nada fez para a abolição da escravatura, ao menos mostrou que tinha boas tençôes!

É o que dirá a historia.

Mas, tornemos a voltar ao quadro. Oh diabo! Aquelles reflexos são insupportaveis!

Mas emfim, dando o devido desconto aos ditos, vemos que no centro acha-se o throno, emmoldurado por um riquissimo docel, diante do qual vê-se o Imperador, a Imperatriz, o conde d’Eu e a Princeza entregando as cartas, a um grupo de escravos.

Á direita do quadro estão os vereadores, muito bem agrupados, assim como algumas senhoras e meninas. Á esquerda veem-se outros grupos, o dos libertandos, e outro, onde se distingue perfeitamente alguns membros do corpo diplomatico e varios figurões com fardas ou sem ellas. Grande quantidade de meninas, vestidas de branco, veem até o primeiro plano. Nesse grupo é que se póde notar..

Maldicto reflexo! O melhor é não notar nada, por ora.

Digo por ora, porque o Sr. Peres faz tenção de pedir licença á illustrissima e nova Camara, para mandar o quadro para a Academia das Bellas Artes, na primeira exposição que houver.

N’essa occasião, é que poderei tratar, mais detidamente, d’este quadro, um dos mais importantes e trabalhosos, que se tem pintado no Rio de Janeiro.

Limito-me, por ora, a dizer a minha impressão sobre o todo d’elle, sem entrar em detalhes.

Agradou-me muito e fiquei, realmente, sorprehendido de vêr o Peres sahir-se tão bem, de uma empresa tão difficil, como essa.

Aceite o jovem artista os meus sinceros parabens.

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Os alumnos da Academia das Bellas Artes fizeram uma exposição n’uma das salas terreas do edificio, onde, tambem, a luz não prima pela abundancia.

Ahi, porem, longe de ser um mal, é um bem; e se a maior parte d’aquelles ensaios, que lá estão expostos, se achassem em plena escuridão, seria, para os seus autores, um verdadeiro beneficio.

Como não havia catalogo, na occasião em que lá fui, não me é possivel especificar alguma cousas melhores, que vi, e, entre essas, varias aquarellas. Sei que um busto, um esboço, é feito por Sr. Berna, moço cheio de boa vontade e trabalbador [trabalhador], que, com certesa, chegará a ser alguma cousa, um dia, se continuar, sempre, a trabalhar com o mesmo affinco.

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Quem tambem trabalha muito e com verdadeiro enthusiasmo, é o França Junior.

Ultimamente, esteve em exposição na Glace Elegaute [Elegante] uma sua paizagem, em que se via, no ultimo plano o Corcovado. Essa tela, pintada com simplicidade, tem uma justesa de tom e um effeito dos mais agradaveis.

Com certesa, é uma das melhores que o França Junior tem produzido. Parabens, pois, ao distincto amador.

X.

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N. B. - Este amador, como todos sabem, é o Dr. França Junior, mas em materia de arte, não se quer saber de titulo de Doutor.

Quando elle estiver no seu juizo, então sim senhor. Mas, como aqui se trata do pintor e não do curador de orphãos, zas! riscamos o doutor. Tenha paciencia.

1887, ano XII, n. 457, p. 3.

Pequenos Echos

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O distincto pintor Firmino Monteiro, tão justamente apreciado por todos os que teem o sentimento da arte, prepara uma exposição dos seus ultimos trabalhos.

Ahi terá o publico occasião de vêr e apreciar os progressos realisados pelo artista, e ao mesmo tempo verificar que elle não tem estado inactivo.

Contamos que o publico suffrague esses bellos trabalhos, com o apreço de que elles são, a todos os respeitos, dignos.

***

Dominó.

1887, ano XII, n. 459, p. 2.

Palestra

É, a todos os respeitos, lamentavel a situação dos artistas no Brasil.

O publico, pouco preparado para o movimento artistico, nem sempre lhes dá os subsidios de que são dignos, e que se lhes tornam indispensaveis á vida.

O Estado, esse, gasta alguma cousa, mas sempre movido pelo espirito politico e pelos empenhos.

D’ahi uma crise permanente, que obriga os artistas a abandonarem o seu ideal, a viajarem como mascates, e a cuidarem, em vez de obras de arte, de obras de encommenda.

Ao fim de alguns annos, o cansaço e o desalento toma os melhores indoles, e as vocações mais promettedoras estiolam-se. Os que, por excepção, querem conservar o fogo sagrado, refugiam-se no estrangeiro, ficam n’uma especie de exilio, que tambem não lhes dá grande alento, pois passam a soffrer a nostalgia do paiz natal.

É uma desgraça!

Os paes previdentes, que quizerem preparar um futuro risonho a seus filhos, terão de prohibir-lhes que toquem com os labios, a taça encantadôra e maldita, por onde se bebe a sêde de gloria, que, em outros paizes, tem coberto de louros a fronte dos predestinados!

Aqui, tudo se conjura, para tornar o artista de vocação uma victima infausta.

E das manias, que a respeito de bellas-artes soffre uma parte do publico, havia assumpto para escrever bons e interessantes volumes de anecdotas.

Agora mesmo um caso d’esses vem á suppuração.

Tratemos d’elle.

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Todos sabem que aqui ha uns 8 annos se levantaram fortes subscripções que attingiram, umas, a centenas de contos e outras a sommas muito regulares, para se elevarem estatuas a Caxias, Marquez do Herval etc.

Depositado, nos bancos, o producto de taes subscripções, parece que ninguem mais pensou em tal. Os annos teem decorrido, sem que nada se faça.

Agora, porem, apparece a noticia de que a commissão promotora da estatua a Caxias estava resolvida a applicar os 120 contos destinados a esse effeito.... a um Asylo.

Com que direito? perguntamos.

Pois seremos nós um paiz de tal ordem caracterisado, como de mendigos, que só se pense em asylos?

Pois os que subscreverem para que se elevasse uma estatua, hão de ver agora, sem serem consultados, as suas contribuições applicadas a outro fim?

Quem auctorisou a commissão a fazer tal?

É claro, que no trabalho de uma estatua, não pequeno numero de artistas poderá usufruir algum lucro. E, até esse magro resultado lhes querem tirar!

É de tal modo revoltante a decisão da commissão, que nos recusamos a dar-lhe credito.

Acham que os escandalos e as vergonhas são poucas, com os estabelecimentos do genero, que por ahi ha?

Ou haverá, algum negocio de olho, com qualquer casarão em ruinas, que se quer comprar por bom preço, á custa de estatua de Caxias?

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Depois, suppondo que se faz a coisa, o asylo, o necroterio, ou lá o que diabo é, com que meios hão de sustental-o?

É uma miseria!

E o que mais nos revolta é o appêllo que n’estas occasiões, sempre fazem ao utilitarismo.

Pois haverá maior utilitarismo do que o moral?

Todo esse povo, que crusa um largo, aonde se ergue a estatua de um patriota, não leva comsigo uma semente do bem, não pensa ou não falla nos actos, do heroe ou do bemfeitor, que a nação sagrou, grata aos beneficios que lhe deve, e que ali está recebendo homenagens da posteridade?

Provavelmente, é mais util, que o povo falle do preço dos fornecimentos e das obras de algum asylo asqueroso, n’uma terra que já tem diversos, quasi perecendo á mingua ou vivendo de donativos particulares ou de trabalho esforçado dos asylados?

Não sabiamos que a burguesia fluminense era tão iconoclasta!

Mas, nós nos opporemos a essas torpes machinações, que nem sequer respeitam a memoria sagrada dos mortos e os sentimentos do povo.

E as estatuas hão de ser erigidas.

Voltaremos ao assumpto.

Sem assinatura. 

P. 6 e 7.

Bellas Artes

Fui um dia d’estes ao Gremio de Lettras e Artes, rua do Hospicio n. 93, sobrado.

D’esta vez não havia lettras, só vi a arte, e esta representada por varias paisagens de pequenas dimensões. Em compensação via-se uma, mas colossal e mettida n’uma... moldura ainda mais colossal.

Olhei com attenção para todas ellas e vi que realmente o Parreiras tem progredido bastante, na difficil arte de botar tinta sobre tela. O jovem artista tem vontade de chegar a ser alguma cousa, e, pelo muito que já tem feito, não tendo tido, por assim dizer, mestres, é provavel que, se o ajudarem, consiga realizar os seus desejos.

Não pretendo fazer critica d’esses quadros, apontando defeitos aqui e acolá, como fazem alguns, a torto e a direito, nem tão pouco pôl-os nas nuvens como tambem fázem muito. Gosto de fazer observações, mas é em particular, aos artistas quando m’as pedem.

Se o Parreiras não tivesse merito nem jeito para a arte eu dir-lhe-ia francamente: mude de officio. Mas como cejo que elle poderá vir a ser alguma cousa, então digo lhe simplesmente: continue a trabalhar e que Deus e o publico o ajudem.

Se eu proclamasse, como já vi escripto em um jornal, que elle é o primeiro paisagista brazileiro, elle tomaria isso por debique da minha parte e teria razão.

*

Castagnetto está nas mesmas condições de que o Parreiras; tem igualmente muita habilidade e algum talento, mas se continuar muito tempo a pintar no Rio de Janeiro, elle conseguirá apenas encher telas com tina, mas nunca pintará um só quadro que tenha merecimento.

E isto que vae dito, não é porque, entre nós, um artista não possa chegar á perfeição no genero da pintura que escolhe, sobretudo sendo paisagens ou marinhas. O Rio de Janeiro, melhor que nenhuma outra cidade do mundo, apresenta uma natureza propria para estudos de paisagens, assim como um porto de mar e uma bahia, talvez a mais bella do mundo, onde um pintor de marinha tem campo vasto para produzir centenas de quadros, cada qual mais variado.

Quando digo que os artistas não devem ficar aqui, é unicamente por causa dos nossos criticos em bellas artes, que, não entendendo absolutamente nada desta materia, concorrem poderosamente para arruinar qualquer vocação artistica com elogios bombasticos e estapafurdios, a proposito de qualquer borracheira pintada.

O resultado d’isto é que quasi todos os que foram enthusiasticamente elogiados pela nossa imprensa, tem ido para traz ou ficaram completamente estacionarios por julgarem ter attingido ao nec plus ultra da perfeição.

*

Castagnetto tem sido cantado em prosa e em versos por quasi todos os soi disant escriptores de bellas artes que, por desgraça do publico e dos artistas, escrevem nos jornaes desta Côrte. Pois bem, fui vêr o seu ultimo trabalho que está exposto na rua do Ouvidor e... vi que deixa muito a desejar. Porque? Porque Castagnetto julga já ser um grande artista, e metteu-se a pintar um quadro acima de suas forças.

Não notarei os defeitos aqui, pois seria muito longo: são tantos... Mas estou prompto, quando elle quizer, tanto a elle como a seus admiradores, a apontar os erros gravissimos que existem em todo o quadro.

É possivel que os seus enthusiastas não se convençam, pois que nada ha como a ignorancia para ser teimosa; mas elle, com certeza, entenderá e verá que tenho razão.

            Se quizer um conselho, eil-o:

            Faça o possivel para sahir do Rio de Janeiro e ir á Italia estudar.

            E depois de muito estudar, verá que ainda tem muito que aprender, mas, ao menos, pintará cem vezes melhor do que pinta hoje.

            É possivel que nessa occasião os nossos illustrados criticos lhe mettam as botas.

            É a melhor gloria que possa ter, pois que só gostam do que é mediocre.

*

            Uma boa e importante noticia sobre a arte é a encommenda da estatua equestre do general Ozorio.

            Bernardelli vae dar mais uma prova do seu immenso talento e a cidade do Rio de Janeiro será enriquecida com um monumento de grande valor artistico.

Os subscriptores para a estatua do denodado guerreiro, terão occasião de verem realisados os seus desejos de immortalizar-se em bronze um dos maiores vultos da nossa historia.

Damos os parabens á commissão encarregada de mandar executar o monumento, tel o [tel-o] confiado ao primeiro artista brazileiro, que por seu talento tem honrado a arte nacional no estrangeiro.

Como todos os brazileiros, Bernardelli sentiu pulsar o seu coração ao acompanhar, por occasião da guerra do Paraguay, os feitos heroicos de legendario general.

Elle não executará simplesmente uma obra d’arte perfeita e correcta; o que sahir de suas mãos ou antes da sua cabeça, será uma obra patriotica.

Parabens ao paiz.

*

Como o Jornal do Commercio deu, ha dias, noticia que a commissão encarregada de mandar executar o monumento do Duque de Caixias [sic], resolvêra empregar a importancia da subscripção em comprar uma casa para um asylo, não posso deixar de dar os pezames a todos os subscriptores que foram enganados pela commissão.

Esta não pode assim dispôr de uma quantia superior a 120 contos de réis para dar-lhe um destino diverso d’aquelle para que era destinada.

Não ouso ainda qualificar esse procedimento, porque custa a acreditar que os cavalheiros que fazem parte dessa commissão sejam capazes de mal proceder n’um negocio tão melindroso como esse.

Procurarei pois ter todas as informações precisas para voltar a esse assumpto que me parece bastante grave.

X.

1887, ano XII, n. 462, p. 6 e 7.

Bellas Artes

De algum tempo a esta parte a pintura tem tomado um incremento extraordinario.

Nada menos de quatro exposições em pouco mais de dois mezes, fora alguns quadros avulsos, expostos na rua do Ouvidor.

Os amadores da pintura tiveram occasião de aprecial-a em quasi todos os seus generos, vendo as marinhas de Castagnetto, as paizagens do Parreiras, as fructas do Estevão Silva, alguns retratos de Decio Villares, cuja maestria no pincel e delicadeza de colorido ninguem eguala, os quadros historicos de Firmino Monteiro e por ultimo o quadro de genero de Belmiro de Almeida, intitulado Arrufos e que tem causado um verdadeiro successo.

Já não se pode dizer que não temos arte entre nós, nem artistas que não trabalham: o que falta é serem estes animados pelo publico, que não só deve ir vêr os seus quadros como tratar de adquiril-os.

O Sr. Firmino Monteiro expoz, n’uma das salas da Academia das Bellas Artes, nada menos de quatro grandes quadros historicos, tres de genero, tres paizagens e alguns estudos.

Tudo isso foi pintado em menos de dois annos, o que parece incrivel, a vista da importancia dos assumptos escolhidos, que obrigam a executar muitas figuras e uma infinidade de detalhes que por si só demandam muito tempo e paciencia. Não ha duvida que o Sr. Monteiro tem feito innumeros progressos sobre a rapidez de execução e é provavel que d’aqui a mais dois annos, elle nos apresente oito grandes quadros historicos e não sei quantos de genero. Mas um dia o fertil pintor não encontrará sala bastante grande para expor os seus quadros, o que lhe causará serio embaraço; é bom que pense n’isso e resolva-se de uma vez a progredir na qualidade e não na quantidade.

Eis o que a seu respeito dissemos, em Outubro de 1884 por occasião da exposição da Academia das Bellas Artes:

O Sr. Monteiro não tem ainda bastante conhecimento de desenho para atirar-se a composições d’estas, sem primeiramente estudar bastante do natural.

Intelligente activo, e trabalhador, tem todos os requisitos necessarios para o successo, se para lá chegar, tomar o bom caminho. Não é pintando muitas telas: é pintar pouco, porém bem.

Aconselhamol-o pois a que estude bastante, antes de apresentar quadros historicos ou de genero”.

O que dissemos em 1884 é o que repetimos em 1887.

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Na casa Dewilde á rua 7 de Setembro n. 102, n’uma salinha construida expressamente para exposição de quadros e ornamentada com gosto verdadeiramente artistico, vimos os trabalhos de Belmiro de Almeida, entre os quaes destacam-se alguns que denotam no joven artista um verdadeiro talento para a pintura e um certo desembaraço em atirar-se ao modernismo, deixando as convenções antigas para atacar corajosamente o realismo, com todas as suas bellezas e estravagancias artisticas.

A viagem que ultimamente fez a Europa, foi curta para poder estudar convenientemente, mas foi bastante para abrir-lhe os olhos e em menos de um anno, Belmiro conseguir dar um passo gigante.

Se elle tornar a ir de novo a Europa e estudar, o paiz contará com mais um artista notavel, do que muito precisamos para nosso desenvolvimento artistico, algum tanto atrazado e academico.

O quadro intitulado Arrufos que o Belmiro expoz, causou-nos a mais agradavel sorpreza pela sua esplendida execução. Alguns pequenos senões que só um artista poderia notar, desapparecem diante a harmonia geral do quadro, um dos mais bellos que se tem pintado no Rio de Janeiro.

Ao Belmiro os nossos sinceros parabens.

X.

1887, ano XII, n. 463, p. 3 e 6.

Bellas-Artes

Voltando á exposição de quadros do Sr. Firmino Monteiro, na Academia das Bellas-Artes, ahi vimos os trabalhos da Exma. Sra. D. Bertha Ortigão, distinctissima amadora e filha do grande escriptor Ramalho Ortigão.

São oito télas, e, destas, duas de figuras representando um retrato e uma camponesa, quatro de flôres, uma de natureza morta e outro de paysagem. Esta ultima, pequenina e collocada muito alto, não pudemos observal-a bem; todavia causou-nos boa impressão.

As quatro télas de flôres são muito justas no tom e bem pintadas; a natureza morta executada valentemente, bien empâtée nas luzes e transparente de tom, produz excellente effeito, tanto de perto como vista de longe.

O Retrato e a Camponeza estão bem tratados, causando esta ultima agradavel impressão, pela originalidade dos trages.

São oito telas, representando quatro generos diversos, que revelam muito estudo, nenhuma pretensão a effeitos convencionaes e muita simplicidade na composição, ás vezes, até em demasia.

Na maior parte d’ellas a côr é justa e bem comprehendida, a execução franca e o desenho bem cuidado.

Desejariamos, porém, que a distincta amadora procurasse illuminar menos os seus quadros. Obteria, com certesa, melhores effeitos de luz e portanto mais relevo, sem maior e até com menor trabalho.

Sabemos que hoje trata-se obter verdadeiros tours de force procurando destacar objectos claros sobre fundo claro, despresando completamente as combinações de claro escuro, mas, raramente, produzem bom effeito e cahe-se facilmente no chato e no duro. Um objecto illuminado de frente nunca terá o mesmo relevo do que recebendo a luz de lado.

Por mais que se queira imitar a natureza, esta tem tal pujança de côr, que é impossivel ignalal-a, sem empregar algum artificio que produza, por meio do contraste das côres e uma boa combinação de luz, o effeito que se deseja ou que mais se aproxima do natural.

Somos apologistas da escola moderna, mas, como em todas, esta, tendo suas bellezas tem, tambem, suas extravagancias. Ficar-se em um justo meio, tal parece nos ser o mais acertado caminho que possa escolher um artista.

A boa impressão que nos causaram os trabalhos da Exma. Sra. D. Bertha Ortigão não nos surprehendeu.

Além dos mestres que tem tido, ha um que a accompanha sempre, e é de todos o melhor. Excusado é dizer que nos referimos ao Sr. Ramalho Ortigão, cuja penna transforma-se, muitas vezes em primoroso pincel, para apresentar aos olhos de seus leitores os mais bellos quadros. Com tal mestre para insinar-lhe a interpretação da natureza, estamos convencidos que em pouco tempo a distincta amadora se tornará uma verdadeira artista.

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            Outro amador, o Dr. França Junior, vae cada dia subindo, palmo a palmo, a grande e ingreme ladeira que conduz ao successo. Se elle olhar para a frente, verá que tem muito que andar ainda; mas, em compensação, se olhar para traz, terá a satisfação de ver que o ponto de onde partiu tambem está longe; e isto deve animal-o a proseguir e a avançar, com a mesma coragem, que tem tido até hoje.

            O seu quadro, ultimamente exposto na rua do Ouvidor, é uma prova de que elle vae cada dia progredindo e por esse motivo damos-lhe os nossos sinceros parabens.

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            Outro, tambem que vae caminhando pela mesma ladeira, luctando com mil difficuldades, mas cheio de coragem, é o Sr. Parreiras.

            Ainda tem muito que andar, mas já percorreu boa porção de caminho e isto deve animal-o a ir para diante. Vê-se na rua do Ouvidor um grande quadro, que elle expoz ultimamente, representando uma paizagem na qual nota-se muito estudo e real progresso.

            Todavia, ha uma cousa, no seu trabalho, que mais tarde elle comprehenderá melhor, com a practica e a observação da natureza: é o ceu estar em completa desharmonia como a hora em que pintou a sua paizagem. Modificando isso, como espero que fará mais tarde, o seu quadro ganhará immensamente e poderá ser considerado um trabalho de real merecimento.

            Avante pois e não pare! Não faça como outros que julgaram ter chegado ao ponto final e vencido todas as difficuldades, e estão actualmente rolando pela ladeira abaixo, sem se aperceberem disso, por terem dado ouvidos a louvores exagerados de imbecis que nada endendem de arte e só servem para perder aquelles que lhes prestam attenção.

            O orgulho e a vaidade são os maiores inimigos da arte, e, por mais que saiba, o verdadeiro artista vê sempre que tem muito que aprender. Avante pois, e trate de não rolar.

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            Os alumnos da Academia de Bellas-Ares entraram, afinal, em concurso de viagem para a Europa.

            São sete pintores e um architecto; este é carta fóra do baralho, e portanto um absurdo fazel o [fazel-o] concorrer com pintores. Além d’isso não está bastante preparado na arte a que se dedica, pois que pelo que vimos de seus trabalhos de architectura, elle não passa do b, a, ba.

            Julgou-se já uma capacidade e está completamente perdido, se não lhe acudirem a tempo. Tivemos a infelicidade de vêr alguns projectos de monumentos funebres que elle garatujou, do modo o mais estapafurdio. Tambem vimos o tumulo do Fagundes Varella executado no cemiterio de Maroim em Nitheroy e ficamos deveras indignado! Que grande attentado! Pobre Varella!!!

            D’ahi deduzimos que todos esses projectos de tumulos, feitos pelo o joven e sai disant architecto não serviram senão para enterral-o.

            Estamos promptos a estender lhe a mão e a tiral-o da cova, comtanto que deixe a vaidade de lado e se convença de que não sabe nada ainda e muito tem que aprender.

            Mude de rumo e encontrar-nos-ha sempre ao seu lado, animando-o e fazendo esforços para empurral-o para diante.

            O ponto escolhido para a composição do quadro do concurso é a Flagellação do Christo. Vejam lá os Srs. alumnos como vão tratar esse assumpto. Pelo amor de Deus não flagellem muito a arte.

X.

            1887, ano XII, n. 471, p. 6.

            Bellas-Artes

            Toda a imprensa tem sido unanime em censurar severamente o proceder da Congregação da Academia das Bellas Artes, em relação ao importante Concurso de viagem, para o qual se apresentaram sete pintores e um architecto.

            Como é sabido, é n’essa prova que se reconhece qual o mais habilitado, para ir á Europa, como pensionista do Estado, estudar mais 6 ou 8 annos para aperfeiçoar-se na pintura, esculptura ou architectura.

            Para isso deve haver o maior escrupulo na escolha dos professores, que tem de dar o seu parecer e parece natural que os mais habilitados sejam os escolhidos para esse fim.

            Pois bem, tudo quanto é natural, tudo quanto é justo, tudo quanto é onesto, é posto á margem, para commeter-se, na tal Academia de Bellas-Artes, que deveria antes chamar-se das más Artes, as mais clamorosas e repugnantes injustiças!

            Ali, o merito não tem o menor valor e essa casa tem poderosamente contribuido para atrophiar a arte entre nós e desgotar os que tem verdadeira vocação.

            Com o tal concurso, duvidamos até da sua capacidade do director. Devendo elle escolher tres professores e dos mais habilitados para formar commissão que devia dar parecer sobre os quadros do concurso, nomeou o Sr. Bittencourt, professor de architectura, o Sr. Medeiros, professor de dezenho e o Sr. Mafra, professor de ornatos.

            Havendo um architecto no concurso, era natural a escolha do professor dessa materia; porém como se explica a não escolha do professor de pintura, apresentando-se sete pintores?

            Porque razão o Sr. director escolheu de preferencia o Sr. Medeiros ao Sr. Zeferino da Costa, professor de pintura historica? E o Sr. Mafra em lugar do Sr. Rodolfo Bernardelli, o artista mais distincto de entre todos os que tem havido na Academia?

            É que tanto este como o Sr. Zeferino não se prestam as machiavellicas combinações e jesuiticas intrigas de alguns membros dessa congregação de professores, que em bem da arte, ha muito tempo deveria ter sido... aposentada.

            O resultado dessa commissão incompetente, foi uma flagrante injustiça.

            Por essa razão elles protestaram contra o parecer da commissão que nem sequer ousou combater as razões apresentadas por esses dois distinctos e honestos artistas, por occasião da votação.

            Os Srs. Bittencourt, Mafra e Medeiros ficaram calados; só o Sr. Rozendo Moniz que não fez parte da commissão é que se atreveu a discutir arte com tão abalisados professores. Esta scena devia ser extraordinariamente comica e attingir ao cumulo do ridiculo.

            O Sr. Conselheiro Tolentino, se occupasse dignamente, a sua cadeira (fallamos como director e não como pessoa, cujas qualidades apreciamos) deveria ter obrigado os membros da commissão a discutirem o seu parecer antes da votação, para que elle e os outros membros da Congregação podessem votar com consciencia. Mas, assim não se fez. Pondo, immediatamente, a votos o parecer da commissão-carneirada dos professores, que nada entende de arte, votou a favor deste.

            O premio de viagem foi conferido ao Sr. Oscar Pereira da Silva, a quem não contestamos habilidade, mas que está muito longe do merito artistico dos Srs. Hilarião Teixeira da Silva e Belmiro de Almeida.

            Para nós e para todas as pessoas serias, que entendem alguma cousa da arte, estes dois deveriam ter sido os escolhidos.

            Fica-lhes, todavia, a gloria de terem tido o voto dos melhores professores da Academia, o dos Srs. Bernardelli e Zeferino da Costa, que acabaram por protestar contra tão iniquo julgamento.

            Em 3º lugar collocaremos o quadro do Sr. Eduardo Sá, discipulo muito estudioso, mas que infelizmente teve a má sorte de ter por mestres os Srs. Victor Meirelles e Medeiros que muito o viciaram no desenho. Nos outros quadros do concurso notam-se algumas qualidades que nos fazem esperar, da parte de seus autores, reaes progressos para o futuro.

            Não irão a Roma nem verão o Papa como, acontece actualmente com Hilariáo e Belmiro, mas terão o prazer de ver o publico applaudir os seus trabalhos.

X.

1887, ano XII, n.478, p. 6 e 7.

Bellas Artes

Ao De Palanque

Acha-se exposto, ao publico, n’uma das salas da nova Praça do Commercio em construcção, o modelo, em gesso, da estatua equestre do general Ozorio, executado pelo Bernardelli.

É mais uma prova do grande talento d’esse notavel artista, que o Brazil póde orgulhar-se de possuir.

A melhor descripção que podemos fazer d’essa importante obra d’arte, é o desenho d’ella, que brevemente publicaremos.

Lendo o De Palanque, do nosso collega Eloy, extranhamos algumas observações que, a respeito d’esse monumento, elle fez. Estamos, porem, convencidos de que reformará o seu juizo, examinando de novo o trabalho. O legendario e caracteristico poncho rebelde, lá está nos dois baixos relevos que representam duas batalhas das mais importantes, em que Ozorio tomou parte. Esses dois assumptos não estão acabados; posso até garantir que nem estão feitos; o que se vê ali, é apenas uma indicação ligeira de dois baixo-relevos, para dar uma idéia do que será o monumento. Ainda assim, o artista provou  bem claramente não se ter esquecido do poncho e da lança, que, no nosso entender, estão muito melhor collocado, ali do que na estatua.

Se Bernardelli o tivesse posto, como parece desejar o collega, o effeito seria simplesmente detestavel; essa grande massa de bronze cobrindo completamente o corpo do general deixando-lhe apenas apparecer a cabeça e as botas, daria uma perfeita ideia, vendo a estatua pelas costas, de uma collossal tartaruga a cavallo ou de uma não menos collossal concha marinha, privilegio que só tem Venus, e ainda assim, collocada debaixo dos pés e não sobre os hombros.

De maneira como a estatua está executada, não só ve-se a cabeça do heroe, como tambem o seu corpo. O movimento que este tem é cheio de energia e tudo isso sem ser forçado, sem procurar nem a pose nem o effeito. É o Osorio no acto de commandar as suas tropas, dando o signal de ávante.

Pela posição da cabeça, meia voltada para traz, vê-se que o general está á frente de suas tropas, ideia felicissima que teve o esculptor, que não podia representar senão uma figura.

A posição do cavallo é admiravel e sua execução esplendida, attendendo a se tratar de um simples modello, para dar ideia do que será o monumento, em grande. O collega sabe que esse projecto foi feito no côro da Candelaria e portanto n’um logar impossivel de fazer um estudo consciencioso, como o fará mais tarde, na execução da estatua, em atelier expressamente construido para esse fim e podendo ter diante dos olhos um cavallo que elle fará montar, para bem estudar todos os movimentos. Ora, se, em condições pessimas o artista tem conseguido fazer o que vemos actualmente, o que não fará quando der começo ao trabalho definitivo.

Alguns teriam preferido, talvez, ver o cavallo em posição mais brilhante, correndo, ou estacado ou empinado. Essa mesma ideia provavelmente a teve o artista; porém na practica, aquillo que nos parece bom em ideia, torna-se inexequivel.

Correndo ou galopando é impossivel, a menos de botar-lhe um tronco d’arvore por baixo da barriga para segural-o ao pedestal, o que seria horroroso.

Estacado, soffreado pela rédea dá ideia de parar, o que não vae muito de accordo com a divisa do general que era marchar ávante. Empinado, é uma difficuldade enorme de equilibrio para uma estatua de bronze, além do feio aspecto que representaria a pança do animal para quem visse a estatua de frente, ficando completamente escondido atraz do cavallo, o corpo do general.

A posição escolhida pelo artista é a mais adequada ao effeito que se deseja obter. De qualquer lado que se olhe a estatua, o aspecto do cavalleiro e do cavallo é admiravel.

Para nós, esse monumento representa, ao mesmo tempo, uma gloria militar e artistica, de que o Brazil se póde vangloriar.

Agora duas palavrinhas, a proposito d’este seu trecho:

Não vi o Osorio, de Almeida Reis, e não o vi propositalmente, porque, tendo-se estabelecido certa rivalidade entre os dous artistas, não quiz provocar azedumes nem desgostos”.

Se o collega é, na realidade, amigo de um e de outro e não quer desgostar a qualquer d’elles, errou o seu proposito.

Em primeiro logar, nego positivamente a sua amizade para o Bernardelli. Se assim fosse, não o compararia ao Almeida Reis. Não póde haver offensa maior do que certas comparações, quando ha distancias de... leguas entre o merito dos comparados.

Além d’isso, a amizade nunca deve entrar em questão de arte.

O escriptor escreve para o publico e não para os amigos; a não ser assim, o critico fará sempre um triste papel.

Querer apresentar o Sr. Almeida Reis como rival de Bernardelli, é de um ridiculo sem nome! É até, um insulto que involuntariamente - estou convencido - atirou a um artista tão distincto quanto notavel.

O que vale é que todos darão o devido apreço a semelhante disparate, levando-o á conta da ignorancia do auctor em materia de arte.

Não se escame agora o collega comnosco, por termos a franqueza de fallar assim, e ponha, sempre que tiver de escrever para o publico, os seus amigos de parte.

Ou, então, não diga nada, que ainda é o melhor.

X.

1888, ano XIII, n. 481, p. 6. 

Bellas-Artes

Um sincero agradecimento ao distincto pintor Sr. Rodolpho Amoedo pela offerta de uma lindissima photographia, copia do seu esplendido quadro que figurou no Salão, em Paris, Daphne e Cloé [imagem].

Brevemente, o publico terá occasião de observar esse bello trabalho, que servirá de consagração ao nome já festejado d’este notavel artista.

Depois que chegou - de perfeita saude e cheio de animação -, pelo que o felicitamos, Amoedo não tem estado inactivo, applicando-se aos trabalhos de preparo da sua téla, uma das mais preciosas que vae contar a Academia das Bellas Artes.

Tendo permanecido oito annos na Europa, no estudo da sua arte e no cultivo dos principaes pintores, como pensionista da Academia, volta-nos o brilhante artista com o producto dos seus trabalhos e os melhores desejos de ver a sua arte prospera e respeitada, aqui, aonde a teem feito soffrer tantos supplicios.

Felicitando o talentoso pintor, reservamo-nos para escrever com mais vagar sobre o seu quadro, quando fôr aberta a exposição.

***

As commissões dos monumentos a Osorio e Caxias, contractaram a execução d’essas estatuas com o distincto esculptor Rodolpho Bernardelli, um dos primeiros esculptores, não dizemos que o Brazil possue, mas que o mundo possue.

Rodolpho Bernardelli é condecorado, na Europa, por merito artistico, e bastaria a sua esculptura da Adultera para lhe dar um dos primeiros lugares entre os esculptores modernos.

As commissões são dignas de um voto de louvor, pela deliberação que tomaram e na qual só e unicamente preponderou o merito do eminente artista.

Folgamos com esse acto de justiça.

***

Acha-se publicado o relatorio da aula de pintura da Academia, no ultimo anno. É da lavra do distincto professor Sr. João Zeferino da Costa, a cujos esforços se devem aos progressos reaes que os alumnos da dita aula estão revelando.

O trabalho do Sr. Zeferino da Costa é digno da attenção dos especialistas e honra sobremaneira o seu talento e a sua seriedade.

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Por todo este mez, inaugura o symphatico pintor A. Parreiras, uma exposição de quadros e trabalhos seus.

Comparecem a Princeza imperial e seu augusto esposo.

A exposição do Parreiras consta de uns 20 quadros, quasi todos executados em Cabo Frio, ha pouco tempo.

S. Marcial

1888, ano XIII, n. 482, p. 2.

Jorge Grimm

Com o maior pezar recebemos a noticia do fallecimento desse distincto artista, de quem, por varias vezes, nos temos occupado n’esta folha, quando, cheio de saude e com um ardor infatigavel para o trabalho, apresentava-nos télas dignas dos mais altos encomios pelo modo franco e largo com que eram pintadas, notando-se em quasi todas uma perfeita observação da nossa natureza, desesperadamente verde ás vezes, mas riquissima e do mais extraordinario pittoresco.

Ainda nos lembramos de algumas paizagens que, pouco antes delle partir para a Europa, vimos na casa do De Wilde. Representavam a serra dos Orgãos tomada de varios pontos, cada qual mais original, mais phantastico. Eram as ultimas que elle tinha pintado e com a intenção de leval-as comsigo. Queria talvez, assim, não separar-se inteiramente, do Brazil, onde tanto tinha trabalhado, e, ao mesmo tempo, concorrido poderosamente para desenvolver o gosto pela paysagem.

Encarregado pela Academia de Bellas Artes de dirigir essa aula, Grimm, cujo caracter franco e brusco, ás vezes, não se conformava com o systema retrogrado e jesuitico dos que dirigem esse estabelecimento, tratou logo de carregar com os seus discipulos para o campo e disse-lhes: “A verdadeira Academia é esta!”

O resultado foi magnifico, e, pouco tempo depois, os seus discipulos apresentaram trabalhos que mereceram geraes applausos.

Caron e Vazquez, actualmente na Europa, Ribeiro, França Junior, A. Parreiras e outros, cujos nomes não lembramos, sentirão muito, estamos convencidos, a morte de quem guiou os seus primeiros passos, levando-os, com decisão, pelo verdadeiro caminho da arte.

X.

1888, ano XIII, n. 483, p. 6 e 7.

Bellas Artes

Os dois quadros que nos trouxe Amoedo e que se acham expostos na Academia das Bellas Artes, são verdadeiramente dignos de serem admirados. Não queremos dizer com isto que elles representam a sua ultima palavra, não; o proprio artista está convencido de que ainda não fez tudo quanto poderá fazer e muito temos ainda a esperar do seu talento, quando descançadamente poderá entregar-se ao trabalho, escolhendo assumptos á sua vontade, para os quaes sente maior vocação, sem os apertos em que geralmente se acha um pensionista que tem de attender a escassez do tempo, ao genero do assumpto e quasi que, até ao modo de pintar, para ter a approvação das altas capacidades artisticas da nossa imperial Academia das Bellas Artes.

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Gostamos bastante dos dois quadros e mais ainda do Daphnis e Chloé. A composição deste ultimo é esplendida.

Compenetrando-se perfeitamente do assumpto, o artista deu um que de singelo, de agreste e de simplicidade que agrada immensamente á primeira vista; e direi até, á segunda, se a entoação da carne do velho fosse menos rosada, menos limpa, e outros pequenos senões de desenho.

Amoedo está convencido e eu tambem, de que copiou fielmente o natural e que o modelo dava exactamente esse effeito e essa côr. Será essa uma razão para estar na verdade? Não. Se se tratasse de um estudo do nu, de accordo, deve-se copiar exactamente. Porém trata-se de um qadro; da reproducção de um facto, que obriga a pensar mais um pouco, do que em pôr simplesmente na téla o que temos diante dos olhos.

Ora, como o velho Philectas não andava nem de paletot, nem de calças e até mesmo sem camisa, não podia ter a mesma côr de pelle dos modelos que só se despem diante dos artistas, para a execução de seus quadros. É natural, pois, que a d’esse velho patusco, exposta ao sol, á chuva e á poeira, não tivesse uma cor tão delicada, e que a torna por demais semelhante á da joven Chloé.

Comprehendo que o Amoedo não podia, com os poucos recursos de que dispõe um pensionista, dizer ao modelo: Vá passear no campo, durante trez meses, com os trajes do pae Adão e volte”. Mas nem por isso, posso deixar de reparar nesse descuido.

Hoje, a critica moderna, muito mais exigente do que em outros tempo, aponta todos esses senões, o que obriga o artista a ser o mais realista possivel. Alguns da escola antiga revoltam-se contra esse realismo e acham que uma perna é mais bonita limpa do que empoeirada.

Mas a verdade é sempre a verdade; e esta não póde ser sacrificada a velhas convenções. Neste caso, eu voto pela perna empoeirada.

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O outro quadro, “Christo em Capharnaum” é tambem agradavel de composição, se bem que este cheira um pouco a systema antigo. Aquelle doente (com certeza não está para morrer) e apresenta igualmente a carnação de um modelo forte, sadio e accostumado a passar bem. De todas as figuras é esta a mais bem acabada: aquellas pernas são admiraveis. A vista de um nu tão bello, Amoedo não resistiu e com todo enthusiasmo attirou-se a elle. O mesmo não podemos dizer das outras figuras. O artista entendeu que eram secundarias e tratou-as com pouco caso, quasi que nem as acabou.

Não lhe levo isso a mal e o seu quadro pouco perde com estarem ou não bem acabadas algumas figuras; o effeito seria o mesmo e aqui a questão é mesmo de effeito. Parece-nos prem que não deveria levar este até a exageração, descurando figuras que se acham tão proximas e cujo tamanho é quasi o natural.

O Christo entra bem e tem bastante magestade, talvez de mais. Quanto a isto nada ha a dizer; cada um trata-o como sente. O fundo é simples, e terá um que de sombrio e mysterioso, em todo elle. O que o torna muito agradavel.

Em summa, é um bello quadro, ou antes, são dois bellos quadros, que merecem os maiores applausos.

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Com verdadeiro prazer vejo que o publico já não se mostra indifferente pela arte, entre nós, como notava-se antigamente. As exposições já são concorridas: os nomes dos Bernardelli, Zefirino, Amoedo, Decio Villares, Almeida Junior, Peres, Driendl, Caron, Vasquez, Duarte, Parreiras, Ribeiro, Gensollen, Hilarião, Belmiro Monteiro, e muitos outros, cujos nomes não nos occorrem n’este momento, são amiudadas vezes pronunciados nos grupos dos amadores que, cada vez mais, se vae engrossando, discutindo sobre o merito de tal ou qual artista, amador ou amadora, pois que entre estes contam-se alguns verdadeiramente notaveis: citarei o nome de França Junior, mas calo o das senhoras, para não offender susceptibilidades com algum esquecimento.

Esse movimento artistico notou-se de alguns annos a esta parte, desde que os artistas tomaram a resolução de exporem os seus trabalhos, sem esperarem pelas exposições officiaes da Academia das Bellas Artes, que só apparecem, quasi, de dez em dez annos.

A principio, só iam os amigos; estes depois levaram outros, e, o que acontece com as vitrinas da rua do Ouvidor, dá-se exactamente com as exposições de quadros.

Qualquer objecto exposto n’uma vitrina, quer tenha ou não valor, o publico passa indifferente; se porém dois ou tres individuos se puzerem a olhal-o attentamente, em menos de 10 minutos perto de cem pessoas estarão agrupadas em volta, procurando vêr, ou indagando o que é? do que se trata? etc., etc.

Não admira, pois, a grande concurrencia que tem havido nas duas exposições, que existem actualmente: a do Amoedo que voltou de Europa de borla e capello e a do Parreiras que para lá parte neste mez, onde irá a perfeiçoar-se na sua arte de paisagista e de onde, estou convencido, voltará um perfeito artista. Activo, intelligente e trabalhador, Parreiras tem tido o bom senso de não inchar com o incenso venenoso dos louvores exagerados; por isso tem elle feito muitos progressos e ainda ha de progredir porque elle sente que em arte não se chega facilmente á perfeição, e por mais que se estude, sempre ha que estudar.

Os seus ultimos estudos expostos na rua do Ouvidor em casa do Insley Pacheco, tambem artista e o nosso melhor photographo, sempre prompto a pôr, á disposição dos artistas tanto a sua pessoa como a sua casa, tem tido muito apreciadores e creio que, até esta hora, estão todos vendidos.

S. Alteza e Regente, honrou o artista com uma visita e com a aquisição de dois quadros. Parabens ao Parreiras e parabens, igualmente, ás pessoas que o auxiliarem, comprando-lhe os seus trabalhos.

Um outro artista tambem de muito merito e que merece igual protecção é o Ribeiro. Excessivamente modesto e de caracter em demasia acanhado, não tem podido ainda, até hoje, fazer-se conhecer como merece. Os seus trabalhos expostos, haverá dous mezes, no acreditado estabelecimento photographico dos Srs. Carneiro & Tavares, na rua de Gonçalves Dias, agradaram-nos immensamente, attendendo ás difficuldades materiaes com que elle luta para trabalhar.

Companheiro de estudos do Parreiras e tambem discipulo do Grimm, o Ribeiro, que possue como os outros a mesma vocação e amor ao trabalho, alcançará, esperamos, os meios de poder ir á Europa unir-se aos collegas Caron, Vasquez e Parreiras, formando, assim, o mesmo grupo artistico que via-se, ha tres annos acampar nas praias ou immediações de Nietheroy, fincando cada um o seu chapéo de sol, abrindo o cavallete e dispondo-se a reproduzir na tela a nossa esplendida natureza.

Só um companheiro faltará n’esse grupo, e esse é o mais importante; é quem os guiava, quem lhes dava animo; quem lhes fazia supportar sol e chuva e muita rabugice quando o trabalho não lhe agradava. Esse é o Grimm, o professor e o amigo, que tanto empenho tinham em ensinar-lhes como elles em aprenderem.

Ás vezes, por lá tambem apparecia um outro companheiro, quando os seus affazeres lh’o permittiam. Este não pretendia dedicar-se á arte; a sua carreira social era outra. Por isso mesmo, creio, achava certo encanto n’essa vida de artistas, que mais se importam com a natureza de que com a humanidade, e que só tem esta em consideração quando expõem, diante d’ella, os seus trabalhos artisticos.

Este companheiro sui generis apparecia, pois, quando [...?] fora do seu juízo, - isto dizia elle.

Já todos sabem que trata-se do França Junior, doutor, quando curador de orphãos e amador-artista, nas horas vagas.

O Grimm, infelizmente, como já noticiamos, morreu em Palermo, na Sicilia, onde fora tratar-se as terrivel molestia que appanhara nas nossas mattas, tão bellas quão perfidas. Confiando na sua robustez, descuidou-se e já era tarde quando d’aqui partiu para nunca mais voltar!

Deixou-nos alguns bellos quadros e mais do que isso, uma herança preciosa; são os seus discipulos que enriquecerão as nossas galerias com os seus trabalhos e que guardarão sempre na memoria a saudosa lembrança do excellente mestre que lhes guiou os primeiros passos, no difficil e espinhoso caminho da arte.

No dia 30 de janeiro, os discipulos do Grimm, Ribeiro, Parreiras, França Junior e alguns amigos mandaram-lhe dizer uma missa, em manifestação de pezar.

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Consta que Amoedo vae ser nomeado professor da aula de pintura.

Até ahi, está bem, mas dizem, igualmente, que o professor Medeiros, que ensina desenho e que, apezar d’isso, ainda não o apprendeu, tem a pretenção de querer para si a cadeira da aula de paisagem onde se senta actualmente o Zeferino da Costa.

Isto é um cumulo... academico!

Não será uma pequena vingança da celebre congregação contra este distincto professor, que protestou juntamente com Bernardelli, contra o julgamento do premio de viagem?

O Sr. Maffra, provavelmente, é quem póde informar.

X.

1888, ano XIII, n. 484, p. 2. 

Pequenos Echos

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Quadro impressionista

O Sr. Rouëde passou para a téla a animada prespectiva da ilha de Paquetá, durante a festa de domingo ultimo.

O quadro representa um effeito de noite, á beira do mar, junto á residencia do Sr. Lage.

Ao lado fica a nova ponte, illuminada a luz electrica.

E, por toda a parte o brilho das [...?] nações, dos balões venezianos, da explosão dos fogos, dão á tela um brilho phantastico.

O quadro vae ser offerecido ao Sr. Lage e é uma bonita lembrança.

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Dominó.

1888, ano XIII, n. 488, p. 3. 

Pequenos Echos

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O Concurso da Academia

Até em sua ultima hora, o ministerio demittindo nos pregou uma partida!

Ora imaginem que tendo nós ficado furiosos, com a classificação escandalosa do Concurso da Academia, agora, que o concurso foi annulado, teriamos immenso prazer em dirigir os nossos elogios, aos auctores de tão bello acto.

Mas, o ministerio não existe mais, de sorte que não sabemos a quem dar os parabens.

N’estes apuros, attendendo a que a annulação d’esse concurso é um dos actos mais justos e dignos de louvor, que se teem dado, nos ultimos tempos, vamos dirigir os nossos parabens, aos dois escolhidos.

Os Srs. Oscar e Berna, não imaginam que serviço lhes prestou o governo!

Entrar na arte por uma porta-falsa - é o mesmo que um suicidio.

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Antonio Parreiras

Partiu para Roma, aonde vae passar dois annos de estudo, o distincto pintor paisagista Antonio Parreiras.

Que seja feliz e que attinja o bello ideal, que o seduz - eis os nossos votos.

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Dominó.

1888, ano XIII, n. 491, p. 3.

Rodolpho Bernardelli

Partiu para a Italia, a bordo do vapor Provence, o insigne esculptor, cujo nome nos serve de epigraphe e que, hoje, todos consideram como a nossa primeira e mais notavel organisação artistica.

Bernardelli, tendo sido encarregado de executar as estatuas do Duque de Caxias e Osorio, vae á Italia, buscar os materiaes, para essas duas grandes obras.

Desejando-lhe feliz viagem, fazemos votos por que sua demora não seja longa, pois d’esses espiritos illustrados e d’esses caracteres serios, muito carece o paiz.

Desde a sua entrada para a Academia das Bellas-Artes, que ali se nota um movimento benefico, que, esperamos, tirará essa instituição da apathia e da nullidade em que tem vivido.

Um adeus a Rodolpho Bernardelli e - até breve!

Sem assinatura.

1888, ano XIII, n. 492, p. 3.

Um acto de Rodolpho Bernardelli

Na ausencia de um amigo, a quem sempre votamos amisade e admiração, é-nos mais grato, ainda, registrar n’estas paginas um acto, que, lhe faz muita honra, pois mostra que quando a vida se lhe abre mais risonha, elle não sabe esquecer-se dos que teem de luctar com toda a especie de difficuldades, para attingirem um desideratum, semelhante ao seu.

A carta de Bernardelli, que abaixo publicamos, dispensa qualquer commentario e por si só desvenda o coração e o caracter do laureado auctor do Christo e a adultera.

Alguns amigos já se associaram á bella iniciativa de Bernardelli, e contamos, que em breve, Belmiro de Almeida poderá dispor dos recursos necessarios para uma viagem de estudo, á Europa.

Eis a carta:

Rio de Janeiro, 27 de março de 1888.

Amigo Belmiro,

Não obstante as multiplas attribuições que tenho a cumprir, referentes aos meus trabalhos dos monumentos ao General Ozorio e ao duque de Caxias, não me esqueci de ti.

Não foste feliz no concurso do Premio de Viagem á Europa apesar do teu talento, em virtude da erronea deliberação tomada pela maioria da congregação da Academia das Bellas Artes.

A justiça, porem, praticada pelo governo imperial, annullando esse concurso, se não te dá o direito que tinhas a esse premio, pela superioridade do teu trabalho, te servirá, comtudo, de conforto.

Estou bem certo que o novo concurso a que se tem de proceder, tu o vencerás; mas, esse concurso ainda se demorará, e eu que trabalho, como sabes, para o incremento das artes no nosso paiz, entendo que não podes esperar mais tempo para o teu aperfeiçoamento, na Europa. Promovendo, portanto, os meios para que possas completar os teus estudos na Europa, sem o auxilio da Academia, esse beneficio recahirá em outro, dos muitos moços, que aspiram ao mesmo fim.

Assim, entendo pôr á tua disposição, por espaço de cinco annos, a quantia de cinco libras sterlinas  (L 5), mensaes.

Não é costume, entre nós, este genero de pensões particulares, mas estou convencido de que abrindo eu o exemplo, os nossos amigos, que presam as artes não deixarão de acompanhar-me em tão justo, quão civilisador fim.

Ficará subentendido, meu caro Belmiro, que esta pensão, que eu e os nossos amigos te offerecemos, será sob a nossa palavra de honra cumprida, até ao fim do praso de cinco annos, se conservares a conducta que até hoje tens sabido manter, cômo homem e como artista.

Teu amigo dedicado,

Rodolpho Bernardelli.

Em seguida a estas bellas palavras, e associando-se ao elevado sentimento que as dictou, inscreveram-se, logo, algumas pessôas que tiveram conhecimento da carta de Bernardelli.

A lista é a seguinte:

Rodolpho Bernardelli................................................................................................L5

Carlos de Moraes......................................................................................................L3

Ferreira de Araujo.....................................................................................................L2

Alfredo Coelho da Rocha..........................................................................................L2

Angelo Agostino.......................................................................................................L2

Luiz de Rezende........................................................................................................L2

É com desvanecimento que tornamos publico este facto, desejando, que, em breve, ao talento tão promettedor de Belmiro se abram novos e mais dilatados horisontes e que o cultivo das artes e dos artistas do velho mundo, nos restitua, d’aqui a uns annos, completo e triumphante, um nome que venha honrar as tradicções do nosso paiz.

Taes são os votos da Revista Illustrada.

J. V.

P. 6.

Bellas-Artes

De algum tempo a esta parte, tem-se notado extraordinaria mudança nos espiritos e uma certa tendencia em sahir-se fóra da rotina e preconceitos antiquados, que não servem senão de embaraço a reformas das mais urgentes e imprescindiveis para um paiz predestinado pela natureza a ser mais alguma cousa, do que tem sido até hoje.

A questão do elemento servil está felizmente a expirar, para o bem de toda a humanidade em geral e do Brazil em particular.

O novo gabinete é quem está encarregado de dar os ultimos sacramentos a essa nefanda instituição, causa principal de nosso atrazo politico e social.

Que o diabo carregue semelhante praga e que a escravidão, hoje odiada por todos, vá para o inferno expirar os horrores que durante trez seculos envergonharam o paiz... É o que sinceramente desejamos.

Mas, o que tem as bellas-artes com as taes reformas? perguntarão os nossos leitores... Muito, dizemos nós, pois que a nossa Academia tambem tem de ser reformada totalmente, tanto no estabelecimento, de todo o estrago feito pelo Sr. Bithencourt da Silva, como no seu pessoal, de que apenas se póde aproveitar trez professores.

O que aconteceu no ultimo concurso de viagem, dá uma perfeita ideia do que é a tal congregação, na sua maioria. Capitaneada pelo Sr. Mafra, cujo caracter e quase o tornaria notavel na companhia de Jesus, e secundado pelo tenente Silveira, porteiro do estabelecimento, a congregação diz amen a tudo quanto ordena o poderoso secretario, director.

Acostumado, de longos annos, a governar a seu talante a Academia das Bellas-Artes, a sua influencia exerce-se até sobre o proprio director Nicoláo Tolentino, cuja capacidade e conhecimentos artisticos ficaram provados, mandando, um dia, procurar os braços da Venus de Milo, que julgava terem sido quebrados pelos alumnos.

Sabendo pois o Sr. Mafra, que, se a commissão julgadora do Concurso de Viagem, fosse composta, como marcam os estatutos, elle não levaria a sua ávante, tratou de arranjar uma commissão a seu jeito, ponde de fóra o professor de pintura historica, o Sr. Zeferino da Costa, para tomar elle, simples professor de ornatos, o lugar d’este.

Felizmente, S. Quase a Regente, cujo modo de ver ácerca de bellas-artes, acompanha o progresso, não se deixou levar pela rotina do Sr. Mafra, já tão mumificada quanto o é o seu physico, nem pela decisão da commissão Mafra-Bithencourt-Medeiros, nem pela votação dos carneiros de Panurgio, que formam a congregação, nem pelo parecer do Conselho d’Estado, que, das materias d’esta ordem, entende tanto como eu de dizer missa.

Consultando, simplesmente, o seu bom senso e o proprio regulamento da Academia, ácerca do modo de formar-se a commissão para o julgamento do Concurso de Viagem, S. Quase observou ao poder executivo que a tal commissão, que deve passear, não estava legalmente constituida e portanto nulla a sua decisão.

E o Sr. Cotegipe, diante de tão justa e legal observação, apressou-se em annullar o concurso.

O Director da Academia, Sr. Tolentino, comprehendendo então, que o Sr. Mafra tinha-lhe pregado uma peça, fazendo-o nomear uma commissão illegal, pediu a sua demissão.

O Sr. Mafra, sentindo o seu poder abalado, derramou copiosas lagrimas no collete do Silveira, com quem se abraçará, e este, levantando os olhos para o tecto, exclamou:

- Lá se desmorona a nossa igrejinha toda!

A congregação vendo o triste papel que tinha feito estremece e comprehende que os retratos que d’ella démos, n’esta folha, estavam parecidissimos. Assim, ao menos, o declarou o Sr. Rozendo Muniz, professor da Anathomia e Physiologia das Paixões, que bastante apaixonado ficou ao deparar com aquellas suissas, ornando a sua veronica.

- Em outra não me pilham! disse o illustre vate, olhando para o Sr. Mafra. Para outra vez, eu hei de pensar melhor; só consultarei quem entenda, antes de dar o meu voto.

Se assim fizer terá os nossos applausos e ninguem mais rirá á custa de suas bellas suissas.

(Continua)

X.

1888, ano XIII, n. 493, p. 6.

Bellas-Artes

Antes de prosseguir n’este artigo, que começamos no numero passado, seja-nos permittido endireitar aquillo que sahiu torto e pôr as cousas de modo a que se comprehenda o que parece incomprehensivel.

Trata-se pois de uma errata.

Em lugar de “S. A. observou ao poder executivo que a tal commissão que deve passear, não estava legalmente constituida etc” como sahiu publicado, leia-se:

... que a tal commissão que deu parecer, não estava etc.

Ora, entre, “passear” e dar “parecer” há uma grande diferença.

Dado este pequeno cavaco e collocados as cousas nos seus eixos começamos, ou antes continuamos.

---

O Sr. Bithencourt da Silva, profundamente escamado com a annullação do concurso, e offendido em seus brios entendeu dever acompanhar a resolução tomada pelo director da Academia, e pediu a sua aposentadoria. Damo-lhe os parabens; não podia fazer cousa melhor.

Os dois outros membros da commissão julgadoura Mafa e Medeiros depois de bem pensar sobre o caso e pesar as vantagens e desvantagens que resultariam de um pedido de demissão, que provavelmente seria aceito, e talvez com enthusiasmo, resolveram engulir a plilula, com uma coragem digna de melhor cousa.

Começaram então a comprehender que as cousas mudaram e que o merito e a sisudez vinham substituit a ignorancia artistica e a manhosa direcção, que por tanto tempo imperaram na nossa Academia em deprimento das bellas artes, atrophiando estas por todos os modos, impedindo as de desenvolverem-se e mostrando a maior má vontade contra os alumnos, que revelavam verdadeiro talento e de quem se podia esperar alguma cousa, para o futuro.

A chegada de Rodolpho Bernardelli é que occasionou essa revolução, simplesmente por ser elle um verdadeiro artista, honesto e sizudo. Tomando a serio o seu cargo de professor, procurou introduzir varios melhoramentos e um systema mais moderno de ensino, em beneficio dos proprios alumnos, que elle desejava ver progredir.

Foi quanto bastou para conquistar a antipathia do illustre secretario, que não admittia que lhe viessem bulir na academica igrejinha.

O Sr. Bithencourt não tardou a alliar-se ao Sr. Mafra, na antipathia votada ao Bernardelli, pelo facto de este declarar e provar que a reconstrucção da Academia tinha completamente inutilisado todas as salas de estudo, a ponto de não ser mais possivel ensinar nem desenho, nem pintura, nem esculptura, nem cousa alguma.

Na verdade, essa opinião não é só do Bernardelli, é da e todas as pessôas que a nossa Academia das Bellas Artes.

Entretanto, o Sr. Bethencourt diz cobras e lagartos desse grande artista, que tanto honra a arte nacional e de quem deveria orgulhar-se de ser collega.

Muito nos admira esse proceder do director do Lycêo, em quem ninguem pode negar intelligencia e que passa ou deseja passar por um apostolo das bellas-artes e propagador das mesmas.

É forçoso confessar que no caminho que elle toma, seja na construcção dos edificios applicados ás artes, ou na sua admiração ou antipathia, que elle dedica aos artistas, elle anda completamente errado.

Com certeza, elle tem consciencia d’isso e esperamos que, mais tarde (entretanto já é tempo!) elle mude de parecer, entrando no bom camingno.

(Continúa)

X.

1888, ano XIII, n. 494, p. 2 e 3.

Bellas-Artes

É mais que evidente, hoje, que a nossa Academia de Bellas Artes precisa de uma reforma radical, começando por abandonar o edificio em que funcciona, por ser de todo imprestavel. Não menos imprestaveis os seus estatutos, fabricados quase que no tempo de D. João VI , o que para o Brasil, em comparação á Europa, é equivalente á epocha anti-diluviana.

Por exemplo: qualquer deliberação tomada pela directoria ou pela congregação dos professores, presidida pelo director da Academia, não pode ser posta em execução, sem que seja consultado o Sr. ministro do imperio. Precisa-se mudar o horario de uma aula, consulta-se o ministro; necessita-se pagar vinte ou trinta mil réis a um individuo, que serviu para modelo na aula de desenho, consulta-se o ministro, urge comprar-se um espanador e mais duas vassouras, e pagar-se o carreto ao portador, das ditas, avisa-se o ministro para este mandar satisfazer a importancia, por intermedio do Thesouro nacional.

E é deste modo que se pagam insignificantes e ridiculas quantias, para as quaes são precisos officios, requerimentos, avisos e não sei que mais, que sobem, baixam ou descem, durante uns poucos de dias, pelos canaes competentes - como dizem [...?] estylo administrativo - formando enorme papelada, a qual leva não sei quantas rubricas de chefes de secções e escripturarios, para tornar a subir e de novo descer etc, até que, afinal, um bello dia, isto é, algumas semanas ou mezes depois, vem publicado no “Diario Official”: Pague-se ao Sr. Fulando dos Anzoes Carapuça a quantia de 2$000 rs. etc.

E isto não é só em relação á Academia; é em tudo que diz respeito á administração publica!

Todavia, um estabelecimento que tem á testa delle um director, um vice-director, um secretario e não sei que mais, e além de tudo isto, uma verba especial no orçamento do Imperio, para as suas despezas, párece-nos que deveria, por si, resolver qualquer questão disciplinar, administrativa ou de regulamento interno e pagar toda e qualquer despeza, que estivesse dentro do seu orçamento, sem ser preciso consultar e incommodar, por bagatellas, um ministro, que tem mais que fazer do que indagar se realmente as vassouras velhas estão no caso de serem substituidas, por outras novas, ou se o carreto poderia custar meia pataca ou menos.

O que é extraordinario em tudo isso, é a posição do director da Academia! Para que serve então um director, se por si não pode resolver as questões mais simples de pura administração, n’um estabelecimento que dirige? se qualquer deliberação tomada em congregação de professores, por elle presidida, não póde ter andamento sem a approvação do ministro, que não assiste á discussão e ignora totalmente o assumpto de que se trata?

Já se vê que nada pode haver de mais absurdo, do que esse systema, que colloca o director de um estabelecimento dessa ordem, na posição de um personagem verdadeiramente inutil e nullo, posição aliaz resignadamente exercida, durante longos annos, pelo ultimo director, até ao dia em que pediu a sua demissão.

Nesse dia, o Sr. Conselheiro Tolentino deixou, de estar em posição ridicula!

Não era de esperar, que gozando da fama de homem serio e sizudo e que nem sequer tinha - felizmente para elle! - a desculpa de necessidades, se sujeitasse, durante tanto tempo, ao triste papel que representou, agravado ainda pela circumstancia de ser leigo em mateia d’arte, ficando na retaguarda do ultimo discipulo da Academia.

Ora, é preciso concordar que quando um estabelecimento tem á testa da sua direcção uma capacidade artistica dessa ordem não são para admirar todos os disparates que de lá teem sahido, emquanto não se der uma nova direcção, que acabe de uma vez com as constantes e justas queixas, que se levantam contra a Academia.

O ex-director, em quem todos reconhecem qualidades apreciaveis, muita affabilidade e extrema dilicadeza, tem em parte, grande culpa de tudo isso, por ter-se deixado governar, em absoluto, pelo Sr. Mafra, secretario da Academia e professor de ornatos.

O Sr. Mafra, de quase muitos annos, comprehendeu que o director verdadeiro devia ser elle, em vista da falta de conhecimentos artisticos do director official. Por esse lado, achamos que elle tem razão, pois que, se assim não fosse, a atrapalhação academica ainda seria maior. Dotado de muitos conhecimentos e intelligentissimo, o Sr. secretario poderia prestar relevantissimos serviços, se juntasse á sua vasta illustração artistica, o desejo de acompanhar a evolução que a arte tem soffrido, quase alguns annos a esta parte.

Infelizmente, o Sr. Mafra é intransigente e não admitte que a arte possa progredir, sahindo fóra das regras e convenções das antigas escolas italianas, hespanholas ou flamengas, que hoje todos repudiam, sem todavia deixar de admiral-as, por entender-se, e muito bem, que a arte deve ser livre, podendo cada artista dar o cunho da sua individualidade, no modo de sentir e executar, sem imitar nenhuma escola nem respeitar convenções e regras estabelecidas.

Ora, o Sr. Mafra deveria comprehender que essa evolução é toda natural; que hoje o modo de ver não é o mesmo de quase cincoenta annos; que tudo mudou e que a pintura, a esculptura, a musica e a architectura são interpretadas pelos artistas de um maneira inteiramente diversa.

Repugnando aos artistas modernos sujeitarem-se ao systema antiquado de ver do Sr. Mafra e respeitar uns estatutos que hoje são uns verdadeiros disparates, é natural que haja uma certa indisposição entre este e aquelles, dando em resultado uma infinidade de cousas desagradaveis que podem acabar em verdadeira chinfrinada, como ia acontecendo, não quase muito tempo, e que, por deferencia aos dous contendores, calamos seus nomes.

O Sr. Mafra julga-se forte, porque tem atraz de si quase toda a congregação de professores da Academia, não se contando, felizmente, entre elles, um só artista.  

E essa congregação o acompanha, porque, até hoje, o Sr. Mafra foi, sempre quem deu as cartas.

(Continúa).

X.

P. 6.

Academia das Bellas Artes

Do Sr. J. Zeferino da Costa, distincto lente da aula de paizagem, da Academia das Bellas Artes, recebemos a seguinte carta, que, com prazer publicamos.

Snr. Redactor.

O interesse generoso que a imprensa d’esta Côrte tem dispensado aos acontecimentos da Academia das Bellas Artes, principalmente depois do ultimo e celebre concurso do premio - Viagem á Europa - anima-me a expôr, pelas columnas de um jornal que com tanto fervor e criterio tem tratado d’essas questões, tudo quanto, em consciencia, entendo não dever deixar em silencio.   

Uma das questões, que, n’este momento, por desagravo de consciencia, julgo que nem a imprensa nem o publico devem ignorar, refere-se aos interesses da aula da paisagem, que, interinamente, dirijo.

Esta aula, que deveria como as outras da mesma Academia, começar os seus trabalhos nos primeiros dias do mez de março p. p, conforme determina o Regulamento, só hontem (18 de Abril) começou a funccionar, ficando, portanto, os respectivos alumnos prejudicados, já no principio do anno, em mez e meio de estudo!

Para que a responsabilidade d’esse facto anormal vá pesar sobre quem o motivou, passo a expôr o que a tal respeito se deu.

Depois da fatal questão do concurso ao premio - Viagem á Europa - lembrei-me de apresentar á congregação da Academia um relatorio dos trabalhos escolares, do anno ultimo, por occasião do julgamento das provas dos alumnos.

Lendo, em congregação, esse trabalho, aonde compendiava o meu modo de ver e as minhas observações, fui constantemente interrompido pela maioria da congregação, quér em termos inconvenientes, quér em apartes, que denotavam um desagrado que já se manifestava sem rebuco.

Finalmente, o meu relatorio, aquella exposição necessaria, pelas verdades, que lhe davam o maior dos meritos, teve a sórte dos papeis velhos: foi archivado!

Era a recompensa aos meus esforços; era o odio, germinando então, contra mim e os propositos de vingança, que não se fizeram esperar.

Dicidi-me, então, a publicar o relatorio, que mereceu da imprensa favoravel acolhimento, dignando-se tambem V. occupar-se do assumpto.

A Academia não viu com bons olhos a innovação; tive, porém, o desvanecimento de, mais uma vez, haver cumprido com o meu dever.

Mas, o professor J. Zeferino da Costa tinha sido um temerario e deveria pagar muito caro a sua ousadia!

Immediatamente pensou-se na melhor fórma de magoal-o, exonerando-o, e isto sem outras formalidades mais, do que pedir o professor da Cadeira de Dezenho figurado transferencia para a de Paizagem, leccionada por mim.

Manejada assim a intriga, como não desse resultado, procuraram outros meios, que foram, igualmente, baldados.

Então, recorreu-se ao estratagema: para que nenhum alumno pudesse matricular-se na aula de Paizagem organisou-se, para esta aula, um horario official incompativel, com o das outras, não obstante as providencias tomadas por mim, para que não acontecesse semelhante irregularidade!

Quando, para tratar-se da organisação do horario e programma das aulas, reuniu-se a Congregação no dia 18 de Fevereiro p. p., não tendo eu podido comparecer áquelle sessão, por incommodo de saude, dirigi um officio á Academia, em que muito por precaução, propunha que o horario da aula de Paizagem fosse livre; isto é, que nunca deveria semelhante horario complicar com o das outras aulas; isso, em proveito do incremento das artes no paiz, e porque, naturalmente, muito alumnos matriculados em aulas differentes, poderiam matricular-se tambem na de Paizagem. Na mesma occasião apresentei o respectivo programma.

(Continua)

J. Zeferino da Costa.

1888, ano XIII, n. 495, p. 2 e 3.

Academia das Bellas Artes

(Conclusão)

Aconteceu, porém, que em principios de Março p. p. quando deviam começar os trabalhos da aula de Paizagem, fiquei sorprehendido ao saber que o horario da referida aula complicava com o da de pintura-historica, com o da de Dezenho-figurado, e ainda com o da de estatuaria, e, recebendo uma lista, assignada pelo Secretario da Academia dos 18 alumnos matriculados na aula de Paizagem, verifiquei que estes alumnos estavam alguns matriculados na de pintura-historica e os mais na de desenho figurado.

Não sendo porém official a communicação relativa ao horario, pedi por officio de 15 de Março p. p., dirigido ao mesmo Secretario, que me inteirasse a respeito e muito para meu governo.

O Secretario da Academia, respondendo promptamente, remetteu-me uma copia da - Tabella - official do horario, declarando ter sido ella organisada pela congregação na referida sessão de 18 de Fevereiro e approvada pelo Governo em 23 do mesmo mez.

No dia 19 de Março assumindo interinamente a Directoria da Academia o Vice-Director e tendo S. Exª. conhecimento desta questão, convidou-me, pessoalmente, para conferenciar sobre o assumpto, concordando S. Exª. com as razões expostas por mim e promettendo tratar da rectificação do horario.

Entretando, não tendo até o dia 2 do corrente, recebido de S. Exª. communicação alguma a esse respeito, officiei nessa data, declarando que os almnos da aula de Paizagem (que é uma das superiores da Academia) já se achavam prejudicados em um mez de estudo, e que a bem do progresso d’elles e como salvaguarda da responsabilidade do professor, pedia que S. Exª. se dignasse de resolver a questão.

Em data de 6, porem, ainda não se tendo resolvido coisa alguma, dirigi-me a S. Exª. o Sr. Conselheiro Ministro do Imperio e apresentei-lhe minha representação, pedindo-lhe que com toda a justiça se dignasse dar as devidas providencias, afim de que não fôssem, por mais tempo, prejudicados no estudo os alumnos da aula de Paizagem.

S. Exª. o Sr. Ministro prometteu providenciar, nesse mesmo dia.

No dia 7 houve uma sessão na Academia, á qual não pude comparecer, e, em data de 13 baixou do ministerio do Imperio um aviso, n’estes termos:

Approvou-se o acto pelo qual a congregação da Academia das Bellas-Artes, á vista do pedido do professor interino de paisagem, para que fosse alterado o horario das aulas na parte relativa á Cadeira que rege, resolveu que o respectivo estudo se faça fora da Academia, ao ár livre, de manhã ou á tarde, conforme a estação, devendo todavia o dito professor comparecer no estabelecimento ás segundas, quartas e sextas-feiras, das 8 ás 9 horas da manhã”.

Em data de 14, recebi da Academia um officio, communicando-me este aviso, mas occultando a circunstancia de ser a alteração feita a meu pedido, em bem unicamente do ensino e do progresso dos alumnos, embóra mais incommoda para mim.

Eis, Sr. redactor, tudo quanto me cumpre expôr, afim de justificar a demora havida no inicio dos trabalhos da aula de paisagem, assumindo eu a responsabilidade do que tenho dito, e garantindo a veracidade dos factos allegados, que, todos, posso justificar com os documentos que ficam em meu poder. Soccorrendo-me da valiosa protecção da imprensa, só tenho em vista tornar saliente a causa dos prejuizos causados aos alumnos e precaver-me da censura, qualquer que ella seja, em relação ao tempo perdido de estudo.

Contra tal irregularidade e em bem do progresso dos alumnos, fiz tudo quanto me era licito, não me cabendo a minima parte de responsabilidade, pelas delongas havidas em resolver uma questão tão simples, como essa, da incompatibilidade do horario, cujos inconvenientes, muito antes de começarem as aulas, procurei remediar.

Digne-se, pois, V. aceitar esta minha defesa em tempo, e creia, que, com sinceridade lhe antecipo os mais cordeses agradecimentos, subscrevendo-me de V. etc.

Rio, 19 de Abril de 1888.

J. Zeferino da Costa.

1888, ano XIII, n. 496, p. 2 e 3.

Bellas Artes

A sorte dos artistas, não é lá das melhores, entre nós!

Um d’esses, que nos ultimos tempos, muito se tem distinguido e trabalhado, adquirindo já, um nome notavel, entre os seus colegas, Belmiro de Almeida, lucta contra a má vontade de inimigos gratuitos e poderosos, que na sombra, lhe difficultam os planos, por elle formados, para completar a sua educação artistica, na Europa.

Tendo Belmiro concluido um quadro, e este merecido francos elogios da imprensa e dos entendidos, propôz o auctor á Academia das Bellas Artes a acquisição do seu trabalho, afim de assim facilitar a sua projectada viagem de estudo á Europa.

O quadro era bom e estava muito nos casos de ser adquirido.

Foi mandado a uma commissão de professores, para dar parecer e esta manifestou-se nos seguintes termos:

O assumpto d’esse quadro é simples e portanto o é tambem a sua composição.

A attitude das duas figuras e as suas expressões dão bastante clareza ao assumpto; grupam-se bem entre si e com todos os accessorios do quadro; é justo, tanto no desenho como na tonalidade das tintas, produzindo, por consequencia, um effeito muito harmonioso, pelo que, estheticamente analysada esta composição, dá em resultado um conjuncto de linhas, massas e côres, muito agradavel e verdadeiro.

Em resumo, é um quadro cujos senões são tão insignificantes, de confronto com as bôas qualidades, que a commissão não hesita em julgal-o um bom quadro de genero”.

Belmiro pediu pelo seu trabalho o modico preço de dois contos e com esse provento contava, á vista do parecer, para a sua projectada viagem.

Taes embaraços, porém, tem encontrado a realisação d’esta ideia, da parte da Academia, que ha longos mezes o parecer dorme, e a solução final não dá signal de vida, prejudicando, assim, grandemente, um artista de quem há muito e muito ha a esperar.

É preciso que o digno ministro do imperio, não deixe a Academia em liberdade de praticar o mal e effectuar todos os escandalos, que lhe passam pela mente.

Relatando este facto, aqui lavramos o nosso protesto, contra os que querem exercer espirito de vingança em materia de artes, só porque o artista não é um adulador ou um salafrario.

Contamos que este negocio se decida, e que as vocações e os talentos brazileiros, que são a honra da geração moderna, não estejam, a cada passo, á mercê da má vontade ou do máu humor de certos rábulas, com pretenções a mandões, em assumpto de bellas artes.

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Para a pensão, aberta por Bernardelli, em favor de Belmiro e que se achava, como demos noticia em 16 libras, concorreu mais o Sr. Manoel V. Lisboa com L1, achando-se ella, actualmente, em L17, por mez.

Raul.

1888, ano XIII, n. 504, p. 2.

Firmino Monteiro

Falleceu terça-feira ultima, repentinamente, este distincto pintor, um artista apreciado por todos os que prezam as bellas artes e um moço, em cujo coração se aninhavam os mais puros sentimentos.

Firmino Monteiro tinha já um nome bemquisto e bastante popular, que lhe provinha da execução de alguns quadros de merito, taes como o Vidigal, a Fundação da Cidade do Rio de Janeiro e outros.

Ultimamente, trabalhava n’uma téla, destinada a grande successo, commemorando o grandioso facto da abolição.

A morte, colhendo-o de improviso, privou-nos de um dos melhores talentos da geração moderna, de um amigo a quem, devéras apreciavamos, e de uma obra, que a todos enchia de curiosidade.

Triplice face dolorosa, de uma mesma dôr!

Nas paginas da Revista já publicamos, em 1882, o retrato do laureado artista.

N’esse mesmo numero, (29 de Abril de 1882) viu a luz o seguinte artigo:

Mas não esqueçamos os vivos pelos mortos...

A Revista Illustrada reproduz hoje a Fundação da Cidade do Rio de Janeiro, a esplendida téla do Sr. Firmino Monteiro de que eu, por mais de uma vez, me tenho occupado.

Fui, mesmo, o primeiro a dar o alarme d’esse grande quadro, que o Rio de Janeiro hoje admira.

A Revista Illustrada tinha n’isso o empenho de um vaticinio; quando, ha trez annos, o Sr. Monteiro expoz o seu quadro Exequias do Camorim, nós dedicamos-lhe algumas palavras de animação, augurando n’elle um artista muito além do comum. Vemos, hoje, que não fomos mau propheta; a sua ultima obra colloca o notavelmente, acima do par.

Elle, entretanto, só bem tarde desconfiou de que era um artista. Antes de entrar para a Academia, o pequeno Antonio Firmino, encadernou livros n’uma officina da qual, aos vinte annos, chegou a ser director. Mas, então, ou porque o couro lhe cheirasse mal ou porque os in-folios lhe causassem horror, o encadernador deixou de bom grado a officina e fez-se alumno do Instituto Pharmaceutico, depois do Conservatorio de musica... Jeronymo Paturot, á caça de uma profissão, nem as pilulas nem os sustenidos nem os Deve - e - Haver o seduziram; e eil-o, finalmente, na Academia de Bellas-artes, para de lá sahir senão já um artista celebre, mas como Minerva armada para a conquista. Depois...  

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Depois trabalhou, trabalhou muito aqui, na Europa, e trabalha sempre...

Ha mezes, quando eu fui pela primeira vez ao seu atelier na esperança de ver apenas a Fundação da cidade do Rio de Janeiro, fui agradavelmente surprezo por uma galeria completa. É que para limpar os pinceis, depois do trabalho, elle suja adoravelmente uma tela d’alguna paisagem que lhe trota no cerebro... Anda sempre apressado. Outro dia eram tres horas da tarde elle voava para S. Domingos, onde foi esconder o seu atelier.

- Onde vaes com tanta pressa?

- Vou pintar uma cousinha d’après nature.

- A esta hora!

- É a unica hora em que ainda não pintei, e vou aproveitar os effeitos da tarde que promette estar magnifica.

Com todas essas qualidades, é todavia modesto, como não ha exemplo. Na vespera de abrir a sua exposição, diseutindo-se no escriptorio d’esta folha sobre o seu grande quadro, alguem lhe notou um quasi nada.

- Tens ahi a tua caixa de tinta? empresta-m’a, diz elle ao meu companheiro, ainda é tempo...

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E tudo isso, elle diz e faz satisfeito, alegremente. Porque muito contrariamente ao habito fastidioso da maior parte dos nossos artistas, o Sr. Firmino Monteiro não choraminga a sua sorte de artista e nem se lamenta da falta de gosto do publico, nem maldiz o momento em que se fez pintor, “n’uma terra em que o governo só cuida de política”  nem descrê; nem desanima, não. Elle crê, confia, trabalha e é um artista.

            Não vão agora pensar por esse preito que eu lhe rendo que o Sr. Firmino Monteiro é estrangeiro, não. Elle é brasileiro, nascido na muito heroica cidade de S. Sebastião.

            A Revista Illustrada tambem é patriota - quando é tempo - Julio Dast”.

            1888, ano XIII, n. 507, p. 3.

            Pedro Americo

            Acha-se na côrte, de volta da Italia, onde esteve executando um quadro commemorativo da independencia, o illustre pintor Pedro Americo, o laureado auctor da celebre téla A Batalha de Avahy, que tanto renome lhe deu.

            Regressando da Italia, com a sua nova obra concluida, Pedro Americo, foi directamente, a S. Paulo, aonde a entregou á commissão do monumento do Ipiranga.

            De S. Paulo, Pedro Americo veio para esta cidade onde tivemos, ha dias, o prazer de encontral-o e de conversar com elle alguns instantes.

            Comprimentando-o, pelo exito da sua nova téla, dissemos-lhe:

            - O peior, é termos de fazer uma viagem, para apreciar o seu quadro...

            - Não, respondeu elle sorrindo. Provavelmente, o quadro será exposto aqui.

            Eis a agradavel noticia que transmittimos aos nossos leitores.

Sem assinatura.

1888, ano XIII, n. 512, p. 3 e 6.

Pequenos Echos

***

            Acha-se em exposição em uma das salas do estabelecimento photographico do Sr. Insley Pacheco, á rua do Ouvidor, uma colleção de quadros do Sr. Pedro Wintergarten, distincto pintor rio-grandense.

            São télas primorosas, que revelam um artista de muito talento e de muitos recursos.

            O Sr. Wintergarten, hontem desconhecido para seus collegas, adquire, de repente entre elles a reputação de um mestre.

            Dizendo se que este nosso compatriota tem vendido alguns quadros na Europa, e que outros são reproduzidos, em gravura, nas Illustrações allemãs, teremos dito o sufficiente para justificar a elevada impressão, que os seus trabalhos nos causaram.

            É muito digna de ser vista e apreciada essa colleção.

***

            Agora, um episodio curioso...

            Tendo o Sr. Wintergarten offerecido ao Imperador um dos seus melhores trabalhos, remettendo-o para aqui, acaba de verificar, por acaso, que tal quadro não chegou ao seu destino.

            Aconteceu o seguinte: tendo sido recebido o officio ou carta do pintor, offerecendo o quadro, responderam-lhe, agradecendo a offerta, mas... esqueceram-se de tiral-o da alfandega.

            O Sr. Wintergarten ficou tranquillo, com a resposta, certo de que o seu mimo chegará ao destino que visava.

            Enquanto isto se passava o quadro ficava na alfandega e não sendo reclamado, era vendido em leilão por 160$000. O quadro vale, talvez alguns contos de réis.

            Agora trata-se de saber onde pára elle, e procura-se dar remedio a tão indesculpavel desleixo...

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Binoculo.

1888, ano XIII, n. 518, p. 2.

Angelo Agostini

Rio, 13 de outubro de 1888.

Seguiu para a Europa, quinta-feira ultima, a bordo do vapor Portugal, o nosso chefe e amigo Angelo Agostini, o fundador da Revista Illustrada e de tantos outros jornaes, que fizeram época.

            Tarefa inutil e mesmo superior ás nossas forças, seria a de tentar fazer n’este momento a sua biographia. Vibramos ainda, com a impressão profunda, que a sua auzencia nos causa e além d’isso iriamos repetir o que está tão brilhantemente dito por quasi todos os nossos collegas da imprensa, tanto da côrte como das provincias, que n’elle reconheciam um artista genial, cujo lapis inspirado e inesgotavel esteve sempre ao serviço das grandes causas de nossa patria.

            Os desenhos da Revista Illustrada teem tido bastante notoriedade e não são tão antigos, que possam estar esquecidos. E em cada pess;ôa que os contemplou, póde-se affirmar que Angelo Agostini conquistou um admirador.

            D’esde  o Cabrion, que o nosso director illustrou em S. Paulo, até poucos dias antes da sua partida, durante 25 annos, - ininterrompidamente - esse previlegiado talento esteve constantemente em acção creando paginas, ora de irresistivel hilaridade, ora de alta significação politica e social, assombrando o publico com a fecundidade do seu genio e o poder da sua imaginação.

            Os proprios adversarios que a sua critica victimava, passado o primeiro momento de exasperação, reconheciam de boamente, que o lapis do artista obedecia a principios e não a sentimentos mesquinhos.

            Dotado de indole cavalheirosa, Angela Agostini seguia as ideias que o fascinavam, sem indagar nunca, se isso lhe seria prejudicial ou não. Ardente, enthusiasta, de uma intrepidez que tocava as raias da temeridade, elle nunca quiz saber se tal ideia lhe traria uma chusma de assignantes ou a morte.

            Logo que a sua concepção lhe parecesse justa e espirituosa, não havia considerações, nem receios que o fizessem recuar.

            Democrata sincero, amigo do povo, fanatico das ideais que hão de fazer a grandesa do Brazil, o seu lapis atacou todas as fôrmas da oppressão, com um brilho e um impeto, que arrebatava a amigos e indifferentes.

            A campnha abolicionista, tão renhida e tão perigosa, teve-o sempre, nos pontos mais expostos e mais arriscados.

            Á libertação dos escravos, dedicou elle durante 20 annos, páginas e páginas que ficarão memoráveis em nossos annaes, desde um celebre desenho, na Vida Fluminense em 1870, até ás ultimas scenas d’esse morticinio de escravos da Parahyba do Sul.

            O primerio d’esses desenhos representavam um voluntario regressando da guerra do Paraguay, coberto de louros e encontrando sua mãe n’um tronco e seus irmãos sob o chicote do feitor.

            O segundo era a via dolorosa de alguns martyres da escravidão, cortados pelo açoite judicial na cadeia da Parahyba do Sul e arrastados exangues, ao som das pragas e das chicotadas, atravéz das estradas, onde a morte vinha colher os destroços d’esses corpos mutilados.

            Diante d’esse quadro nefando, todo paiz estremeceu e o sangue subiu-lhe ás faces.

            Angelo Agostini expunha a chaga em toda sua nudez, certo de que esse seria o meio de cural-a, indifferente aos insultos que lhe atiravam, e sem se importar absolutamente que dezenas e dezenas de assignantes lhe devolvessem o numero, com inscripções affrontosas.

            Ah! se o seu caracter não fosse tão inquebrantavel, se elle quizesse contemporisar um pouco, fingir que não via...

            Mas, qual! Bastava a suspeita de que alguem pensava n’isso, para que o seu lapis se tornasse ainda mais violento. Não é outra a história de alguma das mais esbraseadas páginas do seu jornal.

            No perigo e diante das ameaças, a sua audacia era indomavel; fóra d’isso era um coração ingenuo e bom, apaixonado pela sua arte, vivendo d’ella e para ella, estranho a toda a sorte de interesses.

            Após 25 annos de luctas e de trabalho ininterrompido, quando as paixões se applacam, quando os vencedores lhe fazem uma apotheose, e quando o povo agradecido o cobre de flôres, é que elle se julga com direito a tomar um suéto, a gosar de umas férias, a ir passar alguns mezes na Europa, no convivio dos artistas e na irradiação dos grandes centros civilisadores.

            A sua viagem não será inutil para a Revista Illustrada, pois um dos seus objectivos é conhecer dos melhoramentos e progressos que a arte do desenho e das ilustrações tem feito, para applical-os aqui.

            O seu lapis não ficará inactivo e contamos em breve publicar varias paginas, que elle ficou de enviar-nos e entre ellas a continuação do apreciado romance - As aventuras do Zé Caipora.

            Calculamos o vacuo que a sua ausencia deixa nesta folha... Mas, o caminho está traçado, e n’esse percurso que temos de fazer sós, o seu genio nos servirá de phanal.

            Isto, nos alenta.

Julio Verin.